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#Sermões#Retórica

Sermão do Mandato

Por Padre Antônio Vieira (1670)

Quem deixa tudo pelo amado, deixa tudo; mas quem deixa pelo amado ao mesmo amado, ainda deixa mais, porque chega a deixar aquele por quem tem deixado tudo. Quando Cristo veio ao mundo, deixou o céu por amor dos homens; porém hoje deixa os mesmos homens por quem tinha deixado o céu. Quando veio ao mundo, deixou os anjos por amor dos homens; porém hoje deixa os mesmos homens, por quem tinha deixado os anjos. Quando veio ao mundo, deixou a glória por amor dos homens; porém hoje deixa os mesmos homens por quem tinha deixado a glória. Finalmente, quando veio ao mundo deixou o Padre por amor dos homens: porém hoje deixa os mesmos homens por quem tinha deixado o Padre. E neste mundo, que deixou Cristo? Nascendo pobre, deixou por amor dos homens a riqueza: desterrando-se, deixou por amor dos homens a pátria; trabalhando, deixou por amor dos homens o descanso; entregando-se, deixou por amor dos homens a liberdade; padecendo afrontas, deixou por amor dos homens a honra; morrendo, deixou por amor dos homens a vida; sacramentando-se, deixou por amor dos homens a si mesmo; mas hoje, ausentando-se dos homens e partindo do mundo: Ut transeat ex hoc mundo, deixou mais que as riquezas, mais que a pátria, mais que o descanso, mais que a liberdade, mais que a honra, mais que a vida, mais que a si mesmo, porque deixou os mesmos homens, por quem tudo isto tinha deixado. De maneira que, havendo Cristo deixado por amor dos homens tudo o que tinha no céu, até o mesmo Padre, e tudo o que tinha e podia ter na terra, até a si mesmo, não tendo já nem no céu, nem na terra, não tendo já em si, nem fora de si outra coisa que deixar por amor dos homens, para chegar ao non plus ultra do amor, chega a deixar por amor dos homens ao mesmos homens: Ut transeat ex hoc mundo, in finem eos.

§ IV

Foi maior fineza de Cristo deixar-se no Sacramento que apartar-se de nós? Cristo e a amizade de Rut, Noemi e Orfa. Cristo, deixando-se no Sacramento, satisfez a um seu desejo; ausentandose dos homens, violentou sua inclinação. Cristo, o Jordão divino. Por que S. João passa totalmente em silêncio a instituição da Eucaristia.

Haverá ainda quem se oponha a este extremo de fineza? Haverá ainda quem se oponha a este extremo de amor? Ainda. Ainda se opõe e resiste o mesmo amor, defendendo-se com o escudo do Sacramento e com a espada da morte. Fortes armas! Mas também as há de render o amor, ainda que tão fortes e tão finas.

Alega por parte do Sacramento o amor, e defende constantemente, que foi maior fineza em Cristo o deixar-se que o deixar-nos, o ficar conosco, que o apartar-se de nós. E como o prova? Em um caso, temos ambos os casos. Na terra de Moab houve três amigas muito celebradas na Escritura: Noemi, Rut e Orfa. Viveram muito tempo juntas essas amigas, como amigas e parentas que eram, até que veio uma hora, como esta hora, em que se houveram de ausentar. Abraçaram-se, choraram muito, fizeram as exéquias à sua despedida, com todas as solenidades que costuma o amor, mas tanto que chegou o ponto preciso em que se haviam de apartar, sucedeu uma diferença notável. Orfa, diz o texto, que se aportou e que se foi para a sua pátria e para o seu Deus, porém Rut enterneceu-se tanto, que de nenhum modo se pôde aportar da companhia de Noemi, e se deixou ficar com ela por toda a vida. Eis aqui quanto vai de amar a amar, e de ficar a partir-se. Quem ama pouco, aporta-se; quem ama muito não se pode aportar. Orfa, que amava pouco, aportou-se e deixou a Noemi; Rut, que amava muito, não a pôde deixar, nem aportar-se dela. São os termos do nosso caso. Chegou a hora precisa em que Cristo se havia de aportar dos homens; Sciens quia venit hora ejus, ut transeat ex hoc mundo; mas nesta amorosa despedida, neste rigoroso aportamento, quem foi a Orfa, que se aportou? Quem foi a Rut, que se não pôde aportar? Uma e outra, por modo admirável, foi a mesma humanidade sacratíssima de Cristo. Ela foi a que nesta mesma hora se aportou, ela foi a que nesta mesma hora se não pôde aportar. Ela foi a Orfa, que se aportou, e se foi para a sua pátria e para o seu Deus: Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem; e ela foi a Rut, que se não pôde aportar, e recolhendo as espigas, se deixou naquele Sacramento, debaixo das espécies de pão. Logo, maior amor foi em Cristo o deixar-se, que o deixar-nos; logo, maior amor foi em Cristo o ficar conosco, que o aportar-se de nós. Que grosseiros são os afetos humanos para avaliar as finezas do amor divino! Se Cristo se aportara como Orfa, amando como Orfa, fora menor o seu amor; mas Cristo aportou-se como Orfa, amando como Rut. Amar muito, e aportar-se, esta é a fineza. Orla amou pouco, Rut, amou muito, mas nem uma, nem outra finamente; porque Orfa, aportando-se de Noemi, seguiu a sua conveniência, e Rut não se podendo aportar, seguiu a sua inclinação.

(continua...)

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