Por Lima Barreto (1911)
Os jornais e o povo debochavam o Congresso, faziam-lhe as mais acerbas críticas e cobriam os deputados de epítetos os mais desprezíveis. Não se entendia o povo! Dizia isso, proclamava a inutilidade do Parlamento, desmoralizava-o; entretanto, queria que resistisse aos assaltos, às ameaças do poder. Estariam os deputados muito avisados, se lhe seguissem os conselhos. Seriam tocados da Câmara, expulsos, e então não valeria mais nada o Congresso. A vista entrou; era Mme. Forfaible. Edgarda acompanhava a generala e conversavam garrulamente. Numa teve pressentimento que ela vinha interessar-se pelo projeto das desacumulações. Que diabo! Não sabia como votar!... O governo, uma hora fazia questão, outra diziam à socapa que vetaria... Temia incompatibilizar-se e ficar incompatível, tanto mais que Bentes parecia ser contra. Tinha mesmo dito: “Eu sou pelas desacumulações bem entendidas”.
A senhora entrou e toda a sala animou-se com a sua presença.
— Doutor, bom dia! Já sabe da última novidade? O Comensoro casa-se com a copeira da pensão. Esse Comensoro, Edgarda, é muito engraçado. Você sabe como foi o casamento dele? Vou contar. Ele pinta os bigodes. Outro dia, não tendo tempo de pintá-los completamente, saiu com a metade do bigode branco. Na sala, ao tomar a escada, alguém disse: Coronel, o senhor está com o bigode sujo; A menina, a noiva, a copeira...
— Não era copeira, Anita — disse Edgarda.
— Enfim, a noiva observou por aí: Não é verdade dizer que a metade do bigode do coronel está suja; o que ela está é limpa.
— Por isso casou-se? — perguntou Numa.
— Por isso. Vai comer bons quitutes, certamente.
— Como você sabe disto, Anita?
— Eu não sou muito própria para saber, mas certamente Comensoro não será também. Está tão velho...
— Nem tanto — disse Numa.
— No almanaque; a igreja talvez não seja da mesma opinião... Doutor, outra coisa: preciso do seu voto para serem rejeitadas as tais desacumulações. Manoel não pode viver sem os vencimentos de professor...
— Minha senhora...
— Olhe, Doutor, nós ficamos inimigos...
— O povo...
— Que tem o senhor com o povo? O povo não vale nada... Não vê como ele não quer Bentes, como se pudesse ter opinião dessas coisas. Não acha, Edgarda?
— Olha, Anita, eu não sei bem se ele pode ter ou não.
— Você é socialista. Não sei como você, filha de senador e mulher de deputado, pode ter idéias tão estrambóticas. Então, Doutor, como vota?
— Minha senhora...
— Seja franco: como vota?
— Depende.
— Edgarda, como vai votar o marido de você?
— Isso é lá com ele; não tenho nada com isso.
— Pois olhe, minha filha, não é o que dizem por aí.
Numa e Edgarda entreolharam-se, e Mme. Foirfable insistiu:
— Quero uma resposta, Doutor.
— Minha senhora, voto com o líder.
— Está bem. Você sabe, Edgarda, vim só com o café...
— Você quer almoçar comigo?
— Não. Falar em almoçar... Você sabe quem me convidou a jantar com ele há dias, em “tête-a-tête”?
— Quem?
— O Albuquerque. Não conhece, Doutor? O poeta Albuquerque...
— Conheço. Recita muito bem.
— Ele convidou e você aceitou? — perguntou Edgarda.
— Quase! Albuquerque está fazendo um poema... Você não gosta dos versos dele?
— Não são maus. Por que você não jantou com ele?
— Que diriam?
— Ah! — fez Numa vitoriosamente. — Aí, a senhora respeita a opinião...
— Sim, mas para fazer um presidente da República, precisa-se saber a opinião do carniceiro, do padeiro, do vendedor de jornais, do tripeiro? Ora!
Numa, nessa questão de acumulações, sabedor como era grande o número de pessoas a que ela interessava, tinha procurado sondar a opinião de muita gente. Em Fuas, não pudera descobrir estrela que o guiasse. As suas opiniões, tanto por escrito, como pronunciadas, eram cheias de duplicidade, de evasivas, de restrições. Todas elas admitiam que o cidadão tivesse dois ou mais empregos quando fossem de natureza técnica, quando não houvesse capacidades senão em um indivíduo para preenchê-los. Fazer tais restrições era continuar a manter as acumulações. Por que, então, querer a solenidade de uma lei especial? Fuas, que era ladino, podia bem orientá-lo; Numa, porém, não gostava da sua intimidade. Ele o tratava com uma condescendência superior, como se fosse Fuas o legislador, o deputado. Se bem que precisasse dele, essa atitude do jornalista feria-o e tirava-lhe a acuidade nas perguntas, as lábias para surpreender-lhe a opinião. Na verdade, Fuas pouco se incomodava com a questão; os seus interesses se haviam voltado para Bogoloff.
É caso que o diretor da Pecuária Nacional logo que tomou posse do seu lugar, procurou Xandu, com quem teve uma conferência, na qual mostrou a necessidade de dar começo às experiências dos seus processos de fazer um boi quatro e fabricar carneiros que fossem ao mesmo tempo cabritos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.