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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Sim, sim, isso agora é a desculpa. Têm razão, são rapazes, é natural que amem.

— E que almocemos, pelo menos.

— Pois sim. Então no charuteiro?

— Sim, no charuteiro.

— Mas vocês hão de arrepender-se. Banheiro e fogão como os desta casa vocês não encontram nesta cidade.

— Quanto ao banheiro posso emitir o meu juízo: acho-o excelente. Sobre o fogão nada adianto: não lhe conheço os préstimos.

— Pois é uma peça sem rival.

— Pode ser, mas prefiro um simples fogareiro de espírito, desde que tenha na trempe uma frigideira a rechinar. Bem, adeus. Boa viagem.

— Obrigado. No charuteiro, heim? — Sim, no charuteiro.

Tornando à sala, enfurecido, Ruy Vaz comunicou aos companheiros a resolução inabalável do presidente:

— Pois que vá aos porcos e ao diabo! — rugiu Anselmo, eu é que aqui não fico mais um dia.

— Nem eu! — disse o Toledo. Estou magro, tenho sofrido muito. Vou para a casa de meu primo. Ele tem insistido comigo para que ocupe um chalezinho do jardim. Tenho relutado, porque não gosto de dever favores, mas também com a vida que levo, dentro em pouco estou tísico. Não vale a pena.

— Pois. eu amanhã, bem cedo, vou ver o cômodo que há ao lado, na casa dos alemães, disse Anselmo.

— Há algum cômodo? — perguntou Ruy Vaz.

— A sala da frente e um quarto.

— Toma-se. E o preço?

— Não sei.

— Vamos mandar João de Deus indagar?

— Sim, vamos. Se servir-nos podemos fazer a mudança amanhã mesmo.

— Serve com certeza. João de Deus! Ó João de Deus!

João de Deus, que andava melancólico, sempre encolhido pelos cantos, a alisar o lombo do gato que era a única criatura que, naquele imenso palácio, vivia regaladamente, engordando, porque não lhe faltavam ratos, não em casa, dali haviam eles desertado, cansados de esperar que se enchesse a despensa, como dantes, nos dias prósperos do titular, mas na vizinhança, apareceu lento e mole e, sem anunciar-se, ficou à espera na porta, mudo e cabisbaixo, retorcendo o boné lustroso. Ruy Vaz ia de novo bradar por ele, quando o viu naquela atitude desconsolada de mártir, com os olhos no soalho.

— João, vai aqui ao lado e pergunta ao homem em que condições aluga os aposentos que tem.

O negro saiu silenciosamente e os rapazes, que a cólera alucinava, atiravam-se a Crebillon atribuindo-lhe todos aqueles dias de miséria negra e vazios, porque nem trabalhar podiam, com idéia de que teriam conforto e abastança, esperando, a todo o instante, a chegada dos móveis e dos víveres, sem que nada viesse, obrigando-os a trazerem a casa modestamente fechada para que os vizinhos não vissem a nudez vergonhosa dos salões, que já começavam a tressuar umidade.

Ruy Vaz, que não desestimava o presidente, conhecendo-o do Norte, defendeu-o, aceitando parte da responsabilidade:

— Eu devia prever tudo quanto se tem dado porque conheço Crebillon. É um sonhador, meus amigos: tem a alma de D. Quixote. No Norte a sua fama é grande, todos lhe conhecem a história, que tem lances heróicos, porque esse visionário possui um coração excelente. Foi rico, herdou terras pingues de cereal e pasto. Com elas recebeu escravos, mas não querendo desmentir a tradição de humanitário, que o seu procedimento anterior havia criado, porque, antes que aqui surgissem abolicionistas, já Crebillon andava em jangadas desviando negros para o Ceará e escrevia nos jornais contra os "senhores", que o tinham como demagogo e várias vezes assalariaram capangas, que ele teve de repelir a tiro e à faca, libertou todos os negros certo de que, depois de tão espontânea generosidade, eles não o abandonariam.

Enganou-se. Em menos de um mês, não tinha em casa uma crioula que lhe fizesse o jantar, sendo forçado a tomar camaradas para que as terras não fossem invadidas pelo mato daninho e os rebanhos não aberrassem à falta de pastor. Depois, com idéias de beneficiar as terras, vendeu todo o gado e comprou maquinismos complicados, que ficaram ganhando ferrugem ao tempo por não haver quem os montasse, porque o dinheiro era escasso.

Desesperado, então, vendeu o sítio com tudo que nele havia e, abotoandose com o dinheiro, desceu à capital, onde fez correr o anúncio de um jornal tremendo, que seria redigido por ele e por outros parciais das suas idéias, jornal republicano, abolicionista, anticlerical e nativista, com o retumbante título de A Bomba.

Vinte números estouraram escandalosamente na capital. Uma noite, porém, sujeitos armados e mascarados, justamente quando as páginas desciam para o prelo, invadiram as oficinas afugentando os poucos homens que nelas havia e, derramando petróleo, lançaram fogo a tudo.

(continua...)

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