Por Coelho Neto (1890)
João de Deus ficou hesitante, retorcendo um lustroso boné de seda que lhe dera o Toledo enquanto Crebillon, arregaçando a manga da camisa, com uma afiada faca pernambucana, pôs-se a raspar lentamente os pêlos do braço esquerdo, mais guedelhudo do que o de um gorila.
De repente, numa resolução, pôs-se nu, fechou a carranca, rangendo os dentes e rugiu ensaiando ferocidade.
— Muito bem. Voltou-se para o negro, que pasmava boquiaberto. — João, vai buscar o esqueleto. Vamos! João de Deus escafedeu-se. Agora, ouçam vocês. Não estou disposto a aturar um tipo que nos vem, todos os dias, importunar por uma miséria de vinte mil réis. Se eu os tivesse, dava-lhos, mas toda a minha fortuna reduz-se a 4$600. Com argumentos de convicção nada conseguiremos, portanto, para evitar uma cena ridícula à porta do palacete, vou empregar os recursos supremos. É necessário que esse sujeito não torne à nossa porta...
— Que vais fazer, Crebillon?
— Vou fazer uma cena tremenda com o esqueleto do meu rival. Justamente João de Deus aparecia com a ossada nos braços e Crebillon sentou-a em uma das cadeiras diante da porta. Quando eu romper aos berros é bom que vocês aparentem desgosto e tristeza, lamentando o meu estado, mas de longe. E deixem-me com o homem. Vai, João. Manda-o cá em cima.
A campainha retiniu desesperadamente.
— E se o meco não acreditar na farsa, Crebillon?
— Dou-lhe os 4$600 por conta.
— E se ele não aceitar?
— Esgano-o! O negro ia saindo quando Crebillon o chamou: Ouve cá, João.
Hás de dizer ao homem, para preparar-lhe o ânimo, que estou na minha crise, compreendes? O patrão está hoje na sua crise nervosa. É bom que o senhor não se aproxime muito. Entendeste? Crise nervosa.
O negro repetiu, torcendo o boné lustroso:
— Crise nervosa...
— Isso! Vai com Deus.
O negro desapareceu. A campainha retinia sem descontinuar. Quando as escadas rangeram Crebillon, reconhecendo o inimigo, pôs-se a saltar no quarto, nu, ululando e brandindo a faca que reluzia. João de Deus não se atreveu a aproximarse, mostrou ao homem o quarto e ficou à distância respeitável esperando o desenlace da cena. Crebillon rugia sempre e o homem olhava, esgazeado, as imensas salas desertas que apenas o sol ornava e o vozeirão tremendo do abolicionista enchia atroadoramente.
— Ah! Miserável! Grandíssimo biltre! Pensas que estou saciado? Ainda não! A morte não basta! Vou agora esconder os teus ossos... Quero ver no Juízo Final a cara da tua carne quando os anjos do Senhor tocarem a reunir... Hás de procurar os ossos debalde. Vou escondê-los no forro da casa... Lá em cima!
O homem, ouvindo palavras tais, andava com os olhos de um lado para outro como se procurasse alguém, quando Ruy Vaz apareceu demudado, preocupado, metendo os dedos pelos cabelos e, dando com o carroceiro, perguntoulhe se queria alguma coisa.
— Sim senhor: vim receber a conta da mudança. — Ah! Sim... Mas em que dia veio o senhor!
Crebillon urrava, sapateava, atirava botinas ao chão e falava insanamente em Juízo Final, em Clube dos Fenianos, em angu de preta mina, em Angélica da Costa...
— Ah! Meu amigo, está ouvindo?
— Sim, senhor. O preto disse-me que o patrão está algum tanto incomodado.
— Incomodado? Está perdido, irremediavelmente perdido. Já mandamos uma comunicação ao Hospício para que o venham buscar. Está impossível. Voltoulhe a crise.
— Ah...
— Ele julga-se a Via-Láctea e diz que veio parar na terra porque um homem perverso, esse tal que ele injuria...
— O homem está lá?
— Não, quem está lá com ele é o esqueleto. — O esqueleto do homem...?
Não houve tempo para mais explicações. Crebillon saia do nu, arrastando o esqueleto e brandindo a faca. O carroceiro, logo que o viu, fez menção de fugir, mas Crebillon dando com ele, pôs-se a ranger os dentes, a arregalar os olhos e era horrível de ver-se-lhe o carão purpúreo com a pêra ruiva que a chama invertida de um grande círio. Sem tirar os olhos do homem, encostando o esqueleto à parede, foi passando a lâmina da faca no braço nu e, feroz, agachado, avançava pé ante pé. O homem estava lívido e tremia quando Ruy Vaz, querendo interceder por ele, com uma seriedade imperturbável, falou a Crebillon:
— Ouve, Thomaz, ouve... Sou eu, teu amigo. Então não me conheces?
— Este não é o Serafim? O dono dos ossos? É ele mesmo... Ah! Miserável, que fizeste de Maria Angélica? Onde está Maria Angélica? Pensas que me escapas? Olha, os teus ossos já estão ali, agora o resto... Eu preciso da tua carne para cobrir o esqueleto que está com frio. Ergueu os braços e uivou: Ah! Maria Angélica...! Vais ser vingada! Serafim está aqui! Vou picá-lo em bocadinhos... Em bocadinhos, Maria Angélica, em bocadinhos!
De repente, dando um salto feroz, ia deitar a mão ao homem e tê-lo-ia alcançado se ele não deitasse a correr, precipitando-se escada abaixo, aterrado. Crebillon acompanhou-o até o patamar, brandindo a faca e urrando os nomes misteriosos de Serafim e de Maria Angélica, mas a porta bateu com violência e João de Deus, que fora espiar o homem, subiu a anunciar que ele havia desaparecido.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.