Por Lima Barreto (1922)
Voltei triste, por nada encontrar. Mas se tiver forças hei de voltar Para vê-lo de novo outra vez.
A notícia está assinada com o nome do autor e justifica os elogios que lhe faz, com estas palavras, cuja aplicação devia caber aos seus camaradas e contemporâneos, para animá-los a fazer grandes coisas. Ei-las:
"Nada mais agradável e, sobretudo, nada mais útil que aplaudir aos espíritos que apenas desabotoam, ainda cheios do calor dos primeiros sonhos, ainda ressoantes da vibração dos primeiros vôos. Para eles não deve ser a crítica um instrumento frio, insensível, com as asperezas de uma medida certa, senão uma voz de estímulo, uma alentadora voz que embale o coração e penetre, carinhosamente, a inteligência que reponta. O comentário, sem ser exagerado, para não se tornar prejudicial, sem ser frívolo, para não se transformar em elemento nocivo, em fonte de erros e vícios, deve procurar os aspectos mais significativos do temperamento que surge, apontando, com amoroso intuito, as insuficiências, as indecisões da primeira hora, as dúvidas e as hesitações peculiares aos que começam. Geralmente, porém, não costumam os críticos profissionais usar de tais cautelas antes preferem exercer o seu mister, com rudeza e impassibilidade, confundindo autores novos, sem responsabilidades literárias ainda firmadas, para os quais o maior rigor é brandura." É engraçado que seja só maior rigor a brandura quando se trata de poetas da Austrália; mas quando se trata de vates da Bruzundanga a maior brandura é o rigor.
Não é só assim em poesia. Nas artes plásticas, na música, tudo é assim.
Chega à capital da Bruzundanga um pintor que se diz pintor e espanhol, a quem ninguém nunca viu ou conheceu, e logo os críticos dos jornais, viajados e lidos, finos e limpos de colarinhos, logo dizem: "Este Dom Tuas y Trias é Velázquez, é Zurbarán, é o Greco, é Goya, etc., etc."
Os quadros que ele traz, talvez, não sejam dele; são de uma banalidade de concepção e de uma infantilidade de execução lamentáveis; mas os tais homens lidos, viajados, que desprezam os javaneses (os mulatos de lá), afirmam que o homem é extraordinário.
Dito isto, logo todos os bobos ricos, enriquecidos com o tráfico do ópio e outras maléficas, a fim de imitarem os príncipes da Renascença — já se viu! — correm à exposição e compram os quadros a preço de ouro, enquanto os pobres diabos naturais ou vivendo na Bruzundanga, que são conscienciosos do seu mister, morrem em ofícios humildes ou de sodka.
E assim o gosto da gente superior da Bruzundanga, gente feita de doutores e aventureiros, ambas dadas à chatinagem e à veniaga, desde os primeiros caçando casamentos ricos e os segundos na cavação comercial e industrial, sem ter tido tempo para se deter nessas coisas de pensamento e arte.
Quando ficam ricos, estão completamente embotados, para não dizer mais...
Houve um pintor viriático que veio com uns quadros dramáticos. cenográficos para a Bruzundanga, precedido de uma fama de todos os diabos, a ponto de um guarda-livros, Filinto não hesitar em dizer que era Leonardo Da Vinco.
Quando publicar estas notas em volume, que está a aparecer em edição de Jacinto Ribeiro dos Santos, meu bom amigo e camarada, hei de juntar uma reprodução do retrato eqüestre de um rei dele, o pintor, que é o modelo mais perfeito do maneirismo, do apelo aos uniformes, aos chamalotes, às plumas que conheço, em pintura.
Estas notas foram escritas ao correr da pena; mas, entretanto, poderei desenvolvê-las se os interessados me provocarem. Escrevo em dia oportuno. ABC, Rio, 7-9-1919.
Lei de promoções
(Crônica Militar)
O que tem até agora regulado as promoções, quer no exército e armada, quer na polícia e guarda nacional, é o arbítrio, o capricho e a ignorância cega dos elementos da genesíaca cartesiana, que os metafísicos definem erroneamente como aplicação da álgebra à geometria.
No semi-século genial e fecundo que medeou entre Descartes e Leibnitz, muita conquista útil foi obtida, no terrena da análise transcendente, mesmo antes da sua completa sistematização pelo gênio do último daqueles filósofos.
Fermat, Cavallieri, Roberval e outros muitos concorreram para o estabelecimento definitivo do instrumento leibnitziano — uma imortal conquista científica, para obtenção da qual o espírito humano estava assaz maduro, tanto assim que Newton, pela mesma época, apresentou o seu cálculo das fluxões.
Todo esse lento e paciente trabalho que absorveu o espírito de tantos grandes homens da Humanidade, obriga-nos a dispensar um culto acendrado à memória deles, por isso lhes cito aqui os nomes, ao lembrar as suas descobertas que muito lucraram com o rigor e a justiça das promoções nos batalhões dos colégios equiparados e linhas de tiro.
Nestas unidades, o acesso ao posto imediato é determinado por um processo rigorosamente científico, de um rigor verdadeiramente astronômico.
É preciso estendê-lo ao resto das forças armadas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16833 . Acesso em: 8 maio 2026.