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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

As provocações no recreio eram freqüentes, oriundas do enfado; irritadiços todos como feridas; os inspetores a cada passo precisavam intervir em conflitos; as importunações andavam em busca das susceptibilidades; as susceptibilidades a procurar a sarna das importunações. Viam de joelhos o Franco, puxavam-lhe os cabelos. Viam Rômulo passar, lançavam-lhe o apelido: mestre cook!

Esta provocação era, além de tudo, inverdade. Cozinheiro, Rômulo! só porque lembrava a culinária, com a carnosidade bamba, fofada dos pastelões, ou porque era gordo das enxúndias enganadoras dos fregistas, dissolução mórbida de sardinha e azeite, sob os aspectos de mais volumosa saúde? Rômulo era simplesmente e completamente o confeiteiro das esperanças doces de Aristarco.

Anafado de aparência, e ainda mais ancho de fortuna, significava bem o que se diz um bom partido. Aristarco tinha uma filha; saúde, fortuna: um genro ideal; ainda por cima bonachão e pacato.

A Melica, a altiva e requebrada Amália, lambisgóia, proporções de vareta, fina e longa, morena e airosa, levava o tempo a fazer de princesa. Dois grandes olhos pretos, exagero dos olhos pretos da mãe, tomavam-lhe a face, dando-lhe de frente a semelhança justa de um belo I com dois pingos. Por estes olhos e por sobre os ombros, que tinha erguidos e mefistofélicos, derramavam se desdéns sobre tudo e sobre todos. Possuía e petiscava a certeza fácil de que o Ateneu em peso andava caído por ela, e morava no andor imaginário daquela idolatria de trezentos. Trezentos corações, trezentos desdéns. A eminência do pai sobre aquele mundozinho desprezível dava-lhe vida à vanglória, e ela gostava de visitar o colégio para ter ocasião de exercitar a altivez culminante, misturada, do sexo e da hierarquia. Quanto a Rômulo, era o primeiro no seu desprezo. Timbrava em não prestar-lhe atenção. Designava-o esplendidamente: — o parvo. Melica era bem conservada e preciosa.

Rômulo filosofava por Epicuro. Desdéns não matam. Havia de bom naquela atitude de noivado perene, uma série de utilidade: cargo de vigilante, privilégios de benevolência, um jantar de vez em quando com o diretor, — isto é, uma folga ao paladar imaginada em sonho por quantas bocas, no regime obrigatório e destemperado da casa, menu permanente, inviolável como a letra das constituições.

Quando vinha Melica ao Ateneu, era Rômulo o primeiro a aproximar-se, o último a ser visto. Aristarco chamava-o às vezes e levava a passeio com a menina. Melica, toda donaire e orgulho, passava adiante e permitia, quando muito, que Rômulo a seguisse cabisbaixo e mudo, como um hipopótamo domesticado. Diga-se, a bem da verdade, que o gorducho esperava rir por último ao pai e à filha.

Em um estabelecimento de rumorosa fama como o Ateneu não se podia deixar de incluir no quadro das artes a música de pancadaria.

Passava despercebido o harmonium do Sampaio, religioso e bálbuce. Estimava-se como coisa somenos a rabequinha do Cunha, choramingas e expressiva, nas mãos do esguio violinista; manhoso o instrumento como uma casa de maternidade, pálido o músico, espichadinho e clorótico; dando ares de graça à linguagem das cravelhas por meio de sons que imitavam a quase afasia timorata e infantil do Cunha, descambando em síncopes, de vez em quando, estendendo guinchos histéricos de amor vadio, saltitando pizzicatos como as biqueiras de verniz do Cunha, amigo de valsar, ágil no baile como as fitas, as plumas e as evaporadas tules.

Considerava-se razoavelmente o piano do Alberto Souto, bochechas largas de maestro em efígie, pianista portento que viera parar ao Ateneu, depois de percorrer a Europa à cata de triunfos, redondo, curto e musical como um cilindro de realejo; famoso pela gargalhada soez, bagaço espremido da vaidade, da cobiça, que lhe ficara dos sucessos do palco e das surras da aprendizagem; e pela estupidez seca nos estudos, como se a inteligência lhe houvesse escapado pelos dedos para os teclados em deserção definitiva.

Mas a predileção de Aristarco era pela banda, pela pancadaria, grita vibrante dos cobres, fuzilaria das vaquetas, levando gente à janela quando o Ateneu passava, dando rebate à admiração das esquinas, o estrépito das caixas troando à marcha dobrada como um eco de combates, furor infrene, irresistível, de zabumbada em feira.

A banda tinha casa própria e um professor bem pago. Os instrumentistas gozavam de particular favor nos relaxamentos de disciplina; nas ocasiões de festa eram mimoseados com um brinde de gulodices; condecoravam-se com distintivos de prata, que nem os harmoniosos concertantes do Orfeão logravam pilhar.

(continua...)

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