Por Coelho Neto (1890)
Na manhã seguinte, do escritório e oficinas de A Bomba, só havia cinzas e chumbo derretido; a mesma máquina estava desconjuntada e inútil. E Crebillon, quando chegou à sua tenda de trabalho, lançando os olhos pelas vigas carbonizadas, trepou ao balcão, que ainda fumegava e, heróico, sublime com a pêra relampejando, anunciou à multidão que A Bomba, como a Fênix da fábula, havia de renascer das cinzas. Efetivamente, três dias depois, explodia de novo o terrível jornal, saindo de um escritório, que o resistente panfletário guarnecera belicosamente como uma praça de guerra.
No artigo com que ressurgiu enumerou os apetrechos que armazenara. A lista enchia meia coluna larga e desentrelinhada, e continha de tudo, desde o montante pesado até o cartucho de dinamite; desde a lança até o cacetete e havia um pequeno canhão com que ele contava arrasar a cidade, se a farândola tornasse a ameaçá-lo no seu reduto.
— A polícia, que não podia permitir esse arsenal, porque o alarmando a população, ia provocando um êxodo, intimou-o a entregar as armas. Crebillon resistiu e a autoridade teve de invadir o escritório, onde apenas encontrou, fechado numa gaveta, um velho revólver e, resmungando a um canto, com o cachimbo nos beiços, um negro cambaio que era o virador do prelo. Crebillon sofreu um golpe rude quando soube que a polícia lhe havia varejado a casa antes que ele houvesse transportado para o escritório as velhas armas que adquirira.
A notícia do encontro do revólver e do preto velho foi ironicamente comentada pela imprensa conservadora e pelo povo e Crebillon, sem a lenda, sentiu-se desanimado para prosseguir na sua campanha regeneradora. Reunindo, então, a fortuna começou a percorrer os sertões do Brasil.
Subiu o Amazonas, penetrando, com a sua carabina e seis índios do Madeira, selvas nunca trilhadas pelo homem civilizado e descendo, ora por mar, ora em ubás, pelos rios largos, chegou ao Rio de Janeiro de onde seguiu para o Sul, atravessando a região fria e desabrigada do minuano.
Lá teve amores e lutas, abalou com uma senhora que lhe anelava o cavanhaque e tocava Schubert em cítara e perdeu-a no Paraguai, de febre. Ainda conserva o retrato e um dente dessa criatura formosa que se chamava Diana. Desgostoso, pensou em fazer-se monge, mas a idéia de raspar o viçoso e flamejante cavanhaque, que ele chama a sua "estalagmite", fez com que, em tempo, recuasse do claustro e começou a negociar em tudo. Foi a sua última loucura porque, em pouco tempo, ficou reduzido, sendo obrigado a viver de escritas comerciais, com uma miserável retribuição que não lhe dava para ostentações, obrigando-o a andar retraído, equilibrando a despesa, sem amores, sem aventuras, sem carabinas, sem cães.
É um sonhador. Estou certo de que, se tivesse alguma coisa, não se limitaria a trazer o que inventariou no seu programa, mas muito mais. Infelizmente, porém, está esgotado, sem vintém. Passa fome conosco, mas sempre a arrotar grandezas.
Pensam vocês que esse Fontainha existe? Puro sonho. Nunca houve na Bocaina onça cotó nem porcos do mato, mas para que o havemos de vexar com o sarcasmo da nossa incredulidade? É o prazer do pobre homem contar aventuras terríveis: que matou, que esfolou, que fez e aconteceu... Conta com graça, que mal nos pode vir disso? Bem sei que nos transtornou a vida, mas não me revolto, lastimo-o. Mais do que nós vai ele sofrer. É um tropical influenciado vivamente pelo sol, homem de miragens, visionário — acompanharia D. Quixote de bom grado, suportando penúrias e tormentos com mais entono heróico do que o próprio cavaleiro andante.
É preciso aceitá-lo tal qual ele é. Eu, que o conheço, quero que vocês o tratem com acatamento. Agora, por exemplo, ele está como um enfermo, sofre porque começa a entrar no real, vê que não pode cumprir a sua palavra e espantase de a haver dado e intimamente está, talvez, perguntando a si mesmo: "Mas como fui eu prometer a estes rapazes mobília e manutenção se estou a tinir?" E sabem lá vocês o sofrimento que isto é? Nada ganhamos com mau humor. Temos de sair, saiamos em paz e alegres para que o pobre Crebillon não sofra.
— E não tenho queixa dele, disse o Toledo.
— Nem eu, ajuntou Anselmo.
— É um cerebrino, que culpa tem, coitado? Diz que vai amanhã aos porcos na Bocaina... Com certeza não tem no bolso um tostão para ir à cidade. Conheçoo... Acendeu um cigarro e, só então, deu pela demora de João de Deus. E João de Deus que não vem!
Da sombra partiu, muito lenta, a voz enfraquecida do negro.
— Estou aqui.
— O rapaz, andas misterioso. Então?
— O homem aluga por oitenta mil réis a sala da frente e um quarto grande. — E as condições?
O negro baixou os olhos e balbuciou:
— Não tem, não, senhor.
— Dinheiro adiantado ou carta de fiança?
— Não perguntei não, senhor. — Pois sim.
Anselmo, que não tirava os olhos do negro, vendo que ele palpava a testa e apertava-a, perguntou:
— Estás sentindo alguma coisa, João?
— Eu? Vou amanhã para a Santa Casa, resmungou, retirando-se lentamente, com a mão à fronte.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.