Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

Depois do casamento, era a primeira vez que se encontravam a sós, Amélia e a sombra, a sua sombra, a discreta confidente dos sonhos idos. Estavam a sós; o visconde era detido a fazer sala a alguns amigos cerimoniosos e renitentes. Que diria ela agora, à querida irmã fantástica? Ali, recostado às árvores, trajando a eterna veste escura de melancolia, olhando-a, mudo, com os invisíveis olhos das aparições, ele queria saber alguma cousa, o amável fantasma. Não lhe havia Amélia contado, outrora, os sobressaltos do seu coração, as esperanças, os desalentos? não lhe havia mostrado misteriosamente uma flor que recebera; a seu lado não decorara a primeira carta inflamada de efusões?... Amélia não achou o que dizer à sombra. Apoiou os cotovelos ao peitoril, e, cobrindo o rosto, sufocou com as mãos uma tempestade de soluços. Dos olhos, por entre os dedos, corriam-lhe as lágrimas candentes.

Na abstração da dor, essa espécie de desmaio em que degenera o pranto violento, doce alívio final que adormece a consciência do desgosto, sem mortificar os sentidos, a jovem senhora percebeu, longe, longe, por cima da massa do arvoredo, além da rua, além da casaria do arrabalde, dispersa na escuridão, fugitivos acordes de piano. Dir-se-ia um prelúdio caprichoso e sentido. Elevava-se a música à distância, contorcendo-se doridamente como essas linhas tênues de fumo que se avistam, de dia, a desfiar-se no horizonte. Pouco depois, igualmente atenuada em surdina, pelo afastamento, casou-se aos sons do piano uma voz de barítono

Signore beile, voi mi dimandate Qual nuova oggi vi porto?...

Amélia reconheceu a canção de Tosti, a original canção de Tosti, mais vulgarizada que compreendida, a elegia pungente de Pulcinella, crueldade do acaso! exatamente a elegia de Pulcinella que lhe recordava a mais saudosa das ilusões mortas!

Tirou as mãos do rosto; já não chorava. Pôs-se a escutar avidamente. A menor vibração do ar dilacerava o canto. Chegavam as frases indistintas, incompletas, como destroços de uma página rasgada ao vento.

Amélia ouvia com febre, reconstruindo de memória as palavras desfeitas. Aquela voz cantavalhe do passado; a letra lamentosa era uma queixa irônica das suas recordações

La sapienza del sorriso

Se ne andó da questo mondo Con quel nom dal negro viso...

Lembrava-se...

Seis meses não eram decorridos.

Moça feita, pensavam em casá-la. O comendador, seu pai, homem despótico e violento, habituado a comandar caixeiros nos armazéns, a levar as fazendas a pontapés, comunicou-lhe sumariamente que acabava de prometê-la em casamento ao visconde de N., um grande partido! Titular e milionário! A moça quis falar. O comendador deu-lhe as costas. Não estava acostumado a ouvir recriminações dos fardos, quando os consignava. Mas, como o casamento ocasionaria separação, aventou-se a idéia de mandar fazer a óleo o retrato de Amélia. O comendador queria muito bem à filha; o retrato seria uma lembrança viva e perene. E, depois, o retrato se havia de exibir com a declaração: por ordem do Sr. comendador...

Escolheram o artista para o trabalho.

A sorte remenda às vezes como pode o tecido das suas piores tramas. O pintor preferido foi Armando, o nobre artista, laureado na Europa, respeitado na pátria, Armando, o ídolo e o idólatra de Amélia (ignorava-o por certo o comendador), Armando, o bravo trabalhador que contava estar muito breve habilitado no conceito do pai a pretender a mão da filha por algum merecimento menos abstrato que a pura glória do seu nome. Desde crianças conheciam-se os dous. Amavam-se havia alguns anos. A esperança do casamento nutria-lhes um amor tranqüilo, de parte a parte, distanciado e discreto. A casa de uns parentes de Amélia, amigos íntimos da família de Armando, era o ponto de encontro. Nessa casa, ouvira uma vez Amélia a composição de Tosti cantada por Armando, com a bela voz de que dispunha, energicamente timbrada. E, daí em diante essa música envolvera o seu amor, como uma espiral de flores.

Oggi é morto il gran poeta

Daí satirico ardimento Che mescé la goccia lieta Nelia coppa d'ogni evento.

Para fazer o retrato, Armando vinha regularmente passar algumas horas todos os dias em casa do comendador, cuja estimável senhora, com a solicitude de mãe zelosa, durante as sessões não arredava pé da sala feita atélier.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4243444546...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →