Por Lima Barreto (1911)
— Não... Não... Um desordeiro... Não foi nada, D. Romana; isso acontece em toda a parte.
Esteve a velha ainda instantes de pé olhando o marido da neta sem dizer palavra, mas a interrogá-lo com os olhos. Numa evitava olhá-la e os encargos domésticos chamaram-na ao interior da casa.
Não se espantou o legislador com o caso, mas sentiu no ato dos populares um desaforo, uma insolência. Governo é governo; e se protegia o homem....
A mulher veio tomar café na sala em que o marido lia os jornais. Já sabia vagamente fato e inquiriu:
— Numa, que fuzilamento é esse que os jornais trazem?
— Um caso à toa... Um sujeito matou outro e o povo matou-o.
— Por quê?
— Por quê? Porque matou o outro.
Acabando de tomar o café, Edgarda correu os jornais e leu o fato. Não tinha, como o marido, prática desses atos de política e não sabia que esta exigia tanto. A sua impressão foi de desmoronamento. Tudo caía, a lei, a ordem, a autoridade; e na barbaridade dos entrechoques de paixões, a paixão irrefletida da multidão teria de dominar... Acertaria sempre? teria acertado? Por que aquele calaceiro saqueava em pleno Rio de Janeiro? Por quê?
Era a política, era Campelo a garantir-lhe a impunidade e, mais alto, os protetores de Campelo dando a este mão forte e prestígio... Se o Estado é uma coação organizada, essa coação cessava por abdicação do próprio Estado... Era o ruir de tudo... Onde nos levaria tudo isso?... A sua colaboração não seria criminosa?
Tinha direito perante a sua própria consciência de contribuir para semelhante ruína? Sentiu perfeitamente que este afrouxamento da lei e da autoridade tinha por fim recrutar dedicações aos ambiciosos antipáticos à opinião. A coação legal do Estado fizera-se, para uma mascarada eleitoral, ameaça de valentão... No afã de fingir que Bentes era desejado, os aparelhos de compressão governamental não tinham o cinismo de impô-lo à força de baionetas. Tergiversavam, simulavam uma escolha regular; era a homenagem que o vício prestava à virtude. Como a opinião não se revoltava? Tinha medo?... Parecia impossível, mas se não tivesse... Crime maior lhe pareceu a coação que se fazia à consciência da nação.
Com que direito? Em nome de quê? Não eram interesses secundários que se sobrepunham, com baionetas, garruchas, facas, à manifestação de vontade de um país inteiro? Não era um sindicato profissional que queria tirar de Bentes os lucros de seu monopólio? A maldição viria sobre ele e sobre ela também que, por simples vaidade, não falava claramente... Mas, se fizesse, que havia de ser, que adiantaria? Numa não voltaria deputado; ela não seria a esposa do eloqüente parlamentar; as outras não a olhariam com respeito e a sua fortuna não teria essa moldura; seria a fortuna vulgar, corriqueira, da mulher de um negociante qualquer.
— Esse caso vai ter eco na Câmara — disse ela.
— Penso também, A oposição vai aproveitá-lo e fazer um cavalo de batalha.
Não me meto na discussão.
— Não faça isso... É bom sempre dar uns apartes... Naturalmente vão censurar a polícia.
— Qual polícia! Você não reparou que o homem é protegido do Campelo! Vão censurar a todos nós, atacar-nos.
— Os comentários de Fuas encaminham um pouco a opinião que você deve ter. Você leu?
— Li e já sei dos casos que tem havido em outros governos.
— Os oposicionistas podem achar certas diferenças.
— Quais são?
— É que o de hoje vivia a extorquir dinheiro à mão armada, desde que o “Velho” deixou o governo, com ciência e aviso à própria polícia que não tomou providências. Você não acha?
— Que tem isso?
— Você sabe bem... Você não está na Câmara? A polícia não tomou providências porque vocês....
— Nós? Eu, não.
— O partido de vocês...
— Campelo.
— Sim, Campelo o acoitava.
A mulher retirou-se e Numa um instante considerou a gravidade dos fatos. A abdicação deles, os políticos, tinha afrouxado senão cortado todos os laços sociais. Ficou surpreendido por ter verificado isso, ele que, em Catimbao julgava de somenos essas coisas de assassinatos...
Na sala em que estava, ouviram longinquamente os ruídos das ruas. os zumbidos dos elétricos, o buzinar dos automóveis, o pegão dos mercadores, mas, assim mesmo, sentia a palpitação do Rio de Janeiro, capital do Brasil, cheia de comodidades, mas de oposição e de crítica.
Embora no lugar em que estava não visse o portão, Numa teve idéia de que ele fora aberto. Devia ser uma visita. No começo eram raras; mas, ultimamente, se multiplicaram. Não havia projeto em que o seu voto não fosse solicitado por uma meia dúzia de empenhos. Muita vezes, os pedidos eram contrários à sua disciplina partidária, e negando-se a atendê-los criava antipatias. Como queriam que fossem independentes? De um lado, o partido, e de outro, os interessados? Como havia de ser? Para não errar, para a sua segurança, votava sempre com o partido.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.