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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Cá e lá, más fadas há; e não é a última vez que torto ri-se do aleijado. Correio da Noite, Rio, 14-12-1914.

QUANTOS?

Os nossos financeiros do congresso, ou fora dele, são deveras interessantes. Tateiam, hesitam, andam às apalpadelas, nos casos que mais precisam de decisão.

Resolveram eles, para salvar a Pátria, que anda a níqueis, que os empregados públicos fossem tributados de maneira mais ou menos forte.

Nada mais justo. Como já tive ocasião de dizer, é razoável que a Pátria “pronta”, “morda” os seus filhos “prontos”; e eu, que estou em causa, não protesto absolutamente.

Estou cordialmente disposto a contribuir com os meus “caraminguaus” para a salvação do país mais rico do mundo. Agora, uma coisa, caros senhores legisladores:

quanto tenho de pagar?

Uma hora dizem: dez por cento. Faço os meus cálculos e digo de mim para mim: suporto.

E voto porque nos cortem certas despesas suntuárias, como o governo anda a cortar a dos automóveis.

Vem, porém, um outro “salvador” e diz: você, “Seu” Barreto, vai pagar unicamente cinco por cento.

Tomo a respiração, vou para casa e abençôo o congresso: homens sérios!

Viram bem que dez por cento era muita coisa!

Não confesso a minha alegria à mulher e aos filhos, porque os não tenho, mas canto a satisfação pelas ruas, embora os transeuntes me tomem por louco.

Ainda bem não dou largas à minha alegria, quando chega um outro e propõe: você deve ser descontado em doze por cento.

Ora bolas! Isto também é demais! Então eu sou o holandês que paga o mal que não fez?

Não é possível que os senhores legisladores pensem que posso assim ser esfolado, sem mais nem menos; e os meus vencimentos estejam assim dispostos a serem diminuídos, conforme a fantasia de cada um.

Entro na subscrição para manter o Ministério da Agricultura, mas de conformidade com as minhas posses. Notem bem.

Se ele precisa de tanto dinheiro, nada mais razoável do que apelar para o visconde de Morais, o Gaffrée ou mesmo para o Rocha Alazão, que, em tais coisas de “facadas” é mestre consumado, respeitado e admirado por todos, porquanto – confessemos aqui entre amigos – quem não deu a sua “facadinha”? Correio da Noite, Rio, 18-12-1914.

NÃO SE ZANGUEM

A cartomancia entrou decididamente na vida nacional. Os anúncios dos jornais todos os dias proclamam aos quatro ventos as virtudes miríficas das pitonisas.

Não tenho absolutamente nenhuma ojeriza pelas adivinhas; acho até que são bastante úteis, pois mantêm e sustentam no nosso espírito essa coisa que é mais necessária à nossa vida que o próprio pão: a ilusão.

Noto, porém, que no arraial dessa gente que lida com o destino, reina a discórdia, tal e qual no campo de Agramante.

A política, que sempre foi a inspiradora de azêdas polêmicas, deixou um instante de sê-lo e passou a vara à cartomancia.

Duas senhoras, ambas ultravidentes, extralúcidas e não sei que mais, aborreceram-se e anda uma delas a dizer da outra cobras e lagartos.

Como se pode compreender que duas sacerdotisas do invisível não se entendam.

e dêem ao público esse espetáculo de brigas tão pouco próprio a quem recebeu dos altos poderes celestiais virtudes excepcionais?

A posse de tais virtudes devia dar-lhes uma mansuetude, uma tolerância, um abandono dos interesses terrestres, de forma a impedir que o azedume fosse logo abafado nas suas almas extraordinárias e não rebentasse em disputas quase sangrentas.

Uma cisão, uma cisma nessa velha religião de adivinhar o futuro, é fato por demais grave e pode ter consequências desastrosas.

Suponham que F. tenta saber da cartomante X se coisa essencial à sua vida vai dar-se e a cartomante, que é dissidente da ortodoxia, por pirraça diz que não.

O pobre homem aborrece-se, vai para casa de mau humor e é capaz de suicidarse.

O melhor, para o interesse dessa nossa pobre humanidade, sempre necessitada de ilusões, venham de onde vier, é que as nossas cartomantes vivam em paz e se entendam para nos ditar bons horóscopos.

Correio da Noite, Rio, 26-12-1914.

A POLÍCIA SUBURBANA

Noticiam os jornais que um delegado inspecionando, durante uma noite destas, algumas delegacias suburbanas, encontrou-as às moscas, comissários a dormir e soldados a sonhar.

Dizem mesmo que o delegado-inspector surripiou objetos para pôr mais à mostra o descaso dos seus subordinados.

Os jornais, com aquele seu louvável bom senso de sempre, aproveitaram a oportunidade para reforçar as suas reclamações contra a falta de policiamento nos subúrbios.

Leio sempre essas reclamações e pasmo. Moro nos subúrbios há muitos anos e tenho o hábito de ir para a casa alta noite.

Uma vez ou outra encontro um vigilante noturno, um policial e muito poucas vezes é-me dado ler notícias de crimes nas ruas que atravesso.

A impressão que tenho é de que a vida e a propriedade daquelas paragens estão entregues aos bons sentimentos dos outros e que os pequenos furtos de galinhas e coradouros não exigem um aparelho custoso de patrulhas e apitos.

(continua...)

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