Por Coelho Neto (1906)
— A senhora não está ouvindo?
O mulato, porém, chamou-o, e os dois ficaram cochichando. Mas o apóstolo mostrava impaciência e logo tornou à velha:
— A senhora deve hoje experimentar a sessão íntima. Nós, aqui fora, não trabalhamos, oramos apenas; para os trabalhos superiores temos outra sala. Para a senhora entrar basta que se filie a um dos grupos que constituem a Confederação. Paga a mensalidade e recebe um cartão permanente, podendo vir todas as noites concorrer para a grande obra santa da regeneração da Humanidade. É a primeira vez que assiste a uma sessão?
— É, sim senhor.
— Nunca trabalhou particularmente?
— Não senhor.
— Minh'ama tem medo, — explicou Felícia.
— Medo! — exclamou o homem corcoveando. — Medo de quê? — E, superiormente: Tenha medo dos vivos, minha senhora, que nos impelem ao pecado, concorrendo para a perdição da nossa alma; mas dos puros espíritos, que nos regem, que nos iluminam, que são os nossos conselheiros, desses não deve ter medo porque só baixam ao mundo para fazer bem. — Chegou-se muito à Dona Júlia e continuou, com mistério: Quantas e quantas vezes tem a senhora seguido os bons conselhos de um espírito protetor? Vai praticar um ato e ouve uma voz íntima que lhe aconselha a desistir da idéia, por ser inspiração do Mal. Dizem: é a consciência. Engano, — afirmou, categórico: é o espírito superior que nos guia. Ninguém observa. Os incrédulos procuram explicar tais fatos com razões absurdas. Observe, minha senhora, observe, e há de convencer-se de que a vida na terra é dirigida pelos espíritos que formam as legiões de Deus. Os mortos governam os vivos. Para o verdadeiro espírita a morte não é um motivo de aflição. Por que choram tanto os que vêem sair o enterro de um parente ou de um amigo? porque imaginam que o perdem, não é verdade? Com o espírita não se dá tal; o espírita sabe que os mortos não se ausentam: respondem ao apelo dos que ficaram em penitência na vida e demoram-se com eles, conversando, aconselhando, como se vivos fossem. É uma consolação: a mãe continua a viver com o filho, a esposa continua a sentir a presença do esposo. Há a eterna aliança espiritual. Não há doutrina mais consoladora! — suspirou, com os olhos em alvo.
— Minh'ama entra, assegurou Felícia.
— Pois sim, — concordou resignadamente a velha e, enquanto o homem foi procurar o livro de inscrições, ela interrogou a negra:
— Fala com franqueza: tu contaste o que se deu lá em casa?
— Não contei, minh'ama; toquei nisso uma vez, na rua, mas não disse com quem era. Disse que estava muito triste porque tinha acontecido uma coisa com uma pessoa da minha amizade, mas não disse o nome de vosmecê, nem o de Nhá Violante. Ele sabe tudo, vosmecê pensa?! só vendo. Ele não adivinha, são as almas que contam. Vosmecê ainda não viu nada, com o tempo é que vosmecê há de ver.
O homem acenou à Dona Júlia — estava junto da mesinha, inclinado sobre um livro. Logo que a viúva chegou pôs-se a falar:
— Aqui tem, minha senhora: pode escolher um grupo à vontade: Círculo Espírita Conciliação, Sociedade Espírita Allan Kardec, Grupo Espírita Maria Nazaré...
— Este, — disse a velha, impressionada com o doce nome da Mãe de Jesus. O homem perguntou-lhe onde havia nascido, em que ano, onde residia. Ela respondia em murmúrio, d'olhos baixos. Lembrando-se, porém, que não levava dinheiro, balbuciou, vexada: Eu não vim prevenida...
— Não faz mal... — e entregando-lhe a pena: Pagará depois. Tenha a bondade de escrever o seu nome.
Curvou-se e lançou tremulamente o nome diante da cifra 2811. O homem deu-lhe um cartão com friso d'ouro, para que ela assinasse, explicando que — "Onde quer que se apresentasse com aquele cartão, seria reconhecida e aceita como obreira da regeneração da Humanidade".
E falou em médico, farmácia, dieta, enterro, enquanto passava o mataborrão sobre as linhas escritas. Depois, mostrando-lhe o corredor da esquerda iluminado, disse:
— Estão exercitando os médiuns lá dentro. Depois a senhora irá comigo.
Mas houve um rumor na sala das sessões íntimas, e o mulato, escancarando a porta, declarou: "Que podiam entrar".
— Vamos, convidou o apóstolo.
E a negra, inclinando-se, segredou à ama:
— Agora é que vosmecê vai ver.
A sala das sessões íntimas, ao contrário do que imaginara Dona Júlia, "um lugar escuro e triste", era clara e alegre, forrada de vistoso papel e ramagens miúdas, iluminada por seis bicos de gás, respirando por duas janelas largas. Quadros santos ornavam as paredes e, por trás da mesa, à qual se havia sentado o mesmo velho indolante e acalorado que presidira à pregação, inclinava-se um grande quadro com o retrato de um homem em tamanho natural. Os crentes apinhavam-se. As duas mulheres só conseguiram achar lugar na quarta fila. Dona Júlia acomodou-se justamente ao lado da mocinha que esmolara para os irmãos enfermos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.