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#Sermões#Retórica

Sermão no Sábado Quarto da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1652)

Vejo que me perguntais: E que remédio, padre, para escapor de tais tentadores e de tão terríveis tentações? Rem difficilem postulasti.13 Nenhum teólogo escolástico ou ascético lhe deu até agora remédio. Eu direi o que me ocorre. Digo que não há outro remédio, senão buscar um sim que seja juntamente sim e não, ou um não que seja juntamente não e sim. Não tenho menos autor para a prova que o príncipe dos apóstolos, S, Pedro. E notai que quando S. Pedro deu nesta sutileza, ainda estava em Jerusalém, e na Judéia, para que não cuide alguém que a fineza desta política fosse romana. Vieram ter com S. Pedro os cobradores de certo tributo imposto por Augusto, em que cada um por cabeça pagava duas dracmas, e fizeram-lhe esta pergunta: Magister vester non solvit didrachma (Mt. 17, 23)? O vosso mestre, não paga o tributo? – Viu-se perplexo e atalhado S. Pedro, porque não sabia qual fosse a tentação de seu Mestre neste ponto de tanta conseqüência? E o que respondeu foi:

Etiam: Sim. – Agora pergunto eu: E este etiam, este sim de São Pedro, que significava? Significava sim, e significava não. Construío com a pergunta, e vereis se tem correntemente ambos os sentidos. – Vosso mestre não paga o tributo? Sim: assim é; não paga. – Vosso mestre não paga o tributo? Sim; sim, paga. – De sorte que o mesmo sim era sim e não. Entendido de um modo, era sim, porque significava: sim, paga; e entendido de outro modo, era não, porque significava: não paga. E com esta equivocação se escapou S. Pedro dos tributeiros, enquanto seu Mestre não resolvia, deixando a porta aberta e cerrada juntamente, e o sim aporelhado e indiferente, para ser sim ou ser não, conforme se resolvesse. Cristo tinha ensinado ao mesmo S. Pedro e a todos seus discípulos, que o seu sim fosse sim, e o seu não fosse não: Sit sermo vester: est est, non non.)14 Mas chegado Pedro a perguntas, e metido na tentação, foi-lhe necessário fazer um sim que fosse sim e não juntamente, para poder escapor dos homens.

Isto é o que fez S. Pedro naquela ocasião. E Cristo, que fez no nosso caso, que era muito mais apertado? Viu que os cordéis com que traziam presa a adúltera, eram laços com que o pretendiam atar; viu que as pedras da lei que alegavam vinham cheias de fogo por dentro, e que ao toque de qualquer resposta sua, não só haviam de brotar faíscas, mas um incêndio de calúnias; viu que suposta à tenção e astúcia dos tentadores, tanto se condenava condenando, como absolvendo, e que um e outro perigo era inevitável: que conselho tomaria? Não dizer sim nem não, era forçoso, porque até a Sabedoria infinita, quando são tais as tentações dos homens, se não pode livrar delas respondendo em próprios termos. E como entre não e sim, não há meio, que meio tomaria Cristo para se livrar de uma tal tentação? Agora o veremos.

§IV

Para que Cristo se defendesse de três tentações do demônio, bastou-lhe um só livro das Escrituras; para se defender de uma tentação dos homens, não lhe bastaram todas as Escrituras: foi-lhe necessário fazer novas Escrituras. A escritura de Jesus e as palavras misteriosas do festim de Baltasar. Para vencer os homens quis Cristo escrever com seu próprio dedo e na terra.

(continua...)

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