Por Padre Antônio Vieira (1674)
13. Qui cum in forma Dei esset, exinanivit semetipsum formam servi accipiens.17 Quer dizer: sendo o Verbo Eterno, por essência e igualdade ao Padre, Deus, quando tomou e uniu a si a natureza humana, despiu-se e despojou-se de tudo quanto era e quanto tinha. Ainda o diz com maior energia o apóstolo: Exinanivit semetipsum; assim como quando um vaso, quando se emborca e se esgota, lança de si quanto tem, e fica vazio, assim o fez, e ficou Deus, fazendo-se homem. Já estais vendo a dificuldade, não só os teólogos, mas todos. Deus, fazendo-se homem, não perdeu nada do que tinha, nem deixou nada do que era. Era Deus, e ficou Deus; era infinito, e ficou infinito; era eterno e imenso, e ficou eterno e imenso; era impassível e imortal, e ficou imortal e impassível. Pois se Deus não deixou, nem renunciou, nem demitiu de si nada do que era, nem do que tinha, como diz S. Paulo que se despojou e se esgotou a si mesmo, e de si mesmo: Exinanivit semetipsum? Assim o disse profundamente o Apóstolo e também diz o como isto podia ser, e como foi: Formam servi accipiens, cum in forma Dei esset. É verdade que Deus, fazendo-se homem, não perdeu nada do que era, nem deixou nada do que tinha, porém tomou e uniu ao que era tudo o contrário do que era; tomou e uniu ao que tinha tudo o contrário do que tinha; e tomar e unir na mesma pessoa extreinos tão contrários e tão distantes, foi despojar-se de tudo o que era, sem se despojar. Era Deus, e fez-se homem; era eterno, e nasceu em tempo; era imenso, e determinou-se a lugar; era impassível, e padecia; era imortal, e morreu; era supremo senhor, e fez-se servo; e servir o senhor; morrer o imortal, padecer o impassível, limitar-se o imenso, e humanar-se o divino, não só foi tomar o que não era, senão deixar o que era. Não deixar, deixando, que isso não podia ser; mas deixar retendo, deixar conservando, deixar sem deixar: Exinanivit semetipsum formam servi accipiens, cum in forma Dei esset. Isto é o que fez o Verbo, e isto é o que fez Isabel, conformando-se altíssimamente com o Evangelho ao modo do mesmo autor do Evangelho. Rainha com majestade e coroa, mas que coroa, que majestade, que rainha! Coroa sim, mas coroa, sem a deixar, deixada, porque deixou toda a pompa e esplendor do mundo, com que se engrandecem as coroas. Majestade sim, mas majestade, sem a renunciar, renunciada, porque renunciou toda a ostentação toda a altiveza e toda a idolatria com que se adoram as majestades. Rainha sim, mas rainha não-rainha, porque, tirada a soberania do título, nenhuma outra coisa se via em Isabel das que se admiram nas rainhas, sendo por isso mesmo a mais admirável de todas.
14. Desta maneira deixou a nossa rainha a coroa e o tudo que pedia o Evangelho: Omnia quae habuit. Mas assim como a deixou sem a deixar, por que a não deixou deixando? Por que não abdicou a majestade, por que não deixou de ser rainha, ou não aceitando a coroa, quando se lhe ofereceu, ou renunciando-a, depois de aceitada? Respondo que esta foi a maior indústria de sua negociação: conservar o cabedal de rainha para granjear ser maior santa. O maior bem, ou o único bem que têm as supremas dignidades do mundo, é serem um degrau sobre o qual se levanta mais a virtude, é serem um cunho real, com que sobe a maior valor a santidade. Santo foi Davi, e santo Abraão, e primeiro Abraão que Davi. Contudo, S. Mateus, referindo a genealogia de Cristo, antepõe Davi a Abraão: Filii David, filii Abraham (Mt. 1,1). Pois se Abraão também era santo, e santo da primeira classe, como Davi, e precedia na antigüidade, por que se lhe antepõe Davi? Dá a razão Santo Tomás angelicamente. Porque ainda que Abraão era santo, e tão santo como Davi, Davi era santo e rei juntamente, o que não concorria em Abraão. A santidade de Abraão, posto que grande, era santidade sem coroa; a santidade de Davi era santidade coroada, e santidade assentada sobre coroa, ainda em grau igual, é maior santidade.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.