Por Lima Barreto (1909)
Unicamente Gregoróvitch não fazia carga sobre a revisão. Para ele, tanto se lhe dava sair “nós fomos” como “nós foi”. Não tinha nenhum amor pelos escritos; eram como cutiladas, tanto fazia matar, ferindo no pescoço como rachando a cabeça meio a meio. O que ele queria era matar, ferir, golpear: a maneira pouco se lhe dava. E era uma felicidade para a revisão que ele pensasse assim. No jornal, só o russo tinha prestigio e iniciativa. Os outros curvavam-se servilmente ao diretor. O que não seria se o doutor em Exegese Bíblica tivesse os cuidados puristas do Oliveira, que reclamava um “propositalmente” por propositadamente! Toda a sua gramática estava aí. Ele conseguira saber que “propositalmente” não era aconselhado pelo Rui e aí do revisor que deixasse escapar um na sua seção! O próprio Loberant, tão ignorante como o Oliveira, péssimo escritor, tinha fúrias extraordinárias quando lhe trocavam uma palavra no luminoso artigo. Diariamente, mesmo quando não escrevia, corria o jornal de manhã, de principio ao fim, auxiliado pela mulher, para descobrir erros segundo a gramática do Lobo. Graças a leituras das “sorites” do esquálido gramático, Loberant julgava-se um purista; demais, ele sempre tivera culto pelo dicionário, pelo purismo. Era um gosto ver surgir nos seus artigos-descomposturas termos catados ao Morais e ao Domingos Vieira. E essa sua crença de purista e cultor da língua juntara-se, com o tempo, à de ser também um grande homem, um messias, um homem providencial. Com cuidado e atilamento, afastara do jornal toda e qualquer pessoa de mais talento que ele. Proprietário da folha, absorvera-a toda em si: os artigos, a criação das seções, as referências elogiosas, as “cavações”, tudo só se fazia com sua audiência e aprovação. Ele pairava sobre o jornal como um sátrapa que desconhecesse completamente qualquer espécie de lei, fosse jurídica, moral ou religiosa. Não havia regulamentos, praxes; o jornal era ele e a coerência de suas opiniões vinha dos impulsos desordenados de sua alma, que o despeito agitava em todos os sentidos. No curto prazo de uma semana, o seu jornal atacou, elogiou e qualificou herói o ministro da Guerra; e nenhum dos três artigos saiu da sua pena; foram escritos à sua ordem pelo Adelermo Caxias, que se gabava de honestidade intelectual. Na redação era assim: escrevia-se, mediante ordem do diretor, hoje contra e amanhã a favor. Floc, entretanto, gabava-se de ter autonomia nos seus artigos. Eram puramente literários, ou tinham esse propósito, e, à luz da inteligência de Loberant, era-lhe perfeitamente indiferente que o naturalismo fosse elogiado e o nefelibatismo detratado; que a Academia de Letras tivesse referências elogiosas ou recebesse epigramas acerados. Floc era contra a Academia, contra os novos, contra os poetas, contra os prosadores; só admitia, além dele, com a sua obra subjacente, que se poetassem e fizessem versos, certos rapazes de sua amizade, bem-nascidos, limpinhos e candidatos à diplomacia. Confundia arte, literatura, pensamento com distrações de salão; não lhes sentia o grande fundo natural, o que pode haver de grandioso na função da Arte. Para ele, arte era recitar versos nas salas, requestar atrizes e pintar umas aguarelas lambidas, falsamente melancólicas.
Na crítica, tinha-se na convicção de um fazedor de poetas, um consagrador de reputações; com aquele endosso da firma burlesca — Floc — o autor que lhe recebesse elogios, passava imediatamente para o Larousse . Ignorante, insciente, com uma leitura de pacotilha, não se animava a desenvolver qualquer teoria, a ter um ponto de vista qualquer; bordava umas banalidades — “uns deliciosos momentos de gozo estético deu-nos, etc.; a sua alma vibra e palpita, etc.”.
Ainda tenho nos meus papéis a noticia que ele deu de uma plaquette de verso do poeta Almeida Lopes. Começava assim portentosamente a noticia: “Eis aqui um caso singular, e que desnorteia os princípios geralmente admitidos em hereditariedade. O Senhor Almeida Lopes, filho de escritores, nasceu poeta e escritor”.
Não sabia Floc que, como grande número de sábios, o povo sentencia: “filho de peixe sabe nadar; quem sai aos seus não degenera”, etc., etc.
Certamente, ele possuía, sobre herança psicológica, noções muito mais elegantes, branquinhas e limpinhas que as admitidas geralmente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.