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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Ruy Vaz, posto que não fosse indiferente ao ferro clássico, preferia, em vez dele, um simples contador ou outro qualquer móvel de mais utilidade. O ferro era precioso, mas não enchia os grandes vácuos da casa. Mas como Crebillon havia prometido não quis enfezá-lo mais e, deixando-o com o seu museu de antigüidades, estirado na rede, em ceroulas, com o cachimbo nos beiços, contando a Anselmo uma terrível caçada nas matas bravias do Piauí, foi trabalhar no seu novo romance, que era a vida fantástica de um padre vítima de uma empusa, como Menipo que foi salvo miraculosamente por Apolônio.

Na manhã seguinte, ainda havia névoas, e já Crebillon bradava por João de Deus para que lhe arranjasse café.

O negro subiu receoso e trêmulo para dizer que não havia nada em casa — nem chaleira, nem xícaras. Crebillon achou impossível que não houvesse coisas tão insignificantes e perguntou como se haviam arranjado os moços nos outros dias para tomar café? João de Deus balbuciou:

— Eles não tomam café.

— É a eterna falta de ordem. Assim, meus amigos, começamos mal, disse Crebillon bem alto para que os rapazes ouvissem do quarto. Assim começamos mal. Sem ordem não arranjamos nada. Não há lá em baixo uma garrafa? O negro afirmou: que havia na dispensa. Pois lave-me bem uma garrafa, vá a um botequim ali na rua do Catete e traga-ma cheia de café. Café fresco, viu? Se não for fresco volta.

— E xícaras? — ousou perguntar João de Deus.

— Xícaras... ainda mais essa. Pois traga três xícaras e quatro pães com manteiga. Vá depressa; tome o dinheiro.

Os rapazes ouviam o diálogo do presidente e do negro.

Só, passeando descalço ao longo do corredor, Crebillon resmungava:

— É isto. Quando eu digo que a ordem é tudo, clamam que impertinente, que me quero impor como mandão e não sei mais, e é isto. Metem-se em uma casa como esta sem uma chaleira, ao menos. Assim não é possível. E queixam-se depois da sorte — porque não podem trabalhar, que são infelizes, e... patati e patatá. Três homens dentro de um palácio sem uma chaleira. Assim não é possível.

Ruy Vaz, que tudo ouvira, saiu ao encontro de Crebillon, no corredor:

— Que é isto, homem?

— Que é isto! Pois vocês nem uma chaleira têm!

— Não!...

— Isto é demais!

— Também acho.

— Vocês hão de viver sempre em dificuldades.

— Sem chaleira?

— Não é sem chaleira, é sem ordem.

— Eu penso como tu.

— Pensas como eu, pensas como eu, e se eu quis tomar café tive que mandar João de Deus a um botequim com uma garrafa, quando possuímos o primeiro fogão da América do Sul.

— Que culpa tenho eu disso?

— Que culpa tens?

— Sim, que culpa tenho?

— Já sei que me vens com a lenga-lenga da mobília.

— De certo. Conheces perfeitamente as nossas condições. Quando nos propuseste a mudança, disseste que tomavas à tua conta a montagem da casa, da cozinha à sala de recepção. Que fizeste? Foste caçar a cotó na Bocaina. Ofereceste-nos as andorinhas e não as pagaste, fazendo-me passar por um vexame indizível e ainda vens bradar irritado por que não há chaleira? Como queres que haja chaleira se nada trouxeste?

— Mas hei de trazer.

— Pois bem: quando trouxeres haverá.

— Pois sim, mas sem ordem nada se faz. A minha questão é de ordem.

— Bem sei... a mobília que venha que a ordem há de aparecer. Que nos pediste tu? Silêncio e moralidade. Isto em silêncio é um túmulo, os próprios ratos, que faziam rumor à noite, já não aparecem porque o gato faminto não lhes dá tréguas. Quanto à moralidade, meu amigo, a Elvira e a Amélia pedem a todos noticias nossas e ninguém as dá, porque ninguém sabe onde moramos. Bem vês que vamos cumprindo à risca o contrato que celebramos, entanto de mobília... nem um pires.

— Há de vir.

— Deus te ouça!

João de Deus interrompeu a discussão aparecendo com a garrafa e um embrulho que tiniu quando foi pousado sobre uma janela.

— Que é isto? — perguntou Crebillon apalpando o embrulho.

— Pão e canecas de folha. As de louça quebram muito, disse o previdente negro.

— Pois havemos de tomar café em canecas de folha, como Cucravos?

— Que tem...? — disse Ruy Vaz.

— Não fazes questão?

— Não, desde que o café esteja quente. — Está fervendo, afirmou João de Deus.

— Então não faz mal. Há quatro canecas, não'?

— Sim, senhor.

— Então vá chamar os doutores.

Logo que chegaram, Toledo e Anselmo, que não contavam com aquela agradável surpresa, tiveram a sua reação e, por um momento, foi esquecida a nudez da casa. Mas no melhor do gozo a campainha retiniu estridente e João de Deus subiu a anunciar o homem das andorinhas.

— Que se há de fazer?

— Vai lá dizer que não há ninguém em casa, João. O negro hesitou, Anda!

— Eu já disse que o senhor estava aí.

— Como! Pois vai dizer que te enganaste, que quem está em casa és tu.

— Eu não posso dizer isto. O homem é capaz de querer brigar.

— Ah! Ele briga? É valente? Então manda-o cá em cima que eu o arranjo. Manda-o!

(continua...)

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