Por Coelho Neto (1906)
Todas as fisionomias tinham expressão sinistra: os olhos brilhavam em desusado fulgor, os peitos ofegavam, e, de quando em quando, suspiros angustiados subiam de um ponto, doutro. A velha senhora, enquanto o apóstolo conversava com o presidente, pôs-se a examinar a sala, como à procura da passagem por onde deviam entrar os espíritos invocados.
Felícia, atenta, d'olhos na mesa, mal respirava e a mocinha, nervosa, irrequieta, agitava-se na cadeira, esfregava as mãos, estalava os dedos, com visível ansiedade; por vezes, toda ela estremecia, a cabeça tombava-lhe para as costas, os olhos ficavam esgazeados, como em espasmo.
Dona Júlia começava a sentir a fascinação comunicativa daquele bando de alucinados. Voltando a cabeça, encontrava os olhos de uma mulher imóveis, de um brilho vítreo, ou via uma negra cabisbaixa, araviando às surdas.
De repente um homem gemeu num arranco: "Não posso! Jesus, meu Senhor...!" e continuou murmurando, a bater no peito às punhadas. O ambiente tornava-se abafadiço, com um calor de rescaldo tresandando a suor e a morrinha.
— Minh'ama está vendo? — Estou.
O homem continuava resmoneando. O seu hálito quente chegava em bafos à nuca de Dona Júlia, e a sua murmuração punha um zumbido constante na sala. Ao fundo, a criança da coqueluche rompeu a tossir, e houve um ci ci de acalento, até que o apóstolo anunciou:
— Está aberta a sessão.
Os crentes acomodaram-se e o velho, com pronunciado acento espanhol, dirigiu um apelo aos irmãos, que se achassem dispostos para o trabalho.
De um canto levantou-se um homenzinho magro, lívido, d'olhos fundos, a barba crescida, vestido com pobreza e descuido. Todos os olhares seguiam-no com interesse, e ele passava d'esguelha, por entre os devotos, limpando as mãos a um grande lenço vermelho de barra florida.
— É o irmão Canedo, disseram.
O homem sentou-se, de costas para a assembléia, impôs as mãos a mesa, fechou os olhos, apertando muito as pálpebras, e quedou, como adormecido, dominado por todos aqueles olhares fixos, que o envolviam em fluidos.
Súbito, entrando em crise, atirou violentamente a cabeça para trás, sorvendo um fôlego, pôs-se a tremer e, em voz fraca, murmurou:
— Que a paz do Senhor seja convosco!
Correu um sussurro por toda a sala e o homem, sob o prestígio das forças espirituais, pôs-se a falar, aos arrancos, profeticamente, com frases laceradas:
— Muitos dos que aqui se acham, conheceram-me enquanto andei nesta vida de torturas...
O apóstolo interrogou:
— Quem és? Quem foste?
E o médium declarou:
"Que se chamara Amaral. Fora do Correio..." e, pausadamente soturnamente, agoniado, entrou a falar da revolta de setembro, lamentando a carnificina, as depredações, as vinganças, os atentados covardes, a tristeza das viúvas, o abandono dos órfãos. O apóstolo interrompeu-o:
— Dize-nos alguma coisa que nos aproveite. Estamos aqui reunidos, ansiosos pelas palavras edificantes dos que gozam a graça de sentir a presença de Deus. Ilumina-nos.
Mas o homem continuou no mesmo tom plangente, detendo-se em pausas aflitas, a lamentar o sangue derramado, a miséria, os incêndios, as violações, até que estatelou inerte, numa sonolência mole, acordando, de repente, espantado, como estranhando achar-se entre tanta gente. Esfregou os olhos e levantou-se cansado, tornando ao seu lugar, no fundo da sala.
Sem que o chamassem, um mulato abaçanado, alto, de músculos hercúleos, ergueu-se, com um olhar de inspirado, oferecendo-se. Aceito, encaminhou-se para a mesa, impôs as mãos imensas e, d'olhos fechados, tateando, respirava com força, aos bufos, como um potro exausto. Abria, de repente, os olhos, bambaleava-se, batia pancadas secas com o pé, espalmava as mãos na mesa, com os dedos muito abertos.
A mocinha, que o não deixava com os olhos, empinou-se nervosa, suspirou e abateu na cadeira derreando a cabeça sobre o respaldar.
— Que a paz do Senhor seja convosco!... — disse gravemente o colosso com uma voz cheia que rolou tonitruosamente, seguindo-se-lhe o "Amém" de todos os presentes. E, à maneira dos profetas bíblicos que, no tempo da subversão moral do povo eleito, andavam de cidade em cidade anunciando os castigos de Iavé, começou a discorrer sobre o Bem e o Mal, mostrando que o benefício na terra é um depósito cujo lucro se recebe no céu e que o pecado é uma lepra que corrói a alma e, como se sobre ele houvesse baixado o espírito clamoroso de Isaias. as suas palavras eram fortes, lembrando as do profeta a reboavam abalando aquelas almas vibráteis.
E como a mocinha se pusesse de pé, a ímpeto, retorcendo os braços, rilhando os dentes, com um surdo, arrancado arquejo, a rebolir-se em coleios serpentinos, Dona Júlia agarrou-se à Felícia, sussurrando com medo:
— Vamo-nos embora. Isto está-me fazendo mal.
— Por que, minh'ama?
— Vamos.
— Nós agora não podemos sair. Como é que vosmecê quer passar?
— Paulo pode ter chegado.
— Vosmecê não falou com ele?
— Sim, mas não quero entrar tarde. — Agora falta pouco, minh'ama.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.