Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

— Ora, Felícia... deixa-me. Não sei onde é que tens o juízo. Se eu soubesse que era para isso...

— Vosmecê está aborrecida?

— Ah! não... não hei de estar. Cansar-me para ver patacoadas.

— Vosmecê não esperou.

— Não esperei... Esperar o quê? — Parou na sombra e, baixinho, em tom severo: Olha, eu creio em Deus, creio no seu poder e na sua misericórdia... Ninguém é mais crente do que eu, mas não posso admitir essas coisas. E por essas e outras que anda, por aí, tanta gente maluca. Vamo-nos embora.

— Minh'ama está zangada comigo?

— Não, não estou zangada contigo, tu crês. Eu é que aqui não ponho mais os pés.

— Por que, minh'ama?

— Eu?! Isto até devia ser proibido. É porque a polícia não sabe.

— Não fale assim, minh'ama.

Ela insistiu:

— Devia sim, devia ser proibido. Olha, se eu tiver de encontrar Violante, hei de encontrá-la. Há de ser o que Deus quiser. Ela há de lembrar-se de mim, porque tem coração, mas aqui?! aqui...! nunca mais!

— Se vosmecê tivesse fé...

— Qual fé! Olha, eu te digo: pensei que saísse daqui impressionada, e saio só com pena daquela pobre mocinha. É mais uma que estão preparando para o hospício.

— Ah! minh'ama... Vosmecê também...

— Tu hás de ver. Queira Deus que eu me engane.

— Então vosmecê pensa que é ela só? — Não sei, mas essa não acaba bem.

Desciam vagarosamente a Rua da Carioca quando um grande vento passou levantando a poeira. Detiveram-se, de cabeça baixa, coladas à parede, com as saias espadanando. A lua mostrou a lívida face num círculo de grossas nuvens negras, como no fundo de um poço e, aqui, ali, no vasto céu tenebroso, estrelas faiscavam.

— Felizmente não chove, — disse Dona Júlia.

— Só lá para o meio da noite, — augurou a negra, enrolando a trunfa que se desfizera.

CAPÍTULO XI

Eram nove horas da manhã quando Dona Júlia foi bater à porta do quarto do filho, chamando-o. Paulo levantou-se de mau humor.

— Que é, mamãe?

— Está aí o cobrador da casa.

— Que história! Diga-lhe que eu vou levar o dinheiro, que ainda não recebi.

— Por que não falas tu mesmo? Eu tenho tanta vergonha...

— Vergonha de quê? Também a senhora tem vergonha de tudo. Que espere um pouco. Eu não hei de inventar dinheiro.

— E a jóia? — perguntou ela baixinho.

Paulo resmungou:

— Ontem não foi possível, tive muito que fazer. Vou hoje.

A velha afastou-se e Paulo, deitando-se de novo, a fumar, recapitulou o desastre da véspera: quase todo o dinheiro perdido ao jogo, num só número, o 28. Como sair daquele aperto? A quem recorrer? Não lhe lembrava o nome de um amigo, de um conhecido. Como derradeira e única esperança ocorreu-lhe o do velho Fábio. Não tinha coragem de o procurar. Se lhe escrevesse? Mamede levaria a carta. Com tal idéia voltou-lhe a calma, serenou como se já houvesse recebido a quantia e, assobiando, saltou da cama, sentou-se à mesa e pôs-se a redigir uma carta aflita referindo-se, com grandes queixas, à Violante "única culpada daqueles embaraços em que se viam".

O pedido era de duzentos mil-réis e, acrescentava, mentindo, que: "tendo conseguido um emprego vantajoso, no mês próximo saldaria o débito, ficando eterna a gratidão". Animado, vestiu-se, fechou a carta na gaveta e passou à sala de jantar. Dona Júlia, sentada à mesa, cerzia uns pares de meias e, quando o viu aparecer, disse-lhe lentamente, sem levantar os olhos:

— Olha, Paulo, vai ver esse dinheiro. O homem ficou aborrecido. — Aborrecido, por quê? Não dei fiador? Que espere!

Foi ao banho e, tomando apenas uma xícara de café, vestiu-se saindo para a estalagem. Mamede recebeu-o sorrindo e, como ele lhe falasse da carta, pôs-se imediatamente à sua disposição.

— Vosmecê quer esperar a resposta aqui ou na cidade?

— Como quiseres.

— Aqui é melhor.

— Pois sim.

— Eu vou num pulo. — Vestiu-se às pressas e pronto, com um bengalão debaixo do braço, despediu-se, dizendo, a rir: Eu sei que vamos ter cena; aquilo é agarrado que nem ostra, mas manda, para vosmecê ele manda, afirmou convencido, a enrolar um cigarro. Então até já, nhozinho. — Até já, Mamede.

Deixou-se ficar a um canto, e, vendo um velho almanaque em cima da mesa, tomou-o, pôs-se a folhear as páginas amarelecidas e rotas, procurando anedotas. As lavadeiras, em zaragalhada, chalravam, cantavam, batiam a roupa, ao sol; pequenos, em fraldas de camisa, empinavam papagaios. Na casa contígua uma máquina de costura estrepitava e a voz rouca de um homem cantarolava amores. Ritinha, que não aparecera, pouco depois do mulato haver saído, perguntou do fundo da casa:

— Quer uma xícara de café?

Paulo estremeceu ao ouvir-lhe a voz e, sorrindo, respondeu vagaroso:

— Não sou pobre soberbo.

E, entre os dois, com a cortina de permeio, travou-se um curto diálogo.

— É o senhor que fugiu daqui?

— Não...

— Por que não tem aparecido?

— Trabalhos.

— Faço idéia!

— Palavra. Estou com os estudos.

— Então não pode tirar uma hora, ao menos, para ver a gente?

— Vontade não me falta.

E, folheando distraidamente o almanaque, sorria.

— Gosta com muito açúcar? — Não muito.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4546474849...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →