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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

Só havia um partido: ficar em casa. Ver passar o Capiberibe debaixo do sol e os matutos pelas pontes brancas, abalados sobre os jacás, ao chouto dos cavalinhos magros, valentes, encrustados de estrume seco nas ancas; ouvir do catre bambo de lona e pinho os gritos do cargueiro, as chicotadas no ar, ou a lamúria inacabável dos mendigos: "Pelas cinco chagas de Cristo! meu devoto... Uma esmolinha pelo divino amor de Deus!..." vozes de cegos no fulgor da luz, que com a temperatura das horas eram de um efeito de aborrecimento sem nome.

No principio lia, mas o clima venceu e a madraçaria acadêmica apoderou-se dele com todos os sintomas de morbidez incurável.

O companheiro de casa falava-lhe dos dias frios de S. Paulo. Como seria bom dormir num dia frio... Ele tinha de padecer o suplício único da preguiça quente, sob o cancã de reflexos espelhados do rio para o teto.

Erguia-se sobre o cotovelo para sorver o refrigério do coco verde e recaía.

De espaço a espaço, vibrava o silvo de uma locomotiva partindo; às vezes o rugido longo de um paquete ancorado diante da Lingueta. Era o tempo a correr. Bem lhe importava; a preguiça não tem horário.

- Mala para o Sul, dizia-lhe da janela o companheiro, olhando para o mastro dos sinais danavegação, sobre a cidade.

Ele com um bocejo, sem mesmo abrir os olhos:

- Mala para o Sul?...

Mas havia uma área nos fundos, espaçosa, ladrilhada de tijolo, partida ao meio por um muro. Metade era o quintal da casa; a outra metade era o lavadouro de uns vizinhos de frente para o lado oposto do quarteirão.

Antes do jantar, enquanto punham a mesa ou depois, esperando a noite para correr às cervejarias, ou às famosas visitas de um inolvidável corpinho azul de setineta, risonho e fácil, Arsênio cruzava os braços sobre o peitoril e olhava.

No pátio vizinho, diante de um tanque negro de limo, batia roupa uma velha escrava com a saia em nó sobre a barriga, requebrando-se a cada golpe das peças. Quando a roupa era demais, estendia-se sobre o telhado fronteiro, onde uma siriema aparecia a passear em cima, parando a períodos regulares para soltar o canto metálico.

Acontecia muito vir falar à lavadeira uma mocinha clara de cabelos pretos. Aparições fugitivas. Trazia alguma roupa ou dava um recado e sumia-se como o relâmpago. O tempo suficiente para deixar a impressão da graça rara dos seus modos e animar para Arsênio com um encanto permanente a vista insípida do ladrilho vermelho, do lavadouro, do melancólico passeio da siriema sobre as roupas úmidas.

"Mocinha" exatamente chamavam-lhe.

Arsênio modificou um pouco os seus hábitos de preguiça depois que notou as aparições. E agora estremecia quando chamavam "Mocinha!" na vizinhança. Acudia à janela como se por ele chamassem, como perguntando:

Que querem com o meu sossego?...

Falavam dela, que era namoradeira e leviana. O estudante poderia atestar que percorreu os transes da mais difícil escala de concessões.

Primeiro a concessão dos cabelos, pretos, abundantes, tempestuosos, destrançados sobre o paletó de tiras bordadas. Durante muito tempo só lhe pôde ver à vontade os esplêndidos cabelos. Mocinha sentava-se perto da janela, mas propositalmente voltada para um livro ou para o crochet; de costas como em recusa, oferecendo entretanto o espetáculo complacente do seu tesouro.

Arsênio apaixonou-se pelos cabelos como se apaixonara pelas aparições preliminares.

Mocinha passou a mostrar o rosto. Apresentava-se com os olhos baixos sobre o lavadouro. Ao retirar-se, fazia uma viagem com o olhar, de maneira que fosse para o vizinho exclusivamente o derradeiro relance.

Arsênio apaixonou-se pelo relance.

Prolongava-se a terceira fase da benevolência, quando ocorreu um transtorno.

Por uma madrugada de exceção entregava-se Arsênio à toilette rudimentar das ablusões em trajes menores, descuidoso, no pátio da casa, confiando na hora e no crepúsculo discreto. Inesperadamente cai-lhe da janela dos seus amores como se caísse do céu e da alvorada uma vaia de risos franca, argentina e cruel.

O rapaz voltou-se, a tempo de ver ainda escapando para dentro uma grande sombra de cabelos soltos.

Estava desmoralizado! Visto de ceroulas! Visto por ela! De ceroulas a lavar-se, imaginem, em plena situação idilial do seu romance!

Arsênio protestou não tornar ao posto de esperanças, à adoração parva dos favores da vizinha.

Uma gargalhada assim era o rompimento afinal, ditado expressamente a um tolo Mocinha percebeu o retraimento.

Junto do tanque de lavagem havia o banheiro. Todos os dias, cerca de onze horas, ela e a irmã, uma criança loura de dez anos, atravessavam o pátio com as toalhas. Momentos depois, da porta verde, por uma trama de sarrafos, ouviam-se gritos de prazer e um barulho fresco de chuveiro, de águas batidas. As irmãs saíam coradas, alegres, rindo, agitadas por um frêmito de penas de ave.

Uma vez que as sentiu passar, Arsênio chegou à janela.

(continua...)

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