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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

O diretor tinha entrado para o gabinete seguido de Leporace e nenhum dos dois ouvira o breve diálogo trocado na sala entre os dois redatores. De repente, com aquela sofreguidão que lhe era peculiar e que ele punha nos atos, nos afetos e nos seus medíocres artigos, chegou-se à porta e perguntou ao Floc:

— Vi esse tal Andrade na rua... O jornaleco dele ainda continua a sair?

— Penso que sim.

— Tens lido?

— Às vezes.

— Continua a insultar-me?

— Sempre. E acrescentou: O doutor se incomoda com o que diz esse vagabundo?

— Não... Ora! Mas... Deixa estar que ele há de precisar de mim, há de cair em alguma; então veremos... Não se esqueçam dele, quando for ocasião, casquem... Patife!!!

E passou por mim ainda com os dentes rilhados, cheio de raiva, desabotoando a barguilha, apressado para o mictório, olhando para o lado em que eu estava, como querendo dar a entender que ele era forte, muito forte, e havia de esmagar um dia aquele pigmeu que ousava pôr-se diante do seu caminho triunfante, atirando-lhe alfinetadas com uma cômica violência liliputiana. Havia de esmagá-lo, inutilizá-lo para sempre e faze-lo sofrer eternamente o grande desaforo de o não supor Deus no “Domingo”, a ele, doutor Ricardo Loberant, diretor-proprietário d'O Globo, jornal independente, órgão do povo e dos sofredores, pesadelo dos ministros, espada de Dâmocles suspensa sobre a tríade política e administrativa da República. E ele tinha razão.

O terror que inspirava dentro do jornal, irradiava para fora. Aquele homem magrinho, fraco de corpo e de inteligência, sem cultura. amedrontava a cidade e o país. Todos o cortejavam; os colegas que o combatiam, evitavam feri-lo de frente. Um ou outro, num momento de desespero, tinha a coragem de enfrenta-lo; mas era num momento de desespero. Armados, cercados de todos os lados, tinham uma convulsão e atiravam-se, desferindo golpes para a esquerda e para direita. Se porventura algum era mais certeiro e parecia esmagar o doutor Loberant, ficava-se pasmado que se desse o contrário. Longe de perder prestigio, esses ferimentos aumentavam-no. O povo não queria ver a sua ignorância, a sua inabilidade no escrever; era valente e dizia a verdade. Houve uma polêmica sobre um tratado de limites em que o seu desconhecimento da geografia pátria ficou patente; o jornal foi mais lido. Em outra vez, deu como tendo feito oferecimentos a conventos do Brasil, reis da dinastia de Borgonha; recebeu uma ovação. De dia para dia, o jornal crescia em venda. Todos o liam; era o jornal dos desgostosos, dos pequenos empregados, dos ratés de todas as profissões e também dos ricos que não podem ganhar mais e dos destronados das posições e das honras. Na venda avulsa, nenhum o excedia, nem o próprio Correio da Manhã. Só o Jornal do Brasil se mantinha emparelhado com ele, e a rivalidade era acesa. Julgando que a prosperidade do outro era devida aos bonecos, Loberant punha na sua folha bonecos. Parecendo-lhe que isso não era o bastante, forjava anúncios, “calhaus”, calhaus de “precisa-se”, de "aluga-se", de pequenos anúncios que, em abundância, parecem ser o índice da prosperidade de um jornal. Mas não contente com esses expedientes todos, um dia o doutor Loberant, supondo a popularidade do rival devida à falta de gramática nos artigos, chegou à redação furioso e, com o seu modo habitual, berrou:

— Não quero mais gramática, nem literatura aqui!... Nada! Nada! De lado essas porcarias todas... Coisa para o povo, é que eu quero!

O Lobo, que estava na sala, teve em começo um grande olhar de tristeza com que envolveu toda a sala e a coleção de jornais dependurados pelas paredes. Depois de um momento de hesitação, tomou coragem e observou:

— Mas, doutor...

— Ora, Lobo! já vem você...

— Mas, doutor, a língua é uma coisa sagrada. O culto da língua é um pouco o culto da pátria. Então o senhor quer que o seu jornal contribua para corrupção deste lindo idioma de Barros e Vieira.

— Qual Barros, qual Vieira Isto é brasileiro — coisa muito diversa!

— Brasileiro, doutor! falou mansamente o gramático. Isto que se fala aqui não é língua, não é nada: é um vazadouro de imundícies. Se Frei Luís de Sousa ressuscitasse, não reconheceria a sua bela língua nesse amálgama, nessa mistura diabólica de galicismos, africanismos, indianismos, anglicismos, cacofonias, cacotecnias, hiatos, colisões... Um inferno! Ah, doutor! Não se esqueça disto: os romanos desapareceram, mas a sua língua ainda é estudada...

Loberant não ficou abalado com a exortação do gramático. Manteve a ordem que lhe parecia necessária para o aumento de alguns mileiros na venda de sua folha. Conquanto afetasse esse desprezo pela literatura, ele não deixava de ter pretensões a intelectual. Com a prosperidade do jornal, a sua pretensão aumentava. Julgava-se um Patrocínio, um Ferreira de Araújo, um Bocaiúva; embora não escrevesse com destaque, ele ia buscar o seu parentesco espiritual em Rochefort, Luís Veuillot e outros nomes de jornalistas estrangeiros de que tinha informações.

(continua...)

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