Por Lima Barreto (1911)
Bentes, a cavalo, pequeno busto, era bem um qualquer general japonês. Bentes gostou da lembrança, e como esse general tivesse o vício do havana que não largava da boca, esforçou-se ele também por não largá-lo dali em diante.
Bem cedo, aliaram-se os militares políticos e os organizadores da nação armada em torno da figura que nascia toda inteira do pensamento diplomático. Sob o pretexto de reorganização, alargaram os quadros, fizeram-se centenas de promoções e esse alargamento dos quadros era justificado pelo sorteio militar.
A oposição foi grande e não houve expediente por mais inconfessável que fosse, que não empregassem os interessados para arrancar a lei inconstitucional à facilidade do Congresso e à timidez do presidente.
Feitas a promoções, criadas as repartições em que os militares se fizeram plácidos burocratas, a popularidade e prestígio de Bentes no Exército foram os de um general vitorioso que tivesse repelido o invasor.
A criação dos diplomatas, porém, ia tomar outro rumo; o selecionador da população não queria mais o papel. Julgou-se estadista, ficou convencido que o era, graças aos ascendentes sinais cabalísticos do seu anúncio. O despeito dos políticos com a candidatura de Xisto foi ao encontro da apocalipse militar; e Bentes pesou na escolha do sucessor presidencial com uma revolução na retaguarda.
A primeira impressão que se teve foi de estupor. Aquele motim branco, aquela revolução de palácio, de serralho, não estava nos nossos hábitos. Ninguém tinha percebido esse lento trabalho oculto; ninguém tinha notado e não notava as interferências dos diversos espíritos dos grupos que Bentes representava e o seu ato foi no ar, espantando e aterrando, como se fosse um braço que se agitasse no espaço sem inserir-se em um corpo qualquer.
Depois, passado o espanto, houve a irritação causada com aquela súbita fortuna. A opinião só as admite assim, as de dinheiro; ,mas as outras, que ela está habituada a ver obtidas lentamente, passo a passo, quando o são de outra forma, chocam e ferem as noções que o consenso geral já tem firmes no espírito.
Esquecia o povo todos os seus defeitos, todas as suas insuficiências, se a ascensão fosse feita aos poucos, normalmente, sem violências disfarçadas e coações meio confessadas; e a irritação da multidão, da opinião, descarregou-se, transformou-se em riso, em riso sardônico, como sabe sempre rir a massa, dos tiranos que são ao mesmo tempo tiranizados.
Não foram todos os políticos que o aceitaram; foram alguns chefes, um dos quais era Macieira, que viu logo como podia aproveitar a situação; e Bastos, apesar de toda a sua força aparente, admitiu-o, aceitou-o, por uma consideração de defesa e conservação pessoais. Neves Cogominho e os outros homologavam a escolha, e todo o esforço destes foi simular que o fizeram com liberdade e convencer Bentes que muito lhes devia.
Solicitado por uma corrente de interesses, solicitado por outra contrária, Bentes oscilava doidamente, como um espantalho sob o vendaval. Os adeptos sem se entenderem entre si, só se compreendiam na bajulação infrene, com que incensavam o feitiço — bajulação que crescia em proporção aos ataques.
Políticos aposentados e esquecidos, agitadores infelizes foram trazidos à tona e, do exagero de adulação, penitenciavam-se todos troçando na intimidade o manipanso que tinham criado.
Um antigo político gabou a ignorância como fecunda no governo, firmando mesmo a sabedoria como prejudicial ao pais; e Inácio Costa em conversa com Benevenuto, confirmou a sentença:
— Soberania? Bacharelismo?... Nada! Nada!... Acabamos com essa pedantocracia bacharelesca.
Benevenuto disse-lhe então pacientemente:
— Inácio, queres ouvir uma história? É uma lenda que corre entre os
Fellahs. Como tu sabes, são supostos representantes dos contemporâneos dos Faraós. Contam eles que, por ocasião da conquista pelos árabes, o escriba Hué-Tep despertou do túmulo. São casos que se passam freqüentemente nessa vasta necrópole que é o Egito. Hué-Tep ergueu-se do túmulo, tirou a sua máscara funerária e viu toda a brutalidade de Omar e seus sequazes. Reparou que não gostavam dos rolos de papiros e não tinham em grande conta o seu velho saber de estilizar em belos caracteres demóticos os grandes fatos das dinastias. Hué-Tep, ressuscitado do túmulo por aquele tropel, não sabia como viver. Tinha uma língua tão diferente e os recém chegados odiavam a escrita. Como havia de ser?
Estava pensando, já fora do túmulo e sentado sobre a extremidade de uma gulga de granito, quando um “caid” árabe, com a cabeleira untada de graxa, aproximou-se e perguntou-lhe:
— Que fazes, meu velho?
— Vim de entre os mortos e não sei o que hei de fazer.
— Quando vivias, o que fazias?
— Escrevia; era escriba de Phon-Chué, ministro do poderoso Amenem-Set.
— Isto está fora de moda. Não vês, por que o Egito com os seus três impérios desapareceu? Foi a escrita... Nada de escrita. Fora os preparados.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.