Por Coelho Neto (1890)
Para pôr termo à discussão Toledo resolveu demorar mais dois dias na casa à espera de Crebillon e, depois de novos abraços, trazidos até à porta da rua pelo anatomista, pelo negro e pelo gato, os dois partiram saudosamente para a casa contígua.
Arranjando as estantes Ruy Vaz começou a fazer considerações literárias.
— Vê tu, se um de nós fizesse aparecer num romance esse misterioso João de Deus, a crítica havia de bradar contra a inverosimilhança, porque, deixa lá! Esse negro é fantástico.
— Está ali um famoso idiota ou um santo.
— Um santo, Anselmo, um virtuosíssimo santo.
— Receberá ele os sessenta mil réis do ajuste?
— Sessenta mil réis! Crebillon não daria isso por toda a costa da África.
— Pobre João de Deus! — Paupérrimo!
Bateram à porta do corredor. Anselmo foi abrir: era Carlota com uma salva na qual fumegavam cheirosamente duas xícaras de café. Anselmo sentiu violenta pancada no coração como se houvesse estourado um dos vasos vitais e, trêmulo, muito agradecido, tomou a bandeja das mãos delicadas de Carlota; ela, porém, para poupar-lhe o trabalho, relutou e, entrando, consentiu apenas que ele retirasse a xícara que lhe cabia indo, ela mesma, oferecer a outra a Ruy Vaz.
O romancista, que estava de cócoras arranjando os últimos raios da estante, ergueu-se alvoroçado, e, chuchurreando o café, que estava delicioso de gosto e de aroma, dirigia amabilidades a alemã, confessando que começava a achar encantador o aposento e propício ao trabalho com aquele silêncio imperturbável da rua e da casa.
— Os senhores são estudantes?
— Não, senhora: jornalistas. Dizemos jornalistas porque no Brasil o nosso mister não tem ainda classificação. Somos forçados a tomar de empréstimo à imprensa um título de apresentação. Em verdade nada temos de jornalistas:
fazemos romances e contos e lá de vez em quando um folhetim.
— Ah! Fazem romances? — Sim, senhora.
Carlota lançou a Ruy Vaz um olhar cheio de incredulidade.
— Como são os seus romances?
— Naturalistas.
— Ah! E o senhor também? empertigou-se:
— Não, senhora; eu sou romântico.
— Ah! Romântico... Aqui os senhores podem fazer muitos romances.
— Pois não.
— Bem, até logo. — Até logo, miss.
Carlota tomou a bandeja com as duas xícaras escorropichadas e foi-se graciosamente, deixando um leve perfume na sala e no corredor.
— É amável, heim?
— Amável! Pois sim. Pois não percebeste que essa gentileza foi um pretexto!
— Pretexto... para quê?
— Para ela fazer o inventário dos nossos haveres, que são a fiança dos oitenta mil réis mensais. Pensas, talvez, que a pequena quer começar o flirt com um de nós? Estás enganado — o que ela quer é garantir-se. Enquanto falava, os seus lindos olhos azuis; mais avaros do que dois judeus, iam examinando minuciosamente os móveis, os livros, os quadros e tudo mais que aqui há e pesando, como conchas de balança, o valor de cada objeto. Ah! Meu amigo, essas criaturinhas românticas não têm alma de Jéssica, têm a usura de Shylock. Onde pensavas que existia amabilidade, só havia ronha e muita! Naquele peito farto não há coração: há uma bolsa. Garanto-te que essa suavíssima Carlota saiu daqui sabendo, melhor do que nós, o que há nesta sala e naquele quarto. Não te fies em olhos azuis nem em vozes que lembram citaras — essas criaturinhas são feitas de ganância e de hipocrisia. Sob essa aparência mística de anjos rafaelinos, há almas asquerosas e repugnantes como as figuras de Goya.
— E tu que és pessimista!
— Enganas-te: adoro a vida e agradeço-a a quem ma deu. Nunca me ouviste blasfemar, nunca me ouviste pedir a morte desesperado e enfarado do mundo — acho a criação maravilhosa, mas, meu caro, mestre Epicuro entendendo que o prazer é a base de todo o bem, não desconheceu a dor, não suprimiu as perfídias nem negou a existência do mal. A grande ciência do viver está justamente em saber a gente joeirar o seu trigo e escolher os frutos que deve saborear, para que lhe não suceda achar veneno onde só queria encontrar o sabor delicioso.
A rosa é uma maravilha de composição, é a forma, é a cor, é o aroma, mas se a colheres estabanadamente, podes espetar-te nos espinhos que a defendem; sábio é o que a obtém sem mágoa. Eu não falo mal de Gretchen, mostro apenas que ela tem espinhos, porque tenho grande prática da vida... e conheço as rosas. Hás de ver. Estás enamorado, quem te leva é o coração. És como um cego que vai guiado por um infante; hás de sentir a pancada quando ele levar-te pelos labirintos estreitos. Pensas, com certeza, que ela está, como a sunamita, a enlanguescer de amor...? Pois sim. Mete dinheiro na bolsa para o fim do mês. Mete dinheiro na bolsa.
Anselmo amuou. Não podia acreditar que criatura tão formosa e delicada fosse capaz de representar o indigno papel de arroladora de móveis. Via-a meiga, amável, carinhosa, mas, infelizmente, não durou muito a ilusão.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.