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#Sermões#Retórica

Sermão da Glória de Maria, Mãe de Deus

Por Padre Antônio Vieira (1644)

39. Temos ouvido os filósofos que falam pela boca da natureza; ouçamos agora os Santos Padres, que falam pela da Igreja. São Sidônio Apolinar, bispo arvernense e Padre do quinto século, escrevendo a Audaz, prefeito dos reis godos, no tempo em que dominaram Itália, promete-lhe suas orações, e conclui com estas palavras: Deum posco, ut te fillii consequantul; et quod magis decet velle, transcendant: Rogo a Deus por vós e por vossos filhos – diz o eloqüentíssimo Padre – e o que peço para eles é que vos imitem; o que peço para vós é que vos excedam.5 – Que vos imitem, porque isso é o que eles devem fazer; que vos excedam, porque isso é o que vós deveis desejar: Et quod magis decet velle, transcendant. Oh! quisesse Deus que fossem hoje tais os pais e tal a criação dos filhos, que por uns e outros lhe pudéssemos fazer esta oração! Mas é tanto pelo contrário, que podemos chorar da nossa idade, o que o outro gentio lamentava da sua: Aetas parentum peior avis tulit nos nequiores, mox daturos progeniem vitiosiorem.6 Os avós foram maus, os filhos são piores, os netos serão péssimos. Haviam-se de prezar os pais, não só de ser bons, mas de dar tal criação aos filhos, que se pudessem gloriar de serem eles melhores. Mas, deixadas estas lamentações, que não são para dia tão alegre, continuemos a ouvir os Santos Padres, e sejam os dois maiores da Igreja grega e latina: Nazianzeno e Agostinho.

40. Faz duas elegantes epístolas S. Gregório Nazianzeno, uma a Nicóbulo, famoso letrado, em nome de um seu filho, e outra ao filho, em nome do mesmo Nicóbulo.7 E na primeira, pedindo o filho ao pai que lhe dê licença para freqüentar as escolas e seguir as letras, diz assim: Gratia, quam posco, genitor charissime, patris est magis, quam nati; a graça que vos peço, pai meu, é mais para vós que para mim, e mais é vossa que minha. – Se isto dissera o moço que ainda não tinha mais que o desejo de saber, não me admirara o dito; mas falando por boca dele o grande Nazianzeno, do qual com singular elogio afirma a Igreja, que em nenhuma coisa das que escreveu errou, como pode ser verdade que a glória do filho seja mais do pai que do mesmo filho: Patris est magis quam nati? E se esta proposição é verdadeira, segue-se dela, aplicada ao nosso intento, que a glória de Deus é mais de Maria que do mesmo Deus, porque Deus é Filho, e ela Mãe. E por que não faça dúvida o falarmos da glória de um e outro, com a mesma palavra se explica o Santo Padre nas que logo acrescenta: Gloria namque patris, natorum est fama, decusque, ut rursus natis est gloria fama parentum. Como pode ser logo neste caso, ou em algum outro, que a glória do filho seja mais do pai que do filho: Patris est magis, quam nati? Não há dúvida que falou nesta sentença Nazianzeno como quem tão altamente penetrava e distinguia a sutileza dos afetos humanos, entre os quais o amor paterno, como é o mais eficaz e mais forte, é também o mais fino. Diz que a glória do filho é glória do pai, e mais sua, do pai, que do mesmo filho, porque mais se gloriam os pais de a gozarem seus filhos, ou de a gozarem neles, que se a gozaram em si mesmos. E neste sentido se pode dizer, com verdade e propriedade natural, que a glória de Deus, em certo modo, é mais de Maria que do mesmo Deus, porque não sendo sua, como não é, é do Filho unicamente seu, em que ela mais a estima, e da qual mais se gloria, que se pudera ser ou fora sua.

(continua...)

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