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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

— Mas eu não posso estar a fazer esta caminhada todos os dias, minha senhora. Anteontem a senhora disse-me que seu filho iria levar-me o dinheiro: não foi... Francamente, isto já parece caçoada.

— Tenha paciência; a vida está hoje tão difícil...

— Ah! sim...

— Ele vai hoje, talvez já tenha ido.

— Eu é que não volto cá; diga-lhe isto mesmo. E, com um risinho mau: Começa bem, não há dúvida: logo no primeiro mês. Ao sair, declarou: Que iria ter com o fiador se até a tarde não recebesse o dinheiro.

— Tenha paciência, meu senhor. — Passe bem.

Deu as costas e foi resmungando. Dona Júlia ficou como sufocada e fechando a porta, atirou-se ao sofá, soluçando. Caindo a noite sem que houvesse notícia de Paulo, numa resolução desesperada, ela foi à caixa em que guardava as jóias e pôs-se a escolher algumas para levar ao penhor.

Quais haviam de ser? Tinha o crucifixo de ouro, velha relíquia de família, que fora de sua mãe; beijou-o e, veneradamente, pô-lo de parte, sobre o travesseiro. Tomou uma medalhinha esmaltada — os "olhos de Santa Luzia", figas de coral, de azeviche, que as crianças haviam usado contra o quebranto; depois uma grossa pulseira, dos anéis com pedras, uma fivela de ouro e a medalha do falecido com o monograma a brilhantes. Mirou-a muito tempo, com remorso, supesou-a, abriu-a: em cada uma das faces, sob lâminas de vidro, enroscava-se um anel de finos cabelos louros: eram dos filhos; retirou-os e, fechando a medalha, suspirou. Felícia acabava de limpar a cozinha, quando ela a chamou, dizendo: que iam sair. A negra encaroua, espantada:

— Paulo não aparece, não sei por onde anda e eu não quero esse homem da casa aqui todos os dias. Vou empenhar umas jóias e, como não conheço as ruas...

— Se fosse de dia a gente podia ir ao Monte de Socorro, mas de noite, só nessas casas. Minh'ama quer ir assim mesmo? — Vamos.

A negra foi vestir-se e, pouco depois, saíam muito juntas, conversando tranqüilamente. Felícia não conhecia as casas de penhores e esteve a dar voltas pelo Largo do Rocio, atarantada, a olhar, até que resolveu perguntar a um homem que lhe indicou uma travessa, mostrando-lhe a casa iluminada. A negra, que deixara Dona Júlia à espera, junto ao teatro, correu a buscá-la.

— Vamos, minh'ama. — A velha seguiu-a, muito tímida, evitando os transeuntes, cosendo-se com a parede até que alcançaram a casa. — É aqui. Vosmecê entre; eu espero na porta.

Dona Júlia entrou, metendo-se em um dos cubículos. Ao lado falavam, era um murmúrio vago de palavras indistintas, pronunciadas como no mistério da confissão. Um súbito receio gelou-a: "E se o homem, vendo-a tão pobre e com aquela jóia rara, tomasse-a por uma ladra?!"

Trêmula, pôs-se a desembrulhar a medalha e foi com um fio de que respondeu à pergunta: "que precisava de quatrocentos mil réis. "O homem retirou-se com a medalha e, à luz, abriu-a, examinou-a detidamente, virando-a, revirando-a, sacudindo-a na palma da mão; pesou-a numa pequena balança, depois, tomando ao balcão, disse secamente:

— Duzentos mil-réis.

— Só!? exclamou a viúva espantada.

— Os brilhantes são muito pequenos.

— E trezentos? — Duzentos.

E ia deixando a medalha quando ela suspirou resignada:

— Leve. Os senhores não têm pena da gente.

O homem retirou-se e ela, sentindo fortíssimas agulhadas nas pernas, encostou-se ao tabique e ficou a olhar a parede fronteira cheia de relógios — uns parados, outros trabalhando, quadros, vasos artísticos em peanhas, um oratório de jacarandá, com um fundo azul de céu.

Eram os reféns da miséria que ali se juntavam, eram as alegrias do pobre que ficavam cativas pelo pão e pelo remédio, e ela pensava em outros infelizes, quantos! sofrendo mais do que ela, por esse mundo vasto e descaridoso.

Sentindo que empurravam a porta do cubículo voltou-se assustada e viu um velhinho engelhado, com um embrulho debaixo do braço. O intruso atrapalhou-se, murmurou uma desculpa e passou adiante. O homem apareceu com um livro para que ela assinasse: tomou da pena e, tremulamente, deixou o nome, a rua e o número da sua casa. Esteve ainda algum tempo à espera até que ele reapareceu com a cautela e o dinheiro.

Felícia esperava à porta, a olhar os carros estacionados junto á calçada.

— Então, minh'ama?

A velha murmurou caminhando:

— Duzentos mil-réis, Felícia, por uma medalha que custou ao velho uma fortuna. Eu sei: ele viu-me assim pobre... — E suspirando: E eu que contava levar todo o dinheiro de que careço. Nem chega para te pagar. Tem paciência até o princípio do mês, quando eu receber do Tesouro.

— Não faz mal, minh'ama: eu tendo para o meu fumo...

— Agora se precisas de alguma coisa...?

— Não, senhora; eu vou-me arranjando. Quando vosmecê receber.

— Pois sim. O que eu quero é ficar livre daquele homem. Não sei dever, não está em mim: fico que só Deus sabe. E Paulo não se emprega. Não sei que há de ser de nós. Amanhã, bem cedo, hás de levar o dinheiro à senhoria.

— Sim, senhora. Mas vosmecê não se amofine, minh'ama; Deus é muito grande!

(continua...)

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