Por Lima Barreto (1911)
E logo o escriba da maravilhosa letra ficou convencido dos malefícios que a sua habilidade representava e seguiu o “caid” que lhe dava tâmaras e mel de quando em quando.
O escriba Hué-Tep, que só fora estimado pelo seu saber e pela sua linda letra, começou a aconselhar a quebra dos monumentos e a queima das bibliotecas; e foi por isso, dizem os Fellahs, que o Egito ficou estéril.
— Eu sei Doutor. Eu sei.... Mas esse saber aí não é saber que valha.
— Mas qual é o teu saber, Inácio?
— É a ciência positiva... Não admito essa jurisprudência, esse Direito.
— Por quê?
— Porque não é positivo.
— Quem diz que o teu é?
— Doutor, o senhor é um metafísico... Não de pode conversar com o senhor. Nós precisamos, Doutor, de aperfeiçoamento moral; e devemos ter por principal escopo a incorporação do proletariado à sociedade moderna.
Quase sempre Benevenuto, depois do jantar, vinha àquele Café espairecer e conversar com um e outro conhecido. Não tinha companheiro certo, mas era raro que encontrasse Inácio Costa. As noites, raramente este saía de casa; mas, por aquela época de grande atividade política, ele as aproveitava para ir a esta ou àquela casa de pessoa influente, principalmente à de Bentes, que vivia cheia. De resto, quando o não fazia, corria os cafés, as redações dos jornais, buscando novidades, num temor constante que Bentes se evaporasse de uma hora para outra.
O primo de Edgarda encontrara ali Inácio e estavam a conversar amigavelmente, quando Lucrécio aproximou-se da mesa e, e pé, apoiado ao guardachuva, disse sem mais cumprimentos:
— Sabe... com licença, Doutor... mataram o Zeca Boneco.
A Benevenuto pareceu que se tratava de alguma relação de Inácio, mas este indagou com indiferença.
— Quem é?
Lucrécio tinha nas faces o temor estampado e, de vez em quando, olhava os lados cautelosamente.
— Um rapaz... Um rapaz dos nossos... amigo do Totonho.
— Quem foi? — O povo!
Barba-de-Bode pronunciou esta palavra e respirou aliviado; Benevenuto levantou-se e foi passar o resto da tarde em lugar menos povoado de novidades políticas.
Lucrécio sentou-se e contou os pormenores da execução popular. Zeca era antigo aprendiz de marceneiro. Alistara-se no bando de Totonho, fizera diversas desordens e mesmo mortes. Tinha andado sossegado um pouco, devido à polícia; ultimamente, porém, voltara mais terrível. Extorquia dinheiro a todos do bairro, de revólver em punho, especialmente dos negociantes, gostando também de fazê-lo alta noite aos jogadores felizes. As queixas eram muitas, a polícia o prendia, mas sempre o Dr. Campelo ou Totonho soltavam-no. Naquela noite, no largo do Machado, intimara um cocheiro de carro a dar-lhe algum dinheiro. O “Capote”, tal era o apelido do cocheiro, não acedera e Zeca matara-o a facadas. Perseguido pelos colegas do morto, outros populares se vieram a juntar e, quase em frente ao palácio do Catete, fora morto a tiros de revólver.
— E a polícia? — perguntou Inácio. — A polícia não pode nada.
Inácio não viu bem como legava esse acontecimento ao destino da candidatura de Bentes. Pareceu-lhe ver naquela atitude dos populares, alguma coisa de mais efetivo na manifestação de sua opinião; e notem que Lucrécio estava amedrontado, assustado, como se o povo estivesse a gritar sempre: Mata! Mata! Lincha!
A notícia desse fato teve uma pungente repercussão na cidade. As proezas do assassinado, arroladas pela polícia e não punidas, que os jornais publicaram, deram aos habitantes a idéia de que estavam à mercê do mais audaz. Mesmo a frouxidão das autoridades em apurar tão grave fato indicava que se julgavam felizes por se verem livres do pesadelo que o desordeiro representava; e, se assim era, se não tinham procedido contra ele na forma da lei, denunciava que estavam coagidos, manietados, deixando a fortuna, a honra, a segurança de cada um entregues à sanha dos desalmados de que a polícia precisava para aterrar, asfixiar a opinião e as consciências.
Numa, na manhã seguinte, conforme o seu hábito, depois de ter tomado café, propôs-se a ler os jornais. Com os acontecimentos, a sua leitura era mais descansada e curiosa, estendendo-se a jornais de todos os matizes e feições.
Os periódicos efêmeros, as revistas comentárias, ele os lia ou fazia a mulher lê-los, cauteloso como andava em perscrutar a marcha dos fatos, em precaver-se contra as intrigas, em descobrir de que forma os seus colegas, no entusiasmo pela candidatura do general, enxergavam a sua situação política.
Amanhecera chovendo, um chuvisco fino e intermitente. O dia era indeciso.
As árvores tinham um verde contente e as montanhas estavam encobertas. A velho D. Romana, que raramente se interessava pelos acontecimentos, veio perguntar a Numa:
— Doutor, estão matando gente na rua?
Ficou entre os umbrais da porta. Como que a velha tinha medo de avançar e perguntava com toda a sua forte e boa velhice:
— Doutor, estão matando gente na rua?
Numa descansou a folha e respondeu com acanhamento àquela pergunta em que havia algo de censura maternal:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.