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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1670)

98. Os apóstolos, antes de descer sobre eles o Espírito Santo, eram muito tocados da ambição e apetite de ser, como homens alfim levantados do pó da terra ou das areias da praia. Daqui nasceu aquela contenda tão indigna do Sagrado Colégio: Facia est contentio inter eos, quis eorum viteretur esse majo:2 Descobertamente disputaram e altercaram entre si sobre a preferência, cuidando e defendendo cada um que ele era o maior. E tão aferrados estavam todos à própria opinião, que, ainda consultando a seu Divino Mestre sobre a matéria, não se sujeitaram a que ele absolutamente a definisse, circunstância digna de grande ponderação: Quis putas major est in regno caelorum (Mt. 18,1). Não disseram: quem de nós é o maior? Senão; Quis putas: Quem vos parece que o é? – Para que, ainda depois da resposta, ficasse a maioria em opinião, e cada um seguisse a sua – e se não descesse dela. Pois se esta ambição era de todos, e não só de João e Diogo, como foram só estes dois os que pretenderam e pediram as primeiras cadeiras, e nenhum dos outros, que tanto como eles o desejavam, intentou tal coisa? Por isso mesmo. João e Diogo eram conhecidamente os maiores validos de Cristo, e os mais entrados na sua graça, e as que a tinham mais bem fundada, ainda naquela razão natural que corre pelas veias; e como os outros apóstolos viram que os lugares que todos apeteciam se negaram aos válidos, todos amainaram as velas e recolheram os reinos da sua ambição, e nenhum teve confiança nem atrevimento, para pretender nem pedir, quando a eles se tinha negado. Vede a virtude de um não para evitar muitos. Como Senhor dizer uma vez não: Non est meum dare vobis, se livrou de o dizer oitenta e duas vezes. Se Cristo concedera ou condescendera com esta petição dos dois apóstolos, logo os outros dez haviam de vir com as suas, e após os dez apóstolos, os setenta e dois discípulos, que todos se haviam de querer aproveitar de tão boa maré; mas com um não que disse aos validos, se livrou o Senhor de dizer dez nãos, e setenta nãos.

99. Porque os reis não imitam o exemplo do Rei dos Reis, e por isso se vêem tão perseguidos de petições e tão atribulados de requerimentos, de que se não podem desembaraçar, mais constrangidos da conseqüência, que obrigados da razão, devendo e querendo negar a muitos, e não o podendo fazer pelo que têm concedido a poucos. Diga-se um não a João e a Diogo, ainda que sejam validos, e logo não só se poderá dizer com liberdade aos mais, mas cessarão as ocasiões de ser necessário dizer-se. Dirão porém os mesmos validos, ou alguém por eles, que não parece, nem é justiça, nem ainda bom exemplo e crédito do mesmo rei, que aos que servem e trabalham junto à sua pessoa, e sustentam o peso da monarquia, devendo ser os primeiros e mais remunerados, fiquem sem mercê e sem prêmio. E é pouca mercê e pouco prêmio o ser validos? E pouca mercê e pouco prêmio estar sempre junto à pessoa real? O prêmio que Cristo prometeu a seus ministros foi que estariam onde ele está: Ubi ego sum, illic et minister meus erit.3 Nem o rei pode dar maior prêmio, nem o ministro desejar mais avantajada mercê. É verdade que isto mesmo se concedeu a um ladrão venturoso: Hodie mecum ens,4 o que também pode ter sua propriedade e sua aplicação. Mas ouçamos o que sucedeu a S. Paulo, e como Cristo o tratou em uma só petição que lhe fez, sendo o ministro que mais trabalhou que todos em seu serviço.

(continua...)

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