Por Raul Pompéia (1888)
— Ora, diretores! empresários! fabricantes de ciência barata e prodígios de carregação, com que empulham os papais basbaques... O que querem é a freqüência do negócio... Falam cá em anúncios... Mulher ao balcão... Que chamariz, uma carinha sedutora! Eu por mim, se fosse diretor, inaugurava um Kindergarten para taludos; uma bonita diretora à testa e quatro adjuntas amáveis... Não haveria nhonhô graúdo que não morresse pelo ensino intuitivo. Como não haviam de pagar para cortar pauzinhos no meu jardim! E que serviço ao progresso do meu pais: estimular à Froebel as inteligências perrengues e as adolescências atrasadas...
— Pois eu seria capaz de guerrear o estabelecimento. Se fosse diretor, teria o cuidado de ser também ministro do império... Revogava a Instrução Pública e aprovava a minha gente por decreto, tudo de pancada e com distinção.
— Qual! eu, se fosse diretor, seria safado! Não há nada neste mundo como ser safado! Uma bonita meninada, que festança! Os meninos gostam da gente, a gente gosta dos meninos e o colégio cresce: crescite!... Daí a pouco tanta matricula, que precisaríamos mudar de casa...
— Que canalha! Que lingüinhas... Safa! Pois eu cá só digo mal daquele tipo do Liceu. Marcelo, que tem na face a costura cicatrizada do talho que lhe fez um
discípulo em certa aventura com o mais pacífico dos utensílios, e que, ainda assim, foi apanhado no Cassino deixando aberto num divã o carnet de baile, cuidadosamente ilustrado de símbolos... pedagógicos.
A palestra no pérola era muito mais cândida, e, principalmente, nada pessoal. Curso improvisado de obstétrica elementar, para especulação. Todos queriam saber; apertavam-se vinte pequenos em roda do problema, como aquelas figuras da lição de Rembrandt. Qual a origem das espécies? Eram investigadores. Ninguém adiantava um passo. Estava ausente o gipaeto, que talvez pudesse explicar. Feliz quem pode conhecer a causa das coisas! Como é a entrada na vida? Ordem dórica? jônica? compósita? As imaginações trabalhadas formigavam avidamente sobre a questão; ninguém penetrava. Desenrolavam-se as teorias domésticas, angélico-ginecológicas.
Havia em Paris uma grande empresa de exportação, da qual eram agentes em todo o mundo os porteiros, e comissária central no Rio Mme. Durocher. Vinha o gênero nos berços, encaixotados, mijadinhos e chorosos. Esta teoria tinha o merecimento filosófico de prescindir das causas finais. Os metafísicos inclinavam-se mais para a intervenção da sobrenatureza: por ocasião do Natal havia de noite uma distribuição geral de herdeirozinhos pela terra, chuva de pimpolhos, para compensar a matança dos inocentes, tão prejudicial no tempo de Herodes. Inútil dizer que os referidos inocentes vinham outrora ao mundo pela mão dos mesmos portadores das credenciais da revelação, hoje em desuso.
E a academiazinha de investigadores arrumava documentos, sorrindo alguns da credulidade dos outros, exibindo em refutação credulidade de diverso quilate; alguns, mais positivos, aduzindo observações próprias, porque os meninos espiam, oferecendo à opinião dos colegas uma nota ponderosa, edificando-se lentamente o sistema como os sistemas se edificam, aproveitando-se apenas o elemento franqueado pelo apoio comum.
Dois últimos pareceres concorreram oportunamente para desatar os embaraços e a assembléia dispersou-se. Um cearensezinho, de cabelo à escova, inteligente e silencioso, amigo de responder por um jeito especial de virar os olhos. senhor de um sorriso desconcertante que sabia armar a propósito, falando baixinho e explícito, introduziu no debate a descrição minuciosa, sem perda de fofos nem apanhados, da toilette balneária das mulheres do sertão na província, descendo ao rio, de um belo pano simpático em que o raio do sol nascente representa de fio mais grosso. Outro parecer foi a grosseira chacota de um caturra barrigudinho, fronte de novilho, miniatura de arrieiro, brutal e maroto, filho de um criador abastado do Paraná e instruído para todas as exigências práticas da indústria paterna. Estava ali a ouvir desde o principio sem dizer palavra, esperando a conclusão. Supondo que o cearense ia fazer a luz, atirou-se adiante, interrompeu-o e concluiu largando o enxurro, esponjando-se farto na garotada, como a cria da estância no lodo fresco.
A vadiagem dos dormitórios não consistia só em palestra. Depravados pelo aborrecimento e pela ociosidade, inventavam extravagâncias de cinismo.
O Cerqueira, ratazana, sujeito cômico, cara feita de beiços, rachada em boca como as romãs maduras, de mãos enormes como um disfarce de pés, galopava a quatro pelos salões, zurrando em fraldas de camisa, escoucinhando uma alegria sincera de mu. Maurílio, o dos quinaus, não era exclusivamente o campeão da tatuada que conhecemos; tinha outra habilidade notável e prestava-se com aplauso a uma experiência original de fluidos inflamáveis. Este rapaz escapou de morrer, em um dos últimos naufrágios da nossa costa; um ex-colega escreveu-lhe: Quem os semeia, colhe tempestades.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.