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#Romances#Literatura Brasileira

Os Bruzundangas

Por Lima Barreto (1922)

Um Prefeito de polícia, como lhes contei, não lhe conhecia a rua principal; e um Almotacé-mor, encarregado da administração geral do município, não lhe conhecia a natureza de suas produções nem a sua história, como ficou contado. Ele não sabia que a antiga Câmara dos Edis chamava-se — Senado da Câmara.

Como estes muitos outros se repetem na administração da capital.

Via eu todos os dias passar na rua principal de Bosomsy um sujeito cheio de imponência e ademanes fidalgos; perguntei a um amigo:

— Quem é aquele? É algum duque? É marquês?

— Qual! E um tabelião.

"O Senhor F. de Tal, redator da Warkad-Gazette, contratou casamento com a Senhorita Hilvia Kamond, filha da viúva Almirante Bartel Kamond", informava um jornal.

É caso de perguntar: que diabo de cousa é esta — "viúva almirante"?

Por que a noiva não é logo e simplesmente filha do falecido almirante?

— Quem é aquele sujeito que ali vai?

— Não lhe sei o nome. Sei, porém, que vive muito bem e é o marido da Klarindhah.

— O doutor Sicrano já escreveu alguma coisa?

— Por que perguntas?

— Não dizem que ele vai ser eleito para a Academia de Letras?

— Não é preciso escrever coisa alguma, meu caro; entretanto, quando esteve na Europa, enviou lindas cartas aos amigos e...

— Quem as leu?

— Os amigos, certamente; e, demais, é um médico de grande clínica. — Não é bastante?

Sobre o teatro

Tendo lido na Warkad-Gazetre uma notícia elogiosa da estréia da revista "Mel de Pau", no Teatro Mundhéu, lá fui uma noite. Quando entrei já o espetáculo tinha começado e uma dama, em fraldas de camisa, fumando um cigarro, cantava ao som de uma música roufenha:

Eu hei de saber

Quem foi aquela

A dizer ali em frente

Que eu chupava

Charuto de canela.

Por aí os pratos estridulavam, o bombo roncava e a orquestra iniciava alguns compassos de tango, ao som dos quais a dama bamboleava as ancas. As palmas choviam e, quase sempre, a cantora repetia a maravilha, que tanto fazia rir a platéia.

Na noite seguinte, passando pelo "Harapuka-Palace", li no cartaz:

"Todo o serviço", revista hilariante, em três atos, etc.

Entrei. No palco uma dama, em fraldas de camisa, fumando um cigarro, cantava acompanhada de uma música rouca:

Eu hei de saber

Quem foi aquela

A dizer ali em frente

Que eu chupava

Charuto de canela.

Acabando os pratos eram feridos, o bombo trovejava, a música inteira iniciava uns compassos de "maxixe" e a dama, com as mãos nos quadris, bamboleava as ancas. Risos, palmas e o portento era repetido.

Interessei-me por tão variado teatro e foi com agrado que em certa noite, muito próxima destas duas últimas, aceitei um convite para ir ao "Mussuah Theatre". Lá dei com uma outra dama, em fraldas de camisa, fumando e cantando, sob a direção da batuta do maestro:

Eu hei de saber

Quem foi aquela

A dizer ali em frente

Que eu chupava

Charuto de canela.

Risos, palmas, pratos, chocalhos, bombos; a música iniciava alguns compassos, e a dama remexia bem os quadris. Tratava-se da revista "Está pra tudo".

Assim, fui a três ou quatro teatros e sempre dei com uma dama a cantar esta cousa tão linda:

Eu hei de saber etc., etc., etc.

Sobre os literatos

— Quantas cartas tens aí! disse-lhe eu ao vê-lo abrir a carteira para tirar uma nota com que pagasse a despesa.

— São "pistolões".

— Pra tanta gente?

— Sim; para os críticos dos jornais e das revistas. Não sabes que vou publicar um livro?

Sobre os jornais

Novidades telegráficas sensacionais:

"Cocos, 2 — Foi aposentado o Primeiro Escriturário da Intendência

F. (A, A.), Correio Vespertino, de 3-6-07."

"Caranguejos, 22 — Os padres maristas comemoraram ontem com grandes festas o centenário da fundação da respectiva ordem (J. C., ed. t., de 22-6-17)."

"Guarabariha, 22 — Foi desligado do quadro da administração dos Correios daqui o praticante de segunda classe Virgílio César, por ter sido removido para os Correios de Santa Catarina.

— Chegaram a esta capital os doutores Ascendino Cunha e Guilherme

Silveira (J.C., ed. t., de 22-6-17)."

Erudição

"Costumava Tito Lívio dizer que tinha ganho o seu dia sempre que lhe era dado realizar um benefício." (Correio Matutino, de 2-11-13).

Tito Lívio foi imperador?

"E é o motivo dessa antecipação que está sendo explicado, agora, nos jornais da Fortaleza, pelos entendidos na matéria, um dos quais acusa como razão desse desequilíbrio a abertura do canal de Panamá, que pôs em contato duas grandes massas d'água de nível diferente." (O Himparcial, de 12-11-15).

A que fica reduzida a tal história do equilíbrio dos líquidos em vasos comunicantes? Pobre Ganot, quer o grande quer o pequeno! Sobre a administração

"A extração deste combustível na América do Sul se eleva, contudo, a mais de 1.500.000 toneladas, produzindo o México 500.000 toneladas e o Chile o restante" (Relatório oficial sobre — A Indústria Siderúrgica no Mundo, pelo general

F. M. de S. A., pág. 198)

O México na América do Sul? Que terremoto!

Coisas maravilhosas de um tradutor burocrático:

1.o) arbustos de serra (arbrisseaux de serre)

(continua...)

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