Por Padre Antônio Vieira (1669)
Assim como provei a verdade da culpa com toda a Escritura, assim hei de provar a justificação da pena com toda a Igreja. Quo fonte manavit nefas, fluent perennes lacrymae.32 Sabeis, filhos, diz a Igreja, por que vos manda Deus que chorem os olhos por todos os pecados? É porque os olhos são a fonte de todos: Quo fonte manavit nefas, fluent perennes lacrymae: Chorai pois, diz a Santa Igreja, chorai e chorem perenemente os vossos olhos: e pois esses olhos foram a fonte do pecado, sejam também a fonte da contrição; pois esses foram a fonte da culpa, sejam também a fonte da penitência; foram a fonte da culpa enquanto instrumento de ver; sejam a fonte da penitência enquanto instrumentos de chorar; e já que pecaram vendo, paguem chorando. De maneira que são os nossos olhos, se bem se considera, duas fontes, cada uma com dois canais e com dois registros: um canal, que corre para dentro, e se abre com o registro do ver; outro canal, que corre para fora, e se solta com o registro do chorar. Pelos canais que correm para dentro, se os registros se abrem, entram os pecados; pelos canais que correm para fora, se os registros ou as presas se soltam, saem as lágrimas. E pois as correntes do pecado entram pelos olhos, vendo, justo é que as correntes das lágrimas saiam pelos mesmos olhos, chorando.
Vede que misteriosamente puseram as lágrimas nos olhos a natureza, a justiça, a razão, a graça. A natureza para remédio, a justiça para castigo, a razão para arrependimento, a graça para triunfo. Como pelos olhos se contrai a mácula do pecado, pôs a natureza nos olhos as lágrimas, para que com aquela água se lavassem as manchas; como pelos olhos se admite a culpa, pôs a justiça nos olhos as lágrimas, para que estivesse o suplício no mesmo lugar do delito; como pelos olhos se concebe a ofensa, pôs a razão nos olhos as lágrimas, para que onde se fundiu a ingratidão, a desfizesse o arrependimento; e como pelos olhos entram os inimigos à alma, pôs a graça nos olhos as lágrimas, para que pelas mesmas brechas, por onde entraram vencedores, os fizesse sair correndo. Entrou Jonas pela boca da baleia pecador; saia Jonas pela boca da baleia arrependido. Razão é logo, e justiça, e não só graça, senão natureza, que pois os olhos são a fonte universal de todos os pecados, sejam os rios de suas lágrimas a satisfação também universal de todos, e que paguem os olhos por todos chorando, já que pecaram em todos vendo: Quo fonte manavit nefas, fluent pereanes lacrymae.
IV
Os olhos, e não a língua, os primeiros culpados nas negações de Pedro. O pai de famílias da porábola das vinhas não se queixou das línguas dos cavadores, senão de seus olhos. Assim Pedro chorou amargamente para que os olhos pagassem o ver e a amargura pagasse o negar.
Agora se entenderá facilmente uma dúvida não fácil entre as negações de S. Pedro e as suas lágrimas. As negações de S. Pedro, todas foram pecado de língua. A língua foi a que na primeira negação disse: Non sum.33 A língua foi a que na segunda tentação disse: Non novi hominem.34 A língua foi a que na terceira negação disse: Homo, nescio quid dicis.35 Pois se a língua foi a que pecou, por que foram os olhos os que pagaram o pecado? Por que não condenou S. Pedro a língua a perpétuo silêncio, senão os olhos a perpétuas lágrimas? Porque ainda que a língua foi a que pronunciou as palavras, os olhos foram os primeiros culpados nas negações; a língua foi o instrumento, os olhos deram a causa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.