Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

O meu bom amigo, exagerado em mostrar-se melhor, sempre receoso de importunar-me com uma manifestação mais viva, inventava cada dia nova surpresa e agrado. Chegara ao excesso das flores. A principio, pétalas de magnólia seca com uma data e uma assinatura, que eu encontrava entre folhas de compêndio. As pétalas começaram a aparecer mais frescas e mais vezes; vieram as flores completas. Um dia, abrindo pela manhã a estante numerada do salão do estudo, achei a imprudência de um ramalhete. Santa Rosália da minha parte nunca tivera um assim. Que devia fazer uma namorada? Acariciei as flores, muito agradecido, e escondi-as antes que vissem.

Mas o Barbalho espiava, ultimamente constituído fiscal oculto dos meus passos.

As circunstâncias o tinham aproximado do Malheiro, e o açafroado caolho pretendia manejar a rivalidade dos dois maiores: um conflito entre Malheiro e Bento podia ser a vergonha para mim.

O Malheiro, com o vozeirão grave de contrabaixo, começou a infernizar-me por epigramas. Queria incomodar o Alves mortificando-me, julgando que me queixasse. Eu devorava as afrontas do marmanjo sem descobrir o meio de tirar correta desforra. Barbalho lembrou-se de tomar as dores. Depois de incitar o Malheiro contra mim, incitou o Bento contra o Malheiro. Procurou-o misteriosamente e informou: “o Malheiro não passa pelo Sérgio que não pergunte quando é o casamento... é preciso casar... Ainda hoje pediu convite para as bodas. O Sérgio esta desesperado”.

O furor do Alves não se descreve, furor poderoso dos calados. Uma onda de apoplexia ruborizou-lhe as faces. Por único movimento de indignação contraiu os dedos, como estrangulando. Procurou o Malheiro e com a voz talvez alterada, mas sem ódio, fez intimação: “amanhã é a sessão de encerramento; em meio da festa salmos ambos; preciso falar-lhe das bodas”.

Malheiro percebeu: era o sonhado encontro!

Apenas desceu da tribuna o presidente efetivo do Grêmio, os adversários deixaram as cadeiras. Barbalho saiu pouco depois. Notei o movimento e adivinhei mais ou menos.

Quando saímos do pavilhão, finda a solenidade, um criado entregou-me um envelope, uma carta do Alves, a lápis. “Estou preso; antes que te digam que por alguma indignidade, previno: por ter dado uma lição ao Malheiro.”

Minutos depois, Franco, muito satisfeito, contava a todos: “tinham lutado no jardim o Malheiro e o Alves; que briga dos dois brutos!” Alves saíra ferido com um golpe no braço, acreditam que de navalha; Malheiro estava no dormitório. Avisados pelo Alves, os criados tinham ido buscá-lo sem sentidos, ao fundo de um bosquete no parque. “Sem sentidos!” garantia o Franco; “que pândega! que sopapos! ora o

Malheiro malhado!”

Soube-se que Barbalho espreitara o combate através dos arbustos. Antes de o ver acabado, correra ativo, e concentrando a vesgueira numa só atenção de intrigante, preparara as coisas de modo que, ao voltar do jardim, Bento Alves foi surpreendido por uma ordem de prisão do diretor.

Não denunciar nunca é preceito sagrado de lealdade no colégio. Os contendores recusaram-se a explicações. Bento Alves negou o braço a exame e a curativo; Malheiro, em panos de sal, fingindo-se muito prostrado, oferecia o mais impenetrável silêncio às indagações de Aristarco e protestava esborrachar as ventas a quem caísse na asneira de insinuar o bedelho no que não era da sua conta.

“Ora o malhado!...” resmungavam os colegas; mas tratavam de esquecer o caso.

Por minha parte, entreguei-me de coração ao desespero das damas romanceiras, montando guarda de suspiros à janela gradeada de um cárcere onde se deixava deter o gentil cavalheiro, para o fim único de propor assunto às trovas e aos trovadores medievos.

CAPÍTULO VII

O tédio é a grande enfermidade da escola, o tédio corruptor que tanto se pode gerar da monotonia do trabalho como da ociosidade.

Tínhamos em torno da vida o ajardinamento em floresta do parque e a toalha esmeraldina do campo e o diorama acidentado das montanhas da Tijuca, ostentosas em curvatura torácica e frentes felpudas de colosso; espetáculos de exceção, por momentos, que não modificavam a secura branca dos dias, enquadrados em pacote nos limites do pátio central, quente, insuportável de luz, ao fundo daquelas altíssimas paredes do Ateneu, claras da caiação, do tédio, claras, cada vez mais claras.

Quando se aproxima o tempo das férias. o aborrecimento é maior.

Os rapazes, em grande parte dotados de tendências animadoras para a vida prática, forjicavam mil meios de combater o enfado da monotonia. A folgança fazia época como as modas, metamorfoseando-se depressa como uma série de ensaios.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4344454647...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →