Por Lima Barreto (1922)
Houve um até — uma espécie do nosso Fagundes Varela — que é ainda lá muito célebre, recitador nas salas, e cujas obras têm tido muitas edições que viveu anos inteiros em peregrinações de "ampliúda" para "ampliúda", sem saber o que era uma moeda, por mais insignificante que fosse de valor, comendo, bebendo, fumando, sem que nada lhe faltasse, a não ser dinheiro de que ele mesmo não sentia nenhuma necessidade. Tinha tudo...
Recentemente, na Bruzundanga, uma revolução social e, logo em seguida, uma política, deslocaram essa boa gente da fortuna, e muitos deles, até, dos seus domínios, que vieram a cair nas mãos de aventureiros recentemente chegados à terra ou, quando nascidos nela, eram de primeira geração, descendendo diretamente de imigrantes recentes cujo único pensamento era fazer fortuna do pé para a mão, cheios de uma avidez monetária e inescrupulosa que transmitiram decuplicada aos filhos, e logo os lindos costumes de antiga nobreza agrária se perderam. Os poetas foram postos à margem e não tiveram mais nem consideração nem desprezo. Era como se não existissem, como se fosse possível isso, seja em sociedade humana, fora de qualquer grau de civilização que ela esteja.
Aos poucos, porém, os parvenus viram bem que era preciso pôr um pouco de beleza e de sonho nas suas existências de mascates broncos e ferozes saqueadores legais. Deram em pagar sonetos que festejassem o nascimento dos filhos e elegias que lhes dessem lenitivo por ocasião da morte dos pais. Pagavam bem e pontualmente, como hoje se pagam as missas de sétimo dia aos sacerdotes que oficiam nelas, ou em outras cerimônias menos tristes.
Alguns, porém, quiseram mais ainda e, tendo notícias que os nobres feudais, de espada e cavalo de batalha encouraçado e intrépido, tinham os seus vates e trovadores, nos seus castelos e manoirs, pensaram em tê-los também, pagando-os a bom preço, a fim de que contribuíssem com as suas "palavras douradas" para o brilho de suas festas.
Um desses milionários, caprichoso e voluntarioso, quis ir mais longe ainda. Tendo construído nos fundos de sua chácara, situada em um pitoresco arrabalde da capital da República da Bruzundanga, um tanque imenso, para dar banho aos cavalos de raça das suas opulentas cavalariças, teimou que havia de inaugurá-los soberbamente, com notícias nos jornais, bênçãos religiosas e um discurso feito pelo maior literato de Bruzundanga, ou tido como tal, enfim, pelo mais famoso.
Não posso garantir que o Creso tivesse pago ao celebérrimo poeta ou que este lhe devesse algum dinheiro; mas o certo é que, desprezando a dignidade de sua Arte e a Glória, a reputação literária mais absorvente e mais tirânica da Bruzundanga, pescou latim, grego, a cabala judaica, o Ramâiana, os Evangelhos e inaugurou com um discurso assim pomposo, e grandiloqüente, no estilo hugeano, o banheiro dos ginetes do multimilionário Har-al-Nhardo Ben Khénly. O altitudo!
O Parafuso, São Paulo, 12-3-1919.
A arte
O país da Bruzundanga, hoje República dos Estados Unidos da Bruzundanga, antigamente império, tem-se na conta de civilizado e, para isso, entre outras coisas, possui escolas para o ensino de belas-artes.
Naturalmente dessas escolas saem competências em pintura, escultura, gravura e arquitetura que devem ter mais ou menos talento; entretanto, ninguém lhes dá importância, seja qual for o seu mérito.
Se não conseguem lugares de professores, mesmo de desenho linear, nenhum favor público ou particular recebem da sua nação e do seu povo.
Houve um até, pintor de mérito, que se fez fabricante de tabuletas para poder viver; os mais, quando perdida a força de entusiasmo da mocidade, se entregam a narcóticos, especialmente a uma espécie da nossa cachaça, chamada lá sodka, para esquecer os sonhos de arte e glória dos seus primeiros anos.
Dá-se o mesmo com os poetas, principalmente os pouco audazes, aos quais os jornais nem notícia dão dos livros.
Conheci um dos maiores, de mais encanto, de mais vibração, de mais estranheza, que, apesar de ter publicado mais de dez volumes, morreu abandonado num subúrbio da capital da Bruzundanga, bebendo sodka com tristes e humildes pessoas que nada entendiam de poesia; mas o amavam.
A gente solene da Bruzundanga dizia dele o seguinte: "E um javanês (equivalente ao nosso "mulato" aqui) e não sabe sânscrito".
Essa gente sublime daquele país é quase sempre mais ou menos javanesa e, quase nunca, sabe sânscrito.
Todo estímulo se vai e uma arte própria lá não se cria por falta de correspondência entre o herói artístico e a sua sociedade.
Não é que ela não tenha necessidade dessa atividade do espírito humano, tanto assim que os jornais da Bruzundanga vêm pejados de notícias, encômios, ditirambos às mediocridades mais ou menos louras do que as de lá.
Tenho aqui adiante dos olhos um jornal da Bruzundanga que trata de um poeta da Austrália, cujos melhores versos são como estes:
Fui lá em cima ver meu Deus;
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16833 . Acesso em: 8 maio 2026.