Por Raul Pompéia (1881)
Diante da pintura, de costas para o artista, Amélia parou. Um estremecimento de surpresa, quase de susto, agitou-a toda. Era ela! era ela! Ali estava em busto, perfeita! Os belos olhos pensativos de corça, a cútis branca, o fino traço das sobrancelhas ligeiramente oblíquas, os longos cílios negros sedosos, o corte da boca meio arqueado para os cantos, num sorriso indefinível, o cabelo castanho, seco, transparente, penetrado de luz como uma nuvem, com uns tons de prata que brilhavam, rodeando-lhe as feições, sobre o fundo de azul espesso. Estremeceu de pudor, vendo, ali no pano, a verdade com que o pintor soerguera o começo de seios que o ângulo do decote traia; estavam ali veias em que ela mesmo ainda não fizera reparo. Sentia-se, ao vivo, na tela como num espelho, mais ao vivo ainda; porque um sinalzinho da face esquerda que o espelho mostrava à direita, ela o tinha aí, no lugar exato.
Para apreciar o efeito à distância afastando-se da tela, a moça, sem o ver, chegava-se para Armando. O artista sentiu o sangue subir-lhe às têmporas em vertigem. A posição, junto da janela até onde recuara não permitia livrar-se. Em pouco, Amélia veio tocá-lo com o ombro. Ao contato inesperado, a moça exalou um gritozinho de surpresa. Quis fugir. Armando a prendera.
Rodeava-os a profunda tranqüilidade da sesta. Mal se ouvia sibilar a respiração compassada da senhora do comendador, além do pano de veludo, no fundo da sala, dormindo ao sofá curvada sobre si, como um pescador à espera, ou como se continuasse, de longe, a leitura do romance que lhe correra das mãos e que se abria agora no chão derramando inutilmente os seus episódios, entre as escarradeiras, pelo tapete. Tal qual a boa senhora, tudo em torno parecia adormecido, as franjas, as borlas da tapeçaria, à verga das portas, pendendo imóveis, os tinhorões artificiais das cantoneiras, os prismas das arandelas, como dragonas de vidro de marechais fantásticos perfilados, um galgo de faiança, deitado em rodilha, sobre um dunquerque, num leito de felpas chamejantes, dous retratos de família, meio corpo, fidalgos de D. João VI, pasmados nas molduras seculares, de uma pasmaceira de defuntos, contritos, no seu papel inofensivo de múmias a óleo. As vidraças, que interceptavam os pequenos rumores do exterior mostravam muito verdes pendões de vegetação ramalhuda e vivaz; ainda lá fora, as árvores dormiam no ar morno. O próprio sol deixava, sonolento, aos ramos que lhe embalassem a indolência de ouro. Dous grandes espelhos da sala, inclinados, repetiam na profundidade do cristal a imagem de todo aquele repouso, fazendo eco ao silêncio.
Vencido o primeiro movimento de instintiva repulsa, Amélia se deixara enlaçar. Dobrando para trás a cabeça, pousou-a ao ombro de Armando; tomou-lhe o rosto entre as mãos e o comprimiu contra o seu rosto; confundiram-se os lábios, e os cabelos da fronte. A outra Amélia, a do painel, olhava-os, testemunha complacente daquele amor, com a melancolia do seu olhar, colada ao fundo de céu noturno.
Ouviu-se um beijo no silêncio.
Agora, ela era... a viscondessa.
Egli s'era innamorato
Ma sapea che il mondo intero
Scherno sol gli avria serbato
S'ei dicea quel suo mistero
Força viver com aquele homem. Visconde... visconde... Alma verde de azinhavre, como as suas moedas, como os seus brasões comprados! Mas era o esposo; ela era dele. Que fazer?! Deralhe em dote os despejos palpitantes das ilusões perdidas. Tudo passara, tudo passara!
Ed ei finse... e rise ancora...
Rise... rise... e non guari!
Invocò la morte allora...
E la morte lo rapi!...
Os sons daquela elegia atravessavam a noite, sob o luto do firmamento, como o funeral dos seus enlevos...
Pobre Pulcinella, morto de amor e de Ideal!
Morrem assim os corações!
E Amélia imaginava quantos, quantos! não trazem no peito o cadáver importuno de um coração que tiveram.
Raul Pompéia
FORA DE HORAS
O último amor de Emílio foi uma viúva, antes um capricho feito viúva, ou melhor ainda um demônio feito capricho.
Mme. Lamour, Mme. Lamort, ninguém lhe sabia exatamente o nome. Inscreviam-na dos dous modos, na comédia do mundo alegre, e ela não se dava ao trabalho de expedir uma errata, deixando que vacilasse o apelido de amor ou morte, como o mistério da vida, que tão bem resumia: o incêndio do ditirambo onde as almas ardem e acabam.
Não cuidem, porém, que estragava a meditar simbolismos o ensejo de descanso poupado na agitação da vida impetuosa. Pertenciam-lhe ao egoísmo inerte, como um tesouro de indolência, as horas da sesta, as horas nuas da sesta, no ambiente resguardado do dormitório, quando estirava-se ao divã de veludo preto, fresca da reação do banho, vaidosamente deslumbrada da brancura da própria carne, gostando na epiderme a viagem leve, saltitada, de uma mosca atraída pelas migalhas da última ceia.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.