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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

— Não será... pode o senhor ficar sossegado... — Perfeitamente... Vou tranqüilo...

Continuava o riso mefistofélico das flâmulas de papel. E Pavia levantou-se. Foi até junto da vela, consultou o relógio. Eram onze horas mais ou menos.

— Ainda é cedo, murmurou.

E, voltando-se para Januário, que se erguera depois dele, disse-lhe:

— Até outra vez. Boa-noite.

O velho respondeu ao cumprimento, e viu-o mergulhar na escuridão do beco.

Não havia ainda fechado a porta, quando sentiu-se agarrado freneticamente pela gola do paletó:

— Miserável! — dizia a voz de uma mulher.

Essa voz tinha uma energia selvagem, e era ao mesmo tempo comprimida na garganta de quem falava.

Januário sentiu o pescoço ferido pelas unhas de quem o prendia. Puxaramno. Ele perdeu o equilíbrio. Tentando agrarrar-se à parede, abriu as mãos. A bengala escapou-lhe e caiu no soalho, ressoando longamente pelos cantos da casa o rumor da queda. As mãos não encontraram saliência na parede, a que se agarrassem. Foi lançado ao chão. Arrastaram-no...

Quando o desgraçado pôde respirar, viu-se frente a frente com a nora.

A terrível mulher o levara de rastos até uma cadeira, e ficara em pé diante dele.

— Miserável... eu vi o que acabaste de fazer.

— Emília!... Emília!...

— Velho bandalho! Patife que estás apodrecendo debaixo desses cabelos brancos... Ainda cometer crimes... Não te enforco...

— Emília!

— ... não te sufoco entre os meus dedos, porque Deus te vai afogar em breve na lama de uma vala... Quantas vezes vendestes tuas filhas?... Quanto recebeu-te o negócio, velho desavergonhado?... Pois não repetirás o comércio!... O que fizestes aos teus não farás aos dos outros. Tinhas o direito de vender o teu; não venderás o alheio!...

A nora de Januário falava com os punhos cerrados, perto da cara do velho. As palavras saíam-lhe dos lábios faiscantes e caíam chiando sobre a cabeça do sogro...

— Escute-me, Emília! — balbuciava ele. — Escute-me!

Mas Emília estava surda de ira.

Apenas vestindo uma saia curta e uma camisa larga, que lhe fugia pelos seios abaixo; cabelos soltos, caindo-lhe secos pelos olhos e pelas costas; braços nus, clavículas à mostra, em toda a fealdade da magreza e da tensão dos músculos, aquela mulher fazia medo. Os impropérios ferviam-lhe na garganta e elas os soltava sobre Januário.

O velho estava aturdido.

A atitude repentina e inesperada da nora fazia-lhe o efeito de muitas cacetadas ao mesmo tempo.

Felizmente, a falta de resistência acalmou um pouco os furores de Emília.

— Eu ouvi daquela alcova a negociação que fizeste com o outro infame, aquele demônio barbado... Eu já esperava por essa entrevista. Contava com a fatalidade. Cá, na quinta, corre tudo como num matadouro: cada vitela tem o seu dia de ver o machado sobre a nuca!... Tu não tiveste, miserável, um pouco de coração, nem um pouco de vergonha... foste fazendo o negócio...

— É para o teu filho mesmo, Emília... o meu neto...

— Não digas... não digas... Meu filho não precisa do preço de torpezas. Dáme esse dinheiro, dá-me, desgraçado... quero queimá-lo naquela chama... Estás ouvindo? Este dinheiro nunca será para meu filho!

Januário apertava involuntariamente contra o peito o dinheiro que recebera de Pavia e metera no bolso.

— Não mo dás? — vociferava Emília. — Guarda para tua avareza. Come-o!... Quem vai perder é aquele demônio que saiu daqui... Minha... minha Conceição não entrará em casa dele!... Come o dinheiro, se quiseres...

E, bruscamente, da mesma maneira por que entrara, Emília retirou-se da sala.

CAPÍTULO IV

No meio do populoso arrabalde de Santo Cristo, abre-se uma espaçosa superfície de terreno coberta de arvoredo e de grama, arrebicada de quantos prodígios possui a arte e quantos esplendores a natureza pode ostentar.

Há por aí florestas escuras por onde circulam virações perfumadas, ricas de oxigênio e de poesia; avenidas de bambus por onde fogem amores e murmúrios suaves de folhagens; cascatas e grutas que têm por lambrequins os volumosos cones estalactíticos e por telhado zimbórios de pedra e incrustações de cimento; a água corre com a serenidade dos sonhos gostosos e vai insensivelmente passando por sob o arqueado das pontes.

O sol brinca como um menino nesses lugares. Recreia-se brejeiramente no alto do arvoredo, requeimando os brotos novos, e escorrega para o chão a dar cintilações coloridas aos bichinhos e a aquecer os camaleões vivazes e ariscos.

Se atira-se aos lagos, cobre-os de palhetas de luz; se passa pela pulverização da chuva das cascatas, pinta arco-íris no ar e leva o dia na faina.

(continua...)

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