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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Dominga da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1655)

Falou Arão no que disse, e foi mudo no que calou: Locutus est mutus. Mas notai que se fez grande injúria à pureza da confissão no que calou, muito maior injúria lhe fez no que disse, pelo modo com que o disse: porque no que calou, calou pecados; no que disse, fez de pecados virtudes. Que é que calou Arão? Calou o altar que levantara ao ídolo, a adoração que lhe dera, o nome do Senhor com que o honrara, os pregões, o dia solene, as ofertas, os sacrifícios, as festas, e sobretudo, abrir a primeira porta e dar princípio às idolatrias do povo de Israel, que duraram com infinitos castigos por mais de dois mil anos. São boas venialidades estas para se calarem na confissão? Pois isto é o que calou Arão. E que é o que confessou, ou como o confessou? O que confessou foi o seu pecado, mas o modo com que o confessou foi tão diverso que, sendo o maior pecado, parecia a maior virtude. De maneira que se Deus não tivesse revelado a Moisés o que passava, pudera Moisés por esta confissão de Arão, pô-lo no mesmo altar que ele tinha edificado. O que Arão disse a Moisés foram estas palavras formais: Dixi illis: Quis vestrum habet aurum; et tulerunt mihi, et projeci illud in ignem: Pediram-me que lhes fizesse um ídolo; perguntei-lhes se tinham ouro, trouxeram-no, e eu arremessei-o no fogo. Olhai como referiu a história! Olhai como despintou a ação! Olhai como enfeitou o pecado! Pedir o ouro para fazer o ídolo, e derretê-lo, e fundi-lo, e formá-lo, e expô-lo para ser adorado, isso não era só concorrer para a idolatria, mas ser autor e dogmatista dela. E isto é o que fez Arão. Pelo contrário, pedir o ouro de que o povo cego queria se formasse o ídolo, e arremessá-lo no fogo, era pôr o fogo à idolatria, era abrasá-la, era queimá-la, era fazê-la em pó e em cinza. E isto é o que Arão confessou que fizera. Julgai agora se têm muito que confessar semelhantes confissões, e se são boas para lançar o demônio fora da alma, ou para o meter mais dentro. Falo da confissão de Arão: cada um examine as suas. Se as vossas confissões são como a de Arão, têm muito que condenar; se são como as do Batista, têm muito que louvar. Mas eu nem louvo com Marcela,6 nem condeno com os fariseus; admiro-me somente com as turbas: Et admiratae sunt turbae.

§III

Confessionário geral de um ministro cristão: Quis? Quem sou eu? O escrúpulo dos cargos. Quantos ofícios tenho? Assim como o sol, o homem não pode presidir a mais de um hemisfério. A Adão foram dados três ofícios, dos quais não soube dar conta. Escrúpulos da alma santa dos Cânticos e de Moisés, grão-ministro de Deus e de sua república.

Suposto pois que há confissões que merecem ser confessadas, bem será que desçamos com a nossa admiração a fazer um exame particular delas, para que cada um conheça melhor os defeitos das suas. E para que o exame se acomode ao auditório, não será das consciências de todos os estados, senão só dos que têm o estado à sua conta. Será um confessionário geral de um ministro cristão. Os teólogos morais reduzem ordinariamente este modo de exame a sete títulos: Quis? Quid? Ubi? Quibus auxilus? Cur? Quomodo? Quando?7 A mesma ordem seguiremos, eu para maior clareza do discurso, vós para maior firmeza de memória. Deus nos ajude.

(continua...)

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