Por Coelho Neto (1890)
— Deste estamos livres. E foi o esqueleto que o aterrou.
— Similia similibus curantur, disse o Toledo saindo do quarto para apanhar a ossada libertadora. E o dia passou-se todo em comentários alegres. Para a tarde, porém, com o roxo e melancólico crepúsculo e com a fome, a alegria foi-se dissipando e a casa tornou-se um palácio de suspiros.
Os dias corriam e Crebillon ia protelando a compra dos móveis até que, uma noite, recolhendo-se muito cedo e à pressa, anunciou nova viagem à Bocaina para dar cabo de uma corda de porcos que devastavam a roça de milho de Fontainha. Os rapazes revoltaram-se, o próprio Toledo, sempre brando, teve um assomo de energia. Onde iriam eles arranjar trezentos e cinqüenta mil réis, que em tanto importava o aluguel mensal do palacete? E Ruy Vaz falou por todos:
— Tem paciência, Crebillon, deixa lá os porcos, vamos cuidar de coisas mais sérias. Tu não hás de querer que soframos aqui um vexame. O fim do mês está aí e, além das muitas vergonhas que curtimos calados, queres ainda que sejamos expulsos desta casa, onde nos meteste seduzindo-nos com promessas de tranqüilidade e fausto? Eu já sou vítima de comentários vis aí pelas vendas.
— Tu?!
— Eu, sim. João de Deus que o diga.
— Mas que comentários? Por que a casa não tem mobília?
— Em parte, ou antes — é essa a razão porque, se tivéssemos mobília, não traríamos as janelas sempre fechadas como as trazemos. Mas queres saber? Como o Toledo sai quase sempre de manhã e só torna à noite, como tu, e eu sou o único que sai às duas da tarde, afrontando os olhos da vizinhança, porque Anselmo espera sempre a Providência em casa, sabes que dizem mim? Que sou um marido terrivelmente ciumento, que saio deixando minha mulher trancada. E o interessante é que descrevem essa criatura vítima do meu desmarcado zelo: loura, de olhos azuis, pálida, muito infeliz e, quando desço, ouço vozes rancorosas: "Lá vai ele!... Olha o carrasco!..." Tudo por quê? Porque não temos mobília e trazemos a casa constantemente fechada. A fama que essa falta de trastes me vai granjeando não é das mais agradáveis e ainda queres que nos sujeitemos as injurias de um senhorio? Tem paciência... Deixa os porcos do mato em paz e, se não podes mobiliar a casa, dize francamente porque há mesmo trato de arranjar um quarto e transfiro-me. Aqui não podemos ficar, num casarão, grande como uma cidade, com duas cadeiras, várias antigüidades e três canecas de folha.
— Eu já disse que trago os móveis.
— Há um mês que nos prometes e, até hoje, só nos tens as três canecas citadas.
— Mas querem vocês que eu roube? Hei de roubar? — clamou desesperado. Se eu agora não tenho dinheiro, como querem traga mobílias?
— Mas, então, por que nos iludiste, Crebillon?
— Ora! Eu tinha algum dinheiro, mas como não dava para despesa, empreguei-o em bilhetes de loteria. Saíram brancos. Ando infeliz, que queres? Ando infeliz. Eu tinha vontade de fazer alguma coisa, mas a sorte foi-me adversa, aí tens. — Ah! Querias arranjar móveis com a loteria?
— Então?
— Pois sim... E vais aos porcos?
— Vou. Não posso deixar Fontainha sozinho, com uma corda de caititus. Tu não sabes o que é uma corda de caititus.
— Não sei nem faço grande empenho em saber. Mas decidamos: onde queres que deixemos a chave da casa?
— Que casa?
— Desta.
— Pois vocês querem sair?
— Certamente. Amanhã mesmo.
— Por que?
— Porque o fim do mês está aí e nós não temos vintém.
— Mas eu tenho carta de fiança, homem de Deus.
— Embora, estamos decididos.
— Ah! Se estão decididos... Querem voltar para uma espelunca igual à da rua Formosa?
— Talvez, desde que nela possamos trabalhar.
— E não podem trabalhar aqui?
— Não.
— Que falta?
— Tudo.
— Tudo! Já sei... Decididamente vocês não nasceram para a ordem. Quem diz que em uma casa como esta não se pode trabalhar, meu amigo.
— Mas que temos nós aqui? Não podemos comer aqueles peixes, aquelas lebres e aquelas admiráveis frutas que estão, em pintura, na sala de jantar.
— Vocês não têm comida em casa porque não querem. Não têm o fogão? Não está aí o João de Deus?
— E o resto?
— Manda-se vir da venda. — Quem paga?
— Arranja-se um caderno.
— Sim, arranja-se um caderno... E depois?
— Depois? Deus é grande!
— Ah! Deus é grande. Pois, meu caro Crebillon, apesar da imensidade de Deus e de todo o conforto desta casa, se vais aos porcos da Bocaina.
— Vou, não posso abandonar um amigo como Fontainha.
— Pois então, quando voltares, procura a chave da casa no teu charuteiro.
— Pois sim, disse o abolicionista imperturbavelmente E vocês para onde vão?
— Havemos de achar um quarto.
— Um quarto para todos?
— Para os que quiserem.
— Pois eu vou aos porcos, é uma questão de amizade. Por outro não iria, mas tratando-se do Fontainha não hesito.
— Então estamos combinados, fica no charuteiro a chave.
— Sim, no charuteiro. E não te esqueças de deixar o teu endereço, porque, enfim, não nos apartamos brigados.
— Não.
— Eu já esperava esse movimento. Vocês não podem viver sem as raparigas e como eu exigi moralidade...
— Sim, muita moralidade. Guerra à carne, a de vaca inclusive.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.