Por Coelho Neto (1897)
Mal chegaram à entrada portentosa logo uma luzente guarda de catafratos , com petrinas de prata, montando ginetes brancos de crinas rastejantes, hasteando lanças que alumiavam, formaram duas extensas alas ao longo do caminho areado de ouro, sobre o qual frescamente rociava uma serena pulverização de aromas.
Os olhos perdiam-se na visão de uma vasta cidade mirífica, toda em mármores e pórfidos, com enormes templos, palácios que eram cidadelas, jardins de redolentes aléias, rios beirados de árvores, com as rampas em alcatifa de flores, rolando alisadas águas sobre as quais rebrilhava, em tremulina, o luar.
Barcos de proas curtas, transbordando brocados, cruzavam-se com músicos sob dóceis de seda.
Nos bosques que os cisnes percorriam, alvos como vivos mármores, mulheres, veladas de gaze, coroadas de rosas, repousavam na fina relva ou balançavam-se em redouças.
Os zimbórios dourados, os frontões dos templos tauxiados de ouro, as escadarias largas, de zebrados degraus de cipolino, subindo a pátios de mosaico, esplendiam.
Surdo rumor agitava a cidade onde a multidão, em festa, tumultuava numa variedade de trajos multicores.
Passavam palanques sob flabelos empunhados por grandes negros vestidos de saios rubros, com franjas de prata, adagas à cinta, emplumados turbantes à cabeça.
Plaustros rodavam com crepitações levantando uma névoa loura.
Photinas de harpas respondiam-se de um eirado a outro e, num obelisco de ônix canelado, mole serpente de escamas de ouro, vibrando a língua bífida, enroscava, em lentas espiras, ficando, às vezes, pendente, a oscilar como uma grossa liana.
José olhava pasmado e Maria encolhia-se tímida, contemplando, deslumbrada, a cidade fulgente.
Não era a triste Sichem nem a sombria Jericó. Que cidade seria aquela tão rica, de tanta vida, isolada na tristonha e maninha região da Samária?
Subitamente, com improvisa fulguração, abriram-se de par em par as portas do templo maior e um grave cortejo apareceu no peristilo e vagaroso, solene, pôs-se a descer a fulgida escaleira.
Vozes, ao ritmo de instrumentos litúrgicos, entoaram um cântico glorioso. O povo prostrou-se na areia micante das alamedas bradando um nome forte.
Cerúleo clarão refulgiu celestialmente. Coalharam-se os ares de aves, armas lampejaram em meneio heróico e toda a turba templária formou no átrio, ergueu um sonoro louvor e rojou-se de bruços, com um tinir argentino de armilas e braceletes. E um homem alto, alado, com dois cornos de luz purpúrea ardendo-lhe entre os cabelos crespos, surgiu no limiar de ouro estendendo amorosamente os braços a Maria estática.
A voz com que a chamou reproduziu-se em eco no silêncio místico; o seu olhar ardia e, em torno do seu corpo torreado, relumbrava um halo como se o emuldurassem chamas.
- Vem! O meu amor esperava-te ansioso. És a eleita de minh’alma. Chegaste no tempo em que as rosas florescem. As vinhas crespas dão fruto, as abelhas fazem o seu mel, o trigo redoura os campos, os lagos são açucenais extensos. Eu pus em ordem a natureza para as nossa núpcias. Vem!
A terra em que pisas nunca recolheu cadáveres. Entraste no reino da ventura eterna. Vem! E estendeu os longos braços que alumiavam como caudas d’astros.
Houve um clamor ovante feito com o nome suave de Maria e outro que ribombava e os cataphractos(1), levantando-se, a prumo, nos estribos, cruzaram as lanças formando uma abobada de cintilações.
José olhava, mudo e receoso, acolhendo ao peito a tímida donzela. Um galo cantou em alguma herdade próxima.
Instantaneamente, com uma surda explosão, toda a cidade maravilhosa e os seres que a animavam subverteram-se. Os ares ficaram nublados de fumo, estriges chirriaram. De novo reapareceram os campos rasos, ermos, estéreis, calados, ao luar lívido. Maria, com o coração sobressaltado, murmurou: - Que lindo sonho, meu senhor.
- Não foi sonho, Maria, tornou sombriamente o patriarca. Vamos! Os lírios trescalam, os grilos cantam. É a madrugada que vem. Puseram-se a caminho.
E, pelos ares, contorcendo-se em furor, uma sombra alada fugia, enorme, monstruosa, com dois cornos que coruscavam.
O MILAGRE DAS LÁGRIMAS
A estrada, a duas horas de Sichem, pelos montes, larga e suave, com aceitosas sombras de sicômoros e de amendoeiras, era toda orlada de anêmonas vermelhas e de margaridas brancas e amarelas.
Os khans sucediam-se sempre abrigados em hortos frondosos, com a cisterna ao lado ou perto de alguma fonte, com a alpendrada reverdecida pela vinha, debaixo da qual os mercadores, que desciam de Tiro ou do Líbano ou subiam de Jopé, comiam uma febra de anho regando-a com o vinho fresco de Engadi, enquanto os dromedários soltos iam e vinham vagarosamente ou deitados, ruminando, cerravam os olhos nostálgicos à vívida fulguração do sol.
Casas misérrimas, de muros de lodo, cobertas de palha, confundiam-se com a ramagem dos eloendros, perdiam-se nos olivais.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. A partida. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7527 . Acesso em: 7 abr. 2026.