Por Coelho Neto (1890)
— Que diabo terá João de Deus?
— Ora! Que há de ser?
CAPÍTULO IX
Na manhã seguinte, fresca e luminosa manhã, depois do banho, o último sob o jorro copioso da calha que rivalizava com Paulo Afonso, Ruy Vaz e Anselmo, vestindo as calças menos surradas, foram bater à casa vizinha. Quem lhes havia de aparecer? Uma mocinha loura, alva e franzina. Duas rosas ornavam-lhe as faces duma pele acetinada e tênue, sob a qual como que se via o sangue circular em retículas azuis. Os olhos, duas turquesas, pensativos sob as compridas pestanas curvas, tinham uma entristecida melancolia e pareciam lavados em lágrimas. Os cabelos eram de ouro e brilhavam em duas tranças fartas, o colo cheio ondulava e a voz era lenta e doce como o som das citaras.
Descerrou a pequenina boca fresca e sangüínea e, firme, com o seu avental imaculado, perguntou: "Se queriam alguma coisa?" Anselmo, arroubado, já cantarolava o:
Salve dimora casta e pura!
Foi Ruy Vaz, mais frio e resistente ao amor, quem respondeu:
— Sim, senhora. Desejamos ver os cômodos anunciados.
Gretchen acenou de leve com a formosa cabeça, onde havia mais ouro do que em todo o Reno, no tempo dos deuses, e grave, em passo sutil e airoso, chegou a uma porta, deu volta à chave convidando, com um gesto cheio de divina majestade, a entrarem. Ruy Vaz passou primeiro e Anselmo seguiu-o com o coração abrasado. Não viu o estreito corredor sombrio, nem o quarto acanhado, nem a sala que tinha o papel desprendido, voando ao vento e buracos pelos cantos e placas de zinco pregadas no soalho esfregado. Ruy Vaz examinava como um mestre de obras, elevando os olhos da barra ao teto, de onde a pintura esborcinada, escorchada se destacava em lâminas. Anselmo via tão só a face branca e as rosas, os olhos azuis e as tranças, a boca breve e rubra e o colo que arfava. Estava longe, andava em
Goethe, pelo Fausto...
Salve dimora casta e pura...
Ruy Vaz trincou o bigode e, pondo os olhos negros no rosto puríssimo da moça, ponderou, sorridente:
— É caro...!
Ela, muito séria, encolheu os ombros e foi abrir as janelas. O sol entrou iluminando a sala, pondo uma grande alegria nos aposentos e brilho nos cabelos de Gretchen. A aragem fresca levou o cheiro de umidade deixando um leve aroma de rosas.
— Caro não é, disse Gretchen, como espantada.
— Não é, concordou Anselmo.
— Com café de manhã...? — aventurou Ruy Vaz e ela, sorrindo, com muita vivacidade e um fulgor novo nos olhos:
— Si, si... com café de manhã.
— E o banheiro? — perguntou o romancista.
— Si, disse ela, no quintal; banheiro do chuveiro; elevou o braço e fez graciosamente o gesto de quem puxa uma corda.
— E as condições?
— Como queira. Não faz questão.
— É a senhora quem aluga?
— Não, papai. Mas ele não está. E encarando Ruy Vaz:
— O senhor não mora aqui ao lado?
— Sim, senhora. Tomamos esta casa para um amigo que se casou no Norte. Ele devia chegar até o fim do mês. Anteontem, porém, telegrafou-nos comunicando-nos que resolvera passar a lua-de-mel nas margens do Reno, no castelo de um parente da mulher.
— Nas margens do Reno? — exclamou Gretchen maravilhada.
— Sim, senhora: nas margens do Reno.
— Muito bonito! — disse ela abrindo os olhos serenos.
— Muito bonito. A senhora compreende que dois rapazes num casarão como esse...
— Ah! Si... si... Seu nome? — Ruy Vaz.
Ela repetiu lentamente, sonoramente:
— Ruy Vaz. E o senhor? — Anselmo Ribas.
Gretchen sorriu e, como nada mais tivesse a perguntar, ficou a brincar com uma das tranças.
— Bem; então podemos fazer hoje a nossa mudança? — disse Ruy Vaz.
— Sim, senhor. E, tirando do bolso do avental uma pequena chave, entregou-a ao romancista dizendo com um sorriso adorável: Só tem uma.
— E basta, respondeu ele. Então até já. Deu alguns passos para o corredor, mas voltou-se amável: A senhora...?
E ela, compreendendo, avançou a cabecinha, com um dedo no colo farto:
— Meu nome?
— Sim, senhora. — Carlota.
Anselmo estremeceu lembrando-se de Werther. E, quando estendeu a mão a Carlota, sentiu um frêmito percorrer-lhe o corpo, que vibrou de amor. Carlota! E, saindo, cantarolava apaixonadamente: Salve dimora casta e pura.
Quando entraram no palácio João de Deus, macambúzio, passeava lentamente pelo corredor e o gato ia e vinha miando, a esfregar-se-lhe nas pernas.
— João de Deus, tem paciência, estamos com a corda na garganta, e só tu nos podes salvar.
— Eu? Ah! Seu doutor, eu estou que não posso comigo. É para ir à cidade? — Não, mais perto: aqui ao lado com os nossos trastes.
— Carregar!!?
— Sim, João, tem paciência.
O negro tirou uma ponta de cigarro detrás da orelha e, com um suspiro, foi subindo as escadas vagarosamente. Os dois rapazes desceram ao jardim e Anselmo, encostando-se à barra fixa, suspirou, melancólico, como se previsse desgraças:
— Ah! Meu caro Ruy... essa casa é um perigo.
— Perigo? Perigo por quê? — e o romancista ia catando as rosas e as gardênias do jardim que a erva crescida asselvajava.
— A mocinha impressionou-me. Viste que lindos olhos? Não lembra a Margarida?
— Que Margarida?
— Do Fausto...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.