Por Coelho Neto (1906)
À mesa, os três conversaram alegremente, e Paulo, balançando a perna, encontrou um dos joelhos da mulata, e, durante todo o almoço, sentiu-o, afagou-o voluptuosamente. Refeito e esquecendo a avareza do velho Fábio, decidiu-se a tentar a sorte com o pouco que lhe restava e, distraindo-se, enquanto Ritinha retirava os pratos e a toalha e Mamede mudava a camisa, assobiando, pôs-se a imaginar uma grande sorte. uma repetição, e via os montes de fichas, ouvia-lhes o estrépito e acumulava cartões: Eram plenos sobre plenos, uma fortuna! Tirou do bolso o dinheiro que tinha e, folheando as notas por baixo da mesa, com cuidado de usurário, achou trinta e cinco mil-réis; guardou-os, pôs-se de pé, mas a mulatinha reteve-o com um sorriso.
— Já quer sair? Não toma café?
Mamede falou do quarto, em sobressalto:
— Espera um instante, nhozinho. — Sim.
Ritinha encaminhou-se para o corredor e Paulo, vendo-lhe os quadris carnudos, que bambaleavam, adiantou-se em pontas de pés, as mãos estendidas; ela parou, como fascinada. Ele atirou-lhe os braços ao pescoço e, mesmo de costas, a mulata derreou a cabeça e as bocas ficaram coladas num beijo muito longo. De repente apartaram-se: ela fugiu surdamente pelo corredor, ele foi ficar à porta, olhando as lavadeiras que, ao longe, com as saias arregaçadas, mostrando as pernas fortes, estendiam a roupa nos coradouros ou em cordas que vergavam.
Um sino soava gravemente ao longe e, percorrendo a estalagem, ao vivo sol, um homem com uma caixa à cabeça, pintada a listas de várias cores, soprava uma cometa fanhosa.
— Pronto! — exclamou o mulato saindo do quarto com umas calças de brim e uma lustrosa camisa de chita. Enrolava um cigarro e, chegando-se muito ao estudante, sussurrou:
— Nhozinho tem aí uma de cinco que me empreste até amanhã? É só até amanhã.
Paulo não teve ânimo de negar — meteu a mão no bolso, escolheu uma cédula e entregou-a ao mulato.
— E só até amanhã, nhozinho.
— Ora...
— Vosmecê não quis aparecer mais em casa do Cordeiro? Desconfiou com o trombone? Pois olhe: Eu, noutro dia, fiz um estrupício doido no pequeno. E estava só dizendo: Ah! se nhozinho estivesse aqui chamava uma cobreira grossa desses manos.
Depois do café saíram. Paulo, porém, para livrar-se do mulato, despediu-se ao portão, tomando um bonde.
Dona Júlia passou o dia em torturas, preocupada com o aluguel da casa. Se um bonde parava perto, logo alarmada, invocava Nossa Senhora, receando a presença do cobrador, temendo o escândalo.
"Que diriam aquelas mulheres da vizinhança, a gorda, principalmente, que ria de tudo?" Dava-lhe maior cuidado a opinião dos vizinhos do que o próprio vexame. Resignava-se a todo sofrimento, mas a idéia de ser tida por uma caloteira, amofinava-a. Lembrando-se, porém, do filho, animou-se. Ele, por certo, já entregara o dinheiro à senhoria, e como até à tarde ninguém aparecesse, tranqüilizou-se.
Até horas altas da noite esteve a pensar, acotovelada à cômoda, diante dos santos, mas, cedendo à fadiga, deitou-se e adormeceu, acordando de madrugada, em sobressalto, como se houvesse sido sacudida por alguém. O seu primeiro pensamento foi para o filho: 'Teria ele entrado? Quem lhe abrira a porta? Felícia..." Levantou-se, foi ao quarto negra que já enrolava a esteira:
— Paulo veio, Felícia?
— Não senhora.
— Não veio!?
— Que eu visse, não, senhora.
Ficou parada à porta do quarto a olhar. Era a primeira vez que o filho pernoitava fora. Que teria acontecido?
— Hein, Felícia?
— Senhora...
— Paulo... Quem sabe se aconteceu alguma coisa?!
— Qual o quê, minh'ama. Nhonhô é moço, ficou com algum companheiro. — Não...
Apreensiva, deixou-se estar à porta do quarto, pensando.
— Homem não tem perigo, minh'ama.
Sem responder, a velha foi caminhando para a sala. Lembrava-se do desaparecimento de Violante. Que fatalidade era essa que assim lhe ia levando os filhos, um a um? Que grande crime teria ela cometido para que Deus a condenasse a tão duro castigo? Abriu com cuidado a porta do quarto do filho e espiou: a cama estava feita, com os lençóis muito esticados, alvejando. "Que teria acontecido, Deus do céu!" E entrou, com olhares pelos cantos, como se procurasse alguma coisa.
Aquela companhia do Mamede dava-lhe cuidado. Conhecia-o bem. No tempo do falecido volta e meia era um recado, um pedido: porque o mulato fora preso num barulho ou apanhado numa casa de jogo.
Duma feita, deixando um homem por morto, com uma navalhada,
respondera a júri, sendo absolvido à força de empenhos, que até políticos haviam trabalhado por ele. E Paulo que o não deixava! Vão ver que andou por aí de pagode com o perdido. Suspirou.
— Qual! Deus não tem pena de mim...
Eram onze horas quando bateram à porta. Felícia não estava, tinha ido à venda. Dona Júlia estremeceu: "Quem será, meu Jesus..." Espiou por entre as rexas da rótula e empalideceu reconhecendo o cobrador da casa. Para evitar o escândalo abriu a porta, convidou-o a entrar, muito vexada, dizendo "que o filho saíra para receber".
O homem mirou-a sacudindo o berloque da corrente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.