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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Ora! Tu sofres de amor crônico, crônico e literário. Na primeira mulata que te aparece vês Sacuntala. Já andaste a pensar em uma Haydéa que cozia para o arsenal; viste uma Morna na Praia Formosa; escreveste um conto à Miranda e agora estás suspenso dos olhos de uma Margarida que aluga cômodos. Isso é doença.

— Mas que queres?

— Quero que não me aborreças com os teus amores. Olha, se vais para lá com idéias de idílio, estás arranjado: os alemães são ferozes. Já é tempo de tratarmos da vida a sério.

— Eu vou escrever e vou ver se o Heller monta A Profecia.

— Qual Profecia! Cuida de outra coisa.

— Achas, então, que ele não monta a minha peça?

— Garanto. A literatura dramática, dramática é um modo de dizer e literatura é eufemismo, mas admitindo a expressão, a literatura dramática entre nós está monopolizada por um pequeno grupo. Nem Shakespeare, se ressurgisse, conseguiria impor-se aos empresários. A tua peça há de morrer no arquivo. Cuida de outra Coisa. Que fizeste do romance?

— Não sei. Com o primeiro capítulo João de Deus andou tapando fendas nos vidros, em casa de Dona Ana; Amélia cortou o segundo para fazer papelotes...

— Por que não escreves contos? Tens tantas idéias.

— Mas quanto pode dar um conto?

— Um conto? Nada.

— Então não pagam?

— Não. Se queres ganhar alguma coisa emprega-te como noticiarista, mas vê lá: não digas que fazes literatura.

— Mas isto não é país! — rugiu Anselmo.

— É a terra afortunada, meu amigo. Quem nos governa é um monarca letrado que traduz Petrarca e Byron e comenta Platão no original.

— Mas de que hei de eu viver então?

— Sei lá!

— Mas tu ganhas.

— Ah!, Sim: escrevo um romance de seiscentas páginas e vendo-o por oitocentos mil réis. Achas que vivo...? Que lindas rosas, heim?

— Lindas, concordou Anselmo distraído. Mas tornando logo ao assunto:

— E se eu fosse pedir colocação num jornal...?

— Tens empenhos?

— Não.

— Então, meu amigo...

Ruy Vaz, com um esplêndido ramo de rosas, encaminhou-se para a sala de jantar deixando Anselmo no jardim, preocupado, a pensar na vida que lhe aparecia temerosa e nos olhos doces de Carlota, azuis como dois pequeninos céus cheios de esperança, com um Deus em cada uma das pupilas.

— Vem daí, homem. João de Deus já nos está mudando.

— E não é que estou apaixonado mesmo!? — murmurou o estudante encaminhando-se lentamente para a sala de jantar.

CAPÍTULO X

João de Deus, sempre gemendo, ia passando os trastes para casa de Gretchen e, ao meio dia, já estavam armadas, no quarto acanhado, as camas de Anselmo e de Ruy Vaz e as duas mesas, o divã e as cadeiras guarneciam a sala no meio da qual foi estendido o tapete com a cena lúbrica do serralho.

Toledo quis ver a instalação dos companheiros e achou-a confortável, sentindo, porém, não poder acompanhá-los, porque, como estava em vésperas de exame, ia, com o seu esqueleto, para a casa do primo, habitar o chalezinho que lhe fora oferecido com a comida, à sombra quieta do pomar.

Crebillon não aparecia. Teria ido, como dissera, dar cabo dos monadíssimos porcos que devastavam a roça de Fontainha? Eles não podiam ficar em conjecturas à porta do quarto do abolicionista — tinham de arranjar os novos aposentos e despediram-se da casa com a tristeza com que Boabdil abandonou Granada.

Adeus, salões incomensuráveis, largos e desafrontados como planícies! Adeus, vastíssimos e arejados quartos! Adeus, sala de jantar que faria as delícias de um voluptuoso Apício! Adeus, fogão monstruoso e flamejante; adeus, cachoeiroso banheiro, jardim redolente, adeus! O negro, fidelíssimo e resignado, no momento em que os dois rapazes despediram-se, pigarreou comovido.

— João, não te esqueças de nós; aparece de vez em quando porque no dia em que a sorte nos sorrir, tu, que tão dedicadamente nos acompanhaste nos tempos amargos da desventura, hás de participar do sorriso da fortuna. Por enquanto não podemos demonstrar generosamente a nossa gratidão, mas não vêm longe os dias prósperos: confia e espera.

João, de olhos baixos, ouviu sem palavra e, como os rapazes lhe estendessem as mãos, o pobre negro ficou tão lisonjeado que, apesar da enxaqueca e da fome, sorriu desvanecido.

— Adeus, Toledo.

— Adeus, Anselmo. Adeus, Ruy.

— Aparece.

— Sim, hei de aparecer. E abraçaram-se.

— Ficas à espera de Crebillon?

— Não, mudo-me amanhã. João de Deus toma conta da casa.

— Eu? — exclamou o negro aterrado. E se o dono vier?

— Não há perigo, João.

— Não, nhonhô, eu tenho muito medo de negócios com a polícia. Para acompanhar vosmecês, estou pronto, mas para ficar aqui sozinho, isso não.

— Quem sabe se tens medo de almas do outro mundo?

— Eu! Não, senhor: tenho medo da polícia. Sozinho, não senhor. Com vosmecês tudo está direito, mas comigo, um pobre preto velho... O homem chega aí, bate língua e me atira no cosmorama. Deus me livre! Sozinho, não!

— Então com quem há de ficar a chave?

— Fica na venda. — Isso não.

(continua...)

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