Por Coelho Neto (1906)
Soaram passos no corredor e Ritinha, afastando a cortina, passou o braço roliço oferecendo a xícara de café. O estudante, não lhe podendo ver o rosto, perguntou:
— Está com vergonha de mim?
— Uê... Vergonha? Vergonha por quê? Eu, não! — Então por que não aparece?
Um risinho infantil foi a resposta, logo depois, o rosto risonho da mulata mostrou-se, com os olhos muito pretos e vivos, a boca vermelha e úmida entreaberta descobrindo os dentinhos brancos que reluziam.
— Quem é bonita assim não se esconde.
— Bonita! Eu?! coitada de mim! Quem perdeu boniteza para eu achar?
Paulo tomou a xícara e pôs-se a chuchurrear o café lentamente, sorrindo para a mulata que se bambaleava dengosa.
— Mamede foi muito longe?
— Ao Engenho Novo.
— Nossa Senhora! Fazer o quê?
— A negócio...
— Negócio...! — e esticou o lábio carnudo, mordendo-o depois, com um sorvo, d'olhos faceiramente revirados. Por fim, derreando a cabeça, num quebranto, esticou o braço para receber a xícara. O rapaz fitou-a abrasado. — Que é que está me olhando? Deixe ver a xícara.
Paulo ardia em volúpia. Adiantou um passo, ainda indeciso, hesitante, com medo. Ela baixou os olhos fingindo-se distraída. De repente, como se o houvessem impelido, achou-se no corredor, face a face com a rapariga. Ela encolheu-se, colada à parede, os braços cruzados como a defender o colo; estava em mangas de camisa, com uma saia de ramagens.
— Que é isto? O senhor está doido!? — exclamou arrepiada, retraindo-se.
Paulo ficou a contemplá-la, sem uma palavra, trêmulo, farejando o cheiro sensual que se desprendia daquela carne de mestiça, viçosa e árdega. Adiantou-se com a humildade de um vencido, balbuciando tremulamente:
— Ritinha.
— Que é? fez ela, toda lânguida, d'olhos úmidos, inclinando a cabeça sobre o ombro nu, reluzente.
Ele estendeu a mão, ela curvou-se, arisca, encolhida:
— Olhe Mamede...! Não se fie. Ele, às vezes, diz que vai aqui, ali quando menos se espera, aparece.
Dobrou-se, agachou-se, fazendo-se pequenina, evitando as mãos que a procuravam.
— Não faça isso...
Coleava e ria, nervosa.
— Não brinque assim... Eu quebro a xícara.
De repente, muito séria, murmurou:
— Olhe que podem ver... Essa gente da estalagem é muito bisbilhoteira.
Paulo, porém, insistia e a mulata, a torcer-se com as cócegas, às gargalhadas nervosas, amolecia.
— Fique quieto... Fique quieto...
A xícara rolou tinindo. Fora, o canário cantava estridulamente e estalava a roupa que as lavadeiras batiam.
Mamede, logo ao entrar, alagado em suor, atirando o chapéu para cima da mesa, irrompeu contra o velho: "Que era um cigano, um unhas-de-fome, um malcriadão".
— Olhe, nhozinho, eu não fiz uma estralada naquela biboca por causa de vosmecê. A minha vontade foi mandar a testa nos queixos daquele sujo e varrer aquilo tudo a pé. Mas Deus é grande! Está agora cheio de empáfia, um porcaria que eu conheci pindaíba que nem tinha um casaco decente para vestir.
— Não mandou...?
— Qual nada! Disse que vai falar com a velha. E não imagina os desaforos que atirou em cima de vosmecê. E veio todo o mundo para a sala, e todo o mundo falou, uma porção de mulheres, uma corumbada de meter medo. A sua carta andou de mão em mão, e eu na porta, em pé, rachando debaixo do sol. Nem, por delicadeza, me mandaram entrar. Aquilo, nhozinho...! Eu nunca me enganei com aquele cabuloso. Qual! gente de muita conversa é assim mesmo, não vale nada. Vosmecê escreva: não vale nada. Quem quer dar não faz discurso.
Paulo baixou a cabeça, sucumbido, e ficou a retorcer nervosamente o buço enquanto o mulato, já em mangas de camisa, examinava garrafas. Ritinha apareceu:
— Ah! Mamede... que horas! E eu aqui sem almoçar.
— E eu? Quem sabe se você pensa que fui brincar? Pois tira o almoço.
Virou, de um trago, o codório e, passando a mão pelos duros bigodes, disse, pigarreando: Nhozinho também ainda não almoçou.
— Ainda não; mas não tenho fome.
— Não tem fome! — Desatou a rir. — Está amofinado. Ah! nhozínho, bem se vê que vosmecê está entrando agora no mundo. Isso é uma canalha! É uma canalha! Quanto mais rico, pior. Não ligue, faça como eu. Se eu me aborrecesse por causa dessas coisas... então...! Dinheiro? dinheiro é nada; tenha a gente saúde, o mais...
Ritinha, encostada ao umbral da porta, olhava distraidamente o céu, muito azul, quando Mamede falou:
— Ó dengues, tira esses troços duma vez que eu ainda tenho que fazer, e é quase meio-dia.
— Já vou, — disse ela, deixando escapar um suspiro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.