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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

Pantaleão Mendes Guimarães, quarenta e cinco anos, capitalista, armador, antigo negreiro e “engajador” moderno. Há doze anos que uma frescassa loureira, chamada Francisca Ruiva, lhe coou filtros cupidíneos através das enxúndias do peito, e lhe atorresmou os toicinhos da alma. Pantaleão trasladou do bordel às alcatifas de sua casa a Ruiva saudosa do lundum chorado, investiu-a da governança da despensa, e mais tarde esposou-a, no intento de condecorar socialmente a lama que trouxera do alcouce. E, de feito, D. Francisca Mendes, neste ano de 1847, já logrou a satisfação de se ver também caluniada de “esposa virtuosa” nas gazetas.

Joaquim Antônio Bernardo, negociante por atacado de fazendas brancas, quarenta e um anos, estúpido perversíssimo, antigo gandaieiro, que passara uma doce mocidade subtraindo açúcar mascavo das caixas expostas no Terreiro do Paço, e atual irmão da Misericórdia do Porto e fiscal da mesma. Casou com a mais desbragada polha que deu a Maia, e arreou-a de veludos e cetins para a passear nas praças do Porto com a gáudio dum cornaca vaidoso que expõe o seu elefante ajaezado bizarramente. Esta Lais de trapeira, quando passa espeitorada, recende e trescala o fartum das excreções cutâneas.

Não obstante, a sua recâmara não inveja à de Lésbia o cevo de delícias em que a maiata, Circe digna dos javardos que a esfoçam, ganhou renome que bastaria a felicitar três colarejas. Esta dama já se viu, num periódico, em que se dava conta dum seu baile, nomeada de “ilustre e distinta”. Ambos os epítetos lhe quadravam, ocultos os substantivos. Não o tratavam de virtuosa, porque o localista receou que o termo, revendo ironia, lhe fechasse as portas do seguinte baile.

Eis aqui muito em escorço esboçados os traços dos três amigos de Hermenegildo Fialho Barrosas. Deixá-lo falar agora.

IV TRIBUNAL DE HONRA

― Amigos e senhores – prosseguiu Fialho – a razão desta chamada vão vocês sabê-la!

― Você parece que está aflito, Sr. Hermenegildo?! – acudiu magoadamente Pantaleão.

― Se lhe parece!... É um caso de honra e que me há de atirar à cova!

― Ora deixe-se disso! – sobreveio Joaquim Bernardo. – Então os amigos para que servem? Aqui estamos física e moralmente para tudo que for preciso.

― Meus amigos! – volveu o marido de Ângela – acontece em minha casa o mais extraordinário caso que vocês ouviram...

― Como assim?! – interrompeu o marido de Francisca Ruiva.

― Negócio de mulheres!... Poucas vergonhas de mulheres!... Ainda há quem se case!... – esclareceu Fialho intercortando as palavras com uns suspiros que lhe subiam do estômago à mistura com os arrotos de bacalhau assado do almoço.

― De mulheres?! querem vocês ver!... – disse com espanto Atanásio José da Silva.

― Temos maroteira? – perguntou Pantaleão.

― Ouçam lá. Minha mulher vendeu cinco brilhantes da pulseira de casamento que eu lhe dei, e não diz o que fez a um conto seiscentos e cinqüenta mil réis sonante que recebeu pelos brilhantes. Aqui está o que eu tenho a dizer.

Os três conferentes levantaram-se a um tempo, cruzaram as mãos sobre os ossos sacros respectivos, e começaram a passear cada um para seu lado.

Quem primeiro parou e falou do seguinte modo foi o marido da maiata:

― Física e moralmente falando, sua mulher, amigo Hermenegildo, vendendo os brilhantes e dispondo do dinheiro, deve dizer o que lhe fez, por força ou por jeito. Eu cá por mim pegava dum arrocho, e dizia-lhe: “Ó minha amiga, você diz o que fez ao dinheiro, ou acaba-se aqui hoje o mundo!”

― Amigo Joaquim – contrariou Pantaleão. – Não voto por esse sistema, e queira perdoar. Vamos por partes. O amigo Fialho desconfia de sua mulher?

― Eu?

― Sim: parece-lhe que ela doidejou e lhe fez alguma patifaria?

― Eu sei cá, homem!... Vejo isto!... Ah! Esquecia-me de dizer que ela diz que deu o dinheiro aos pobres...

― Bem me fio eu nisso! Essa não amolo eu! – refutou Pantaleão, bascolejando nas queixadas um riso galego. – Aos pobres!...

― Também eu não a engulo! – concordou o irmão de misericórdia. – Que diga o nome dos pobres! Sim! queremos saber quem são os pobres. Física e moralmente falando, se ela o não disser, está provado o crime.

― Isso está! – obtemperou Atanásio. – E cá, se a tratantada fosse comigo, era negócio feito, percebe você?

― Você que faria? – perguntou Fialho.

― Eu?! Eu?! Então você ainda me não conhece? Eu cá era dois pontapés, e rua, percebe você?

― Isso não são modos! – obstou Pantaleão Mendes Guimarães. – Amigo Fialho, você averigüe esse caso com vagar.

― Não tenho que averiguar! – recalcitrou o marido de Ângela. – É isto que lhes digo. Gastou o dinheiro e não diz em quê.

― Então, convento com ela! – alvitrou o prudente Guimarães. – Um homem de créditos faz isto. Os amigos digam agora o que entenderem.

― Eu – opinou Joaquim José Bernardo, descascando os rebordos das ventas infectas – física e moralmente falando, também vou para aí, atendendo a que é melhor não dar escândalo. Você administra-lhe de comer e beber no convento, e não quer mais saber dela.

― E se lhe puser demanda a mulher?! – lembrou Atanásio.

(continua...)

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