Por Raul Pompéia (1881)
Logo, como uma surpresa, abre-se a porta do banheiro e surge Mocinha. Cabelos soltos, como quase sempre, mas em saia branca e corpinho apenas, um apertado corpinho decotando-se sem reserva na pele virgem, rasgando-se aos alvos braços, inveja de Juno, que a sedutora criatura deixava que vissem.
Esquecera o lençol e o foi buscar. Passou tranqüila sem olhar para cima. Voltou enleada no lençol de feltro como uma túnica de arminho, d'onde escapavam-lhe os passos, os miúdos pés despidos, rosados de pisar assim, rápidos como um páreo de flores.
O estudante imaginou que fora proposital tudo aquilo; porque, antes mesmo das águas frescas, ouviu no quarto de banhos uma festa de galhofa.
Riam-se dele ainda, não há dúvida. Meditando, porém, no incidente, compreendeu que a saia branca fora a recíproca das ceroulas. Uma declaração positiva e originalíssima - a permuta dos ridículos de intimidade, sutilmente e ousadamente proposta para consolar da humilhação da madrugada.
Ou não fosse. Verdade é que três meses mais tarde, diante do altar de mármore da Penha de Santo Antônio, permutavam-se entre ambos os compromissos da intimidade consagrada.
Arsênio foi feliz. Fez-se ativo, formou-se, montou casa e começou a advogar no escritório do sogro, um dos mais procurados juristas no Recife.
Dous anos completos, recebeu ele uma carta de intriga anônima.
Veria logo que era uma calúnia infame quem soubesse a calma dos beijos da esposa, quando o advogado entrava do escritório, e o pressuroso carinho que provocava a mínima sombra de preocupação suspeitada e o longo abraço que o estreitava à noite, forte como a virtude, firme como a fidelidade.
Desvanecera-se a impressão do primeiro assalto. A carta de intriga voltou. Agora formulada com uma energia mais severa de boas intenções.
Arsênio ficou aterrado. Figurou-se o anônimo como uma individualidade fantástica, onipresente, demônio indivisível, elevando-se no caminho da vida para matar-lhe a ventura.
Acusavam-na, acusavam formalmente a querida companheira.
Não quis pensar; resolveu precipitar, arriscar-se ao desastramento, contanto que se libertasse do peso da angustiosa dúvida.
O carteiro veio às oito horas. Mocinha estava ainda na cama.
Arsênio foi vê-la. Dormia sobre a face direita, um pouco torcida, adiantando os lábios. As pálpebras desciam serenas, denunciando, na transparência escura, a cor negra do olhar velado. Uma das mãos pendia-lhe fora do leito. Tinha quase de costas o tronco, e a pele alvejava, do colo e dos ombros, tão branca sobre os lençóis, na meia claridade do aposento, tão cândida que parecia azul a candura do linho.
Arsênio abriu uma janela devagar que não despertasse a esposa. Os lençóis brilharam como prata amarrotada. Mocinha continuou a dormir na intensidade da luz.
Arsênio sentou-se à beira do colchão. A vista parou-lhe eventualmente sobre o tapete onde dormiam como a dona os exíguos pantufos de marroquim cor de bronze. No desenho da lã, fugia tempestuoso o galope de um búfalo das savanas de sólidos chifres curtos.
Olhou para Mocinha. A claridade violenta não conseguira despertar o repouso. Será possível que durmam assim os remorsos? Arsênio debruçado procurou-lhe na face branca, nas espáduas, no seio descoberto, o vestígio da traição, a marca do beijo estranho, a cicatriz do adultério. Que imaculada pureza! Um busto de anjo, na inocência feita mármore.
O marido quis beijar a mão pendente, mas resistiu.
A esposa agitou-se afinal, sentindo a cócega da luz. Um longo inteiriçamento estendeu-se sob as cobertas como um espasmo vibrante.
Abriu os olhos e fechou-os no mesmo instante, tocados pelo dia. Abriu-os de novo e teve um pequenino grito admirativo com a presença do marido. Bocejou, esfregando as pestanas, um adorável bocejo de romã de vez. Apoiou languidamente o braço na almofada e ergueu o corpo. Desatados num gracioso gesto, os cabelos correram-lhe sobre a atitude, suntuosamente.
A jovem persignou-se para a oração da manhã.
Arsênio deixou que ela orasse, segundo o precedente de Otelo.
- Rezaste? perguntou então.
Mocinha encarou-o com certo espanto de mau humor imperceptivelmente acentuado, mas que fez tremer ao marido.
- Que quer dizer esta pergunta?
- Lê esta carta, respondeu ele com brandura, entregando o papel anônimo. É curioso que hajaindivíduos que se entretenham com estas revoltantes brincadeiras.
Fitava a mulher, falando. Mocinha leu e o enfrentou com os grandes olhos pacíficos. Um traço de amargura crispava-lhe um canto da boca.
- Tu não me devias mostrar... disse unicamente.
Uma lágrima saltou-lhe da pálpebra e escorreu pelo seio até à camisa. E, sem uma palavra mais, Mocinha atirou-se sobre a almofada com o rosto para a parede.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.