Por Raul Pompéia (1880)
A aragem que soprava deixou de balouçar as folhas da mata e, na ocasião em que a natureza emudecia, rolou ao longe um trovão. Prenúncio da tempestade.
Ela aí vinha.
Meia hora depois, uma tira de fogo zig-zagueou no espaço, seguiu-se um trovão, menos remoto que o primeiro, que percorreu o céu já todo negro.
— Vamos ter uma grande trovoada, observou Rosalina. — Entremos, disse Eustáquio levantando-se.
Quando subiam os degraus da porta, grossas gotas d'água choveram e a emanação da terra se fez sentir.
A família acercou-se de uma janela e, até anoitecer acompanhou as peripécias da tormenta, que serenara um pouco.
Ainda todos estavam na janela no momento em que uma detonação na picada chegou-lhes aos ouvidos.
Era a hora em que deviam chegar os soldados.
— Um tiro! exclamou Branca, benzendo-se.
A orfãzinha a imitou e o subdelegado lhes disse:
— Ouviram? Um tiro! São os miseráveis que atacam os guardas. Vou socorrê-los!
E quis correr, mas a mulher o conteve, não sem custo, conseguindo persuadi-lo da sua imprudência. Logo depois ouviram fracos gritos de apelo.
— Pobres homens, disse surdamente Eustáquio.
Foi então que Rosalina que ficara na janela gritou:
— Vejam! olhem aqueles que correm em direção ao tiro! — Meu Deus! murmurou a esposa dó subdelegado.
Realmente, por entre o mato distinguia-se alguns homens correndo para a picada.
Duas detonações seguiram-se, recaindo a noite no silêncio possível em uma tormenta.
A trovoada recrudescia e, minutos depois, chovia a jorros.
Entretanto, em uma estiada, como que perceberam todos um rumor longínquo, que vinha do lado do rio.
Sentiram o coração, termômetro dos terrores, latejar com força.
Realmente, nada é tão terrível a quem, na solidão, espera um perigo como escutar um ruído inexplicável.
Eustáquio e Ruperto tomaram duas espingardas e esperaram.
O rumor crescia e logo se pôde conhecer que provinha da carreira de alguém.
Tamanha era a escuridão que tornava impossível avistar-se cousa alguma a mais de quatro passos.
Eustáquio, como qualquer outro em iguais circunstâncias, perdeu-se em medonhas conjecturas.
Quando mais próximo pareceu-lhe o corredor, gritou:
— Onde vais, homem?
Por única resposta ouviu:
— Malditos! malditos!
E uma pistola veio cair-lhe aos pés.
— É um dos guardas, disse Ruperto que, a um relâmpago, conseguiu ver quem passava.
Era, na verdade, o soldado que o leitor viu louco e que, por acaso, seguira na sua furiosa carreira a direção da morada de Eustáquio.
O policial se perdera na negrura da noite quando Ruperto saiu para agarrálo, porque o subdelegado reconhecera a sua loucura.
Antes de o atingir, o escravo viu-o cair e estorcer-se, a luz rápida do fuzil, de um modo horrível, e quando chegou à eminência do terreno onde ele estava deitado, achou-o sem vida.
Fora a morte o resultado do veneno da cobra.
Tomando aos ombros o cadáver, Ruperto o levou para a casa onde foi depositado na sala.
Branca e Rosalina, não o querendo ver retiraram-se para o interior.
Gradualmente extinguiu-se a tempestade e as brisas da madrugada tocaram para leste as últimas brumas.
CAPÍTULO V
NOVOS ENGAJADOS
S. João do Príncipe tem uma espécie de largo no lugar onde atracam as embarcações do Iapurá.
Para ele convergem as mal alinhadas vielas do povoado, fazendo nesse ponto o seu centro de atividade; apesar disso, a não ser em domingo, só se vêem aí uns sete ou oito ociosos que passam as horas de interminável palestra. Todavia, em uma quinta-feira, o que era extraordinário, achavam-se numerosas pessoas reunidas em grupos que discutiam com alento.
De vez em quando cessavam as altercações para refrescarem-se com os chapéus de abas largas, porque o calor se tornava insuportável.
Depois, continuavam a aventurar hipóteses, para a explicação de uns tiros ouvidos durante a noite.
Já se decidiam até a ir à casa do subdelegado.
De repente, escutaram um galopar de cavalo e um cavaleiro apontou, à rédea solta, em uma rua.
Era um negro, que sem prestar atenção aos conversadores atirou-se da sela à porta de uma casinha do largo.
Todos os olhos estavam sobre ele.
Viram-no bater e entrar.
Siga-o leitor.
Apenas introduzido o preto, um padre veio-lhe ao encontro.
— Oh Ruperto! Você por aqui! O que há de novo?
— Muita cousa, senhor padre, respondeu o recém-vindo,
— Pois fale, disse o sacerdote, que não era menos que um amigo de Eustáquio.
— Não é necessário, senhor padre Jorge, aí tem esta carta que dirá tudo e mais ainda.
O padre Jorge recebeu a carta que lhe apresentava Ruperto, e leu-a toda.
O seu amigo depois de referir o que sabia sobre os soldados agredidos, pedia-lhe que enviasse, incontinente, homens corajosos para sua guarda.
— Vou já satisfazer ao subdelegado, disse o padre, caminhando para a porta, onde se fizera ajuntamento de gente.
Com a familiaridade de que usava para com esses homens, contou-lhes o que sucedera aos policiais e perguntou quem deles se queria pôr a serviço de Eustáquio, mediante boa paga.
Muitos se ofereceram porém o padre só escolheu os quatro mais conhecidos pela sua valentia e dedicação.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.