Por Raul Pompéia (1888)
A eloqüência foi a principio livre, fiel ao ritmo do sentimento; influenciada pela música monótona dos mais antigos tempos, cadenciou-se em metro regular e monótono como a música. Aproveitada como recurso mnemônico, libertou-se da música, guardando, porém, a forma do metro igual e da quantidade equivalente, que havia de ser um dia a metrificação da sílaba, que havia de dar em resultado a monstruosidade da rima, o calembur feito milagre de perfeição.
A música seguiu à parte a sua evolução.
Na arte da eloqüência da atualidade acentua-se uma reação poderosa contra o metro clássico; a critica espera que dentro de alguns anos o metro convencional e postiço terá desaparecido das oficinas da literatura. O sentimento encarna-se na eloqüência, livre como a nudez dos gladiadores e poderoso. O estilo derribou o verso. As estrofes medem-se pelos fôlegos do espírito, não com o polegar da gramática.
Hoje, que não há deuses nem estátuas, que não há templos nem arquitetura, que não há dies iroe nem Miguel Ângelo; hoje que a mnemônica é inútil, o estilo triunfa, e triunfa pela forma primitiva, pela sinceridade veemente, como nos bons tempos em que o coração para bem amar e o dizer não precisava crucificar a ternura as quatro dificuldades de um soneto.
Qual a missão da arte? Originaria da propensão erótica fora do amor, a arte é inútil, — inútil como o esplendor corado das pétalas sobre a fecundidade do ovário. Qual a missão das pétalas coradas? De que nos serve a primavera ser verde? As aves cantam. Que se aproveita do cantar das aves? A arte é uma conseqüência e não um preparativo. Nasce do entusiasmo da vida, do vigor do sentimento, e o atesta. Agrada sempre, porque o entusiasmo é contagioso como o incêndio. A alma do poeta invade-nos. A poesia é a interpretação de sentimentos nossos. Não tem por fim agradar.
E, depois, reclamar títulos de utilidade às divagações graciosas de uma energia da alma, que significa em primeira manifestação a própria perpetuidade da espécie?!
Além de inútil, a arte é imoral. A moral é o sistema artístico da harmonia transplantado para as relações de coletividade. Arte sui generis. Se é possível eficazmente o regime social das simetrias da justiça e da fraternidade, o futuro há de provar. Em todo caso é arte diferente e as artes não se combinam senão em produtos falsos, de convenção.
Poema intencionalmente moral é o mesmo que estátua polícroma ou pintura em relevo. Apenas uma coisa possível, nada mais; há também quem faça flores, com asas de barata e pernas.
A verdadeira arte, a arte natural, não conhece moralidade. Existe para o indivíduo sem atender à existência de outro indivíduo. Pode ser obscena na opinião da moralidade: Leda; pode ser cruel: Roma em chamas, que espetáculo!
Basta que seja artística.
Cruel, obscena, egoísta, imoral, indômita, eternamente selvagem, a arte é a superioridade humana — acima dos preceitos que se combatem, acima das religiões que passam, acima da ciência que se corrige; embriaga como a orgia e como o êxtase.
E desdenha dos séculos efêmeros.
À vista da tranqüilidade do auditório, subentende-se que não estavam presentes os dois heróis da primeira sessão solene: o Dr. Zé Lobo não viera, para não encontrar o Senador; o Senador Rubim não viera, para não encontrar o Dr. Zé Loto: impulsos equivalentes em sentido contrário anulam-se.
Havia na sala diversos ouvintes que se distraiam de perseguir com atenção a galopada de hipógrifo, em que se elevava a eloqüência do orador.
Bento Alves, um; outro o Malheiro, moreno, nervoso, carrancudo, o primeiro ginasta; outro, Barbalho.
A preocupação de Bento Alves era uma injúria. Entre ele e Malheiro havia rixa de velha de emulação. Malheiro não lhe perdoava a culpa de ser bravo. Os próprios prodígios da força e agilidade, aplaudidos e proclamados pelo Ateneu, não davam para saciar a vaidade. De que valia ser forte, se era impossível a aplicação do seu esforço para afrouxar uma fibra à musculatura do Bento? Ah! não ser possível por sugestão desfiar uma a uma aquelas meadas de arame, reduzir a infantilidade débil aquela corpulência odiosa! Por que não iriam os desejos da inveja, como vampiros, sorver o sangue àquela força, a vida, gota a gota, àquele vigor de ferro?
Bento Alves não dava mostras de perceber a rivalidade. Malheiro evitava-o. Era impossível conservar-se um momento perto do colega, que lhe não dessem ímpetos de assaltá-lo.
A façanha da prisão efetuada pelo rival definitivamente retirava-lhe a glória de valoroso único. Malheiro entrou em melancolia trancada. O rosto moreno amorenouse mais; a animação de um brilho não lhe chegava à janela do olhar; o sorriso nos lábios não abria a porta. Dir-se-ia um frontispício de luto.
Ficou a ruminar o projeto de um encontro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.