Por Lima Barreto (1909)
E leu o telegrama. Embarcaria no primeiro paquete. Era espirituoso, entendido em coisas portuguesas e queria setecentos mil-réis francos. Aceitou e nesse sentido telegrafou para Lisboa. Quando voltei da Western, Pranzini, o gerente, entrava na redação. Chegava com o sobrecenho carregado e os olhos fuzilando indignados. Pranzini era o cão de fila do diretor. O cofre e a economia do jornal estavam-lhe inteiramente entregues. Ele pagava e recebia, depositava dinheiro, arbitrava os preços da matéria paga. Todos estavam sob a sua tirania; precisavam adulá-lo, amima-lo e ele abusava extraordinariamente dos grandes poderes de que estava investido. Ficava-lhe bem a função. Era cúpido, metódico, organizado. No jornal, vivia sempre em mangas de camisa e a fieira dos botões do colete não se afastava nunca do eixo do peito. A fisionomia era larga e dura; grandes faces assimétricas, queixo forte e quadrado, pouco distinto do maxilar, uma grande dificuldade em sorrir. Aquela inteligência rudimentar de aldeão italiano tinha finuras de doutor da escolástica. Certa vez furtou-se ao pagamento de uma comissão do anúncio de uma casa, sob o pretexto de que a autorização falava em “Bal Masqué” e o nome do estabelecimento era “Au Bal Masqué”. Murmurava-se no jornal que ele desviava um pouco as rendas do diretor, mas dizia-se também que este não se importava porque assim indiretamente pagava as doces intimidades com a amante do italiano, uma pequena mulher, coberta de um pêlo fino e abundante, de carnes duras e grandes ancas provocadoras.
— Sabes, Pranzini? Temos o homem... De Lisboa chegou-nos a resposta.
— É bom... Vocês sabem, sem português, nada aqui vai adiante. Os patrícios exigem, é justo: eles são talvez trezentos mil, pagam rios de dinheiro em anúncios — é justo!
Depois, tomando outro tom de voz falou assim ao diretor:
— Tenho aqui este vale pra o senhor visar.
— Eu já disse a você que não é preciso...
— Não é isso. É que com este tive dúvidas. Tratava-se de um artigo que não saiu assinado. Não parecia ser colaboração e eu...
— De quem é o vale?
— Do Veiga Filho.
— De que artigo?
— Um sobre o Teixeira de Almeida.
— Mas o quê! exclamou o diretor. Pois se foi ele próprio que pediu para escrevê-lo, dizendo-me que tinha sido colega de escola do homem, como é que cobra?... Enfim deixa-me vê-lo.
O doutor considerou bem o pedaço de papel que tinha na mão, abanou a cabeça e veio dizendo:
— Esses literatos! Livra! Até as lágrimas cobram.
Floc nada dissera. Evitava fazer qualquer critica ao mestre incomparável da nossa língua. Losque, tendo deixado de escrever, meteu-se na palestra. Tinha a mania do “espírito”; mas não era propriamente espirito que ele queria ter. A sua mania era ser um ironista, à moda inglesa — um humorista. Fazia de si um retrato de Sterne, de Lamb, de Swift; embora não soubesse urna linha de inglês filiava a sua graça, o seu feitio de rir, no gênio britânico. Não é que isso, de fato, houvesse nele; faltava-lhe na ironia o imprevisto, o alcance moral e filosófico, aquela meditação por absurdo que Taine achou em Swift. Ele tinha a graça fácil dos pequenos autores e muitas das suas boutades tinham origem nos autores portugueses e franceses de segunda ordem. Não era uma atitude de pensamento, um estado d'alma constante, um julgamento sobre os homens e as coisas; era uma profissão, um ganha-pão, que ele executava automaticamente.
Adaptável, sem rebeldia nem independência de caráter, escrevia pilhérias como um amanuense faz ofícios. Nunca tinha escrito obra de vulto, a não ser uma novela de calembours, em que explorava esse velho filão do roceiro acanhado. Combinava a sua virtuosidade pilhérica com a de escritor de estirados artigos sobre a crise do açúcar e o policiamento da cidade. Era autor de várias revistas, com algumas pilhérias novas e bem achadas. Sem ser moço, não era velho e ia fazendo a sua carreira nos jornais com vagar e submissão, tendo já uma vaga reputação no seio do público. Sabendo da vida de todo o mundo, inventando mesmo, quando os dados lhe faltavam, punha um grande esforço, uma nota de arte no cultivo da maledicência, da “trepação”. Diariamente estudava assuntos, organizava pilhérias e logo que o momento se oferecia desandava. Viera nesse dia. Ao entrar, enquanto Leporace conversava na sala, pusera-se a escrever a sua celebrada seção — “Pulgas e Brotoejas” — constantemente cheia de alusões, de ditinhos, de versos aos políticos, em que ele gastava uma certa dose de talento, já um tanto diminuído pelo automatismo adquirido. Acabando de escrever a seção, procurou um rodeio e dirigiu a conversa para o ponto que queria:
— De fato este Rio tem coisas bem singulares. Vocês conhecem a viúva País Brandão?
Nem todos responderam, mas Leporace que se gabava de conhecer toda a cidade: — as ruas, becos, segredos — acudiu prontamente:
— Ora! Como não? Uma loura de forte nariz romano, que anda sempre de preto? Ora, muito!
— É essa mesma. Mora num palácio na Rua das Laranjeiras...
— Mas que tem ela? indagou Floc.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.