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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

Amélia acomodava-se a uma poltrona, sobre almofadas para ficar em boa posição. A alguns passos da poltrona Armando erguera o cavalete. Duas vidraças, as únicas abertas da sala, convenientemente veladas, iluminavam a três quartos, por cima, o modelo e a tela. Grande pano de basto veludo azul, suspenso a um cordão que atravessava a sala de parede a parede, servia de fundo, projetando ao rosto da jovem reflexos celestiais. Protegidos, modelo e artista, pela cumplicidade desta cortina de veludo, que os isolava numa solidão relativa, encobrindo-os às vistas da senhora do comendador, deliciosos momentos gozavam eles! Às vezes, Armando deixava cair o pincel e esquecia-se a contemplar o adorado modelo; às vezes, sob pretexto de endireitar a posição, aproximava-se de Amélia, tomava-lhe a mão, beijava-lhe furtivamente os dedos. Amélia consentia. Tudo estava perdido para ela; por que havia de repelir? Ele nada sabia, o pobre; e a Amélia faltava coragem para desiludi-lo. Demais, tão suave era o engano, que ela mesmo se deixava levar pela ebriedade do momento... Estava em vésperas de casarse... Pois o seu noivo era Armando! E neste sonho, divertiam-se perdidamente os namorados. Permutavam frases de vago sentido, temperadas de paixão. Borboleteavam, a meia voz, sobre os assuntos, artes, pintura, música, segredos do colorido, preferências em matéria de cor: ela preferia o azul, a cor do infinito; ele preferia o vermelho, o vermelho vibrante, a tinta do sangue e da vida!

Egli, il re dell'allegria,

Soffri sempre um brutto male Un 'orrenda malattia

Ché-si chiama-l'Ideale!

Quanto à pintura, o artista esmerava-se com verdadeiro fervor. Inebriava-o a idéia de se achar ali a imitar o cetim daquelas faces, a profundidade de abismo daquele olhar, o recorte caprichoso dos lábios, encrespados como pétalas de carne. Tinha ímpetos de cair e pintar de joelhos, como Fra-Angelico. E rejubilava de ver com que felicidade ressaltavam, sob o pincel, os encantos da fisionomia do modelo.

- Hoje acabo o retrato! disse Armando, ao entrar um dia, às horas do costume.

- Deve estar contente, observou a mãe de Amélia. Que o senhor tem trabalhado!... Já se vãodez dias! Mas pode abar-se de ter aproveitado o tempo... Não há quem veja, que não ache primoroso...

A última sessão foi triste. Amélia sentia-se possuída de um desespero surdo. Último dia, último dia das suas ilusões! Quisera deitar mão ao sonho que fugia. Baldado esforço! As névoas passavam, tocadas pelo vento. Armando esteve a ponto de gravar na tela uma lágrima que surpreendeu nos olhos da jovem; pintou-a mesmo, por fantasia e apagou depois com uma pincelada de sombra. Estampou, entretanto, com os últimos toques, definitivamente, a expressão de melancolia, a bela tristeza do seu rosto. Preocupado pelo desgosto do próximo fim da deleitosa temporada, pintava sem dizer palavra. A jovem não tinha ânimo de falar. Sentia que, se descerrasse os lábios, o pranto lhe rebentaria dos olhos. Mantinha-se em contensão nervosa, e o via pintar, carinhoso, trêmulo, como se temesse ofender a querida imagem, absorto, como se a alma toda lhe escapasse para a tela pelos fios louros do pincel.

- Pronto! exclamou afinal Armando. Já o dou por pronto!

- Já?! balbuciou Amélia.

E ergueu-se. O torpor da imobilidade lhe deixara os membros pesados. Ela inteiriçou o corpo, espreguiçando-se com um ligeiro frêmito felino e adiantou-se para o cavalete.

Com o seu ar enfadado de tristeza, os grandes olhos enternecidos pela fadiga da pose, obrigados a fitar numa direção invariável, apertada elegantemente na rica toilette de baile cetim pérola com que se fazia retratar, coberta de rosas, como uma alegoria da primavera, emergindolhe a mimosa cabeça de um decote talhado em ângulo agudo para as costas e sobre o colo, os cabelos apanhados com arte mostrando toda a alvura do pescoço, nus os adoráveis braços de virgem, desajeitados como no enleio de sentir a nudez, Amélia deslumbrava. Encontrando-a com o olhar, Armando teve um choque. Não sei se a ilusão da última hora que faz parecer melhor o que se vai perder, não sei se o véu de encanto que lhe vestia a ternura da tristeza, Armando senti uma impressão de novidade. Nunca a vira assim, como naquela última hora da última sessão, nunca o pintor a vira assim divina!

Ao aproximar-se a jovem, ele recuou como aturdido. Evolava-se das flores daquele vestido um perfume de entontecer.

(continua...)

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