Por Coelho Neto (1906)
O mulato continuava a falar em tom soturno, repetindo versículos bíblicos. Súbito calou-se, retesando-se, com os braços rijamente fincados na cadeira, a respirar com esforço. O apóstolo acalmou-o, chamou-o e ele abriu os olhos, levantou-se estremunhado e foi caminhando para o seu lugar, ainda a tremer. Foi então chamada a mocinha.
Ao vê-la dirigir-se para a mesa, como uma vítima que seguisse para o suplício, abatida e pálida, Dona Júlia lastimou-a: "Coitadinha!" Devia ter a idade de Violante.
Que grande mágoa a arrastaria, tão moça, àquele mistério! Que consolação iria ela pedir, tão cedo, aos espíritos benfeitores? Não haveria na imensa alegria da terra bálsamos para os seus tormentos para que, tão criança, já se fosse refugiar no templo da Morte? Coitada!
Logo que se sentou, os crentes, que a conheciam e respeitavam, moveramse com interesse. Segredava-se, murmurava-se e o apóstolo pediu a todos que se concentrassem em oração a fim de que viesse em visita ao grêmio, por intermédio da irmã Clarinda, um espírito perfeito.
A mocinha, de mãos estendidas, abria e fechava os olhos — a sua respiração ralava e um convulsivo tremor sacudia-a aos arrancos. No silêncio atento e pávido da sala ouvia-se-lhe o ranger frenético dos dentes. Dobrou-se toda em arco.
Súbito, d'arranque, como se lhe houvesse passado por diante dos olhos uma visão horrível, ergueu-se hirta, com os braços duros e, de arremesso, rugindo, como em crise epilética, arrojou-se para trás caindo com a cadeira.
Homens e mulheres acudiram — levantaram-na rígida, os olhos
imensamente abertos, fitos e desvairados. O apóstolo, vendo-a naquele estado, pôsse a falar com brandura, tentando dominar o mau espírito que a possuía. Sentaramna. Parecia dormir, lívida, desfigurada, com o suor a escorrer-lhe ao longo das faces. — Como te chamas? interrogou o apóstolo.
— Não sei! rugiu abafadamente a inspirada.
— Queres guardar segredo; pois seja feita a tua vontade. Dize-nos ao menos, se na existência que deixaste foste homem ou mulher?
— Mulher!
— E conheceste a irmã em que te encarnaste?
A mocinha acenou afirmativamente com a cabeça, arfando.
— Tinhas com ela alguma ligação de parentesco?
— Não.
— De amizade?
— Sim.
— E por que a fazes sofrer tanto? — Ela não sofre.
No mesmo instante, porém, com outro arranco, rolou por terra escabujando e rugindo. O assombro tocara o auge em toda a saía — ninguém ousava aproximarse da infeliz vítima da possessão maligna. Foi o apóstolo quem se adiantou solícito, levantando-a carinhosamente e obrigando-a a sentar-se.
— Descansa... descansa um pouco. Há, talvez, aqui alguém cuja presença não te é agradável.
— Sim! — exclamou a mocinha, atirando um murro à mesa.
— Quem é?
— Não posso dizer.
— Por quê?
— Não posso! — regougou, debatendo-se.
— Adianta-nos, ao menos, alguma coisa. Quem assim te irrita está conosco, ainda encarnado, ou já subiu para a região pura dos espíritos?
— É um espírito.
— E paira sobre nós?
— Sim...
— Irmão Canedo, — disse o pregador com solenidade, — ponha-se em comunicação com o espírito que paira sobre nós para que possamos estabelecer a concórdia entre as duas almas irmãs.
O nomeado acercou-se da mesa, concentrou-se e entrou a falar com doçura: "Que não tinha ódios, que perdoava..." Mas à pergunta do apóstolo: "Se era homem ou mulher?..." e, à resposta do médium: "Que era mulher..." a mocinha ergueu-se e, espumando, de olhos muito abertos, declarou num grito: "Mentes!" Dona Júlia, profundamente emocionada, rompeu em pranto nervoso, baixando a cabeça sobre o colo. Lembrava-se de Violante. Que seria dela? Onde andaria? Aquele incidente abalou-a, não pelo sofrimento da vítima passiva, mas pelo destino da filha. Pobrezinha! Sem poder conter-se pôs-se de pé chamando a negra imperativamente:
— Vamos, Felícia.
A negra levantou os olhos — duas lágrimas rolaram.
— Agora não, minh'ama.
— Então, fica: eu vou só.
— Como é que minh'ama quer sair? Pois vosmecê não está vendo que ainda não acabou?
— Pois sim, mas eu não espero mais.
E, decidida, a pedir licença, foi-se esgueirando, apertadamente. Os crentes olhavam-na revoltados, murmurando. A negra, vendo-a sair, seguiu-a. O apóstolo foi-lhes ao encontro, muito afável. acompanhando-as ao corredor:
— Então já, minha senhora?
— Sim, senhor. Não posso demorar-me mais.
— A senhora vinha para uma consulta, devia ter experimentado. Mas volte amanhã, mais cedo. Eu faço uma sessão especial. — Sim, senhor.
Não levantava os olhos molhados, caminhando direito à porta. como para fugir. Felícia seguia-a contrariada, meneando com a cabeça.
— Vou invocar um espírito forte, e talvez lhe possa dizer alguma coisa amanhã. Não deixe de vir.
Estendeu-lhe a mão, todo zumbrido, a sorrir.
— Sim, senhor. Até amanhã. — Boa noite, minha senhora.
A grande sala da prece estava em penumbra e deserta. Felícia adiantou-se para guiar a viúva que procurava o corrimão da escada, quase em trevas.
— Devagarinho, minh'ama.
Desceram lentamente, caladas. Na rua, ao ar da noite fria, Dona Júlia respirou aliviada.
— Então, minh'ama.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.