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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

"Meus irmãos, concentremo-nos para que os nossos bons fluidos se convertam em medicina, preparando a água que deve curar os enfermos.

Uma velha ajoelhou-se e, d'olhos no teto, mãos postas, estatelou-se em ascese; e o homem pôs-se a dizer a prece lentamente, com o surdo e arquejado acompanhamento de toda a devota assembléia.

"Imploramos aos Bons Espíritos e aos nossos Anjos da Guarda, em nome de Deus, nosso Bom Pai de Amor, para envolver-nos com os seus fluidos salutares, a fim de transmiti-los a esta água, que será medicamento, porque servirá de veículo aos nossos bons fluidos. Desejamos, antes dos curativos dos nossos corpos, curar os espíritos, arrancando de nós o ódio, o crime, o orgulhoso egoísmo, que são enfermidades d'alma, piores que todos os sofrimentos da vida terrestre. Bom Pai, nós queremos nos regenerar e, animados pela fé ardente no vosso divino amor e pela certeza inabalável na vida futura, pedimos a proteção dos Espíritos Elevados, nossos filhos e nossos irmãos amados, em vosso santo nome, para que se faça em nós, sempre, a vossa santa vontade."

Terminada a prece, persignaram-se todos, com um murmúrio devoto, e o homem declarou:

'Que os doentes podiam ir encher as suas garrafas."

Produziu-se sôfrego alvoroço. As mulheres tiravam garrafas debaixo nos xales, desembrulhavam-nas e lá iam, aos apertões, arrastadamente, em direção à pia, cuja torneira jorrava gorgolejando.

Era a água santa, impregnada de fluidos espirituais, benzida pelos anjos de Deus, e aqueles que a recebiam veneradamente saíam consolados. Uns bebiam ávidos, não por sede, mas porque sofriam e logo, aliviados, como se os bálsamos angélicos houvessem operado instantaneamente, retiravam-se fazendo lugar aos que chegavam. E interrogavam-se sobre as melhoras: se já caminhavam com mais segurança; se viam melhor; se as dores haviam abrandado.

Um velho meteu-se a um canto com a sua garrafa e, despejando a água no côncavo da mão, pôs-se a banhar os olhos, e a negra, despertando a criança enferma, chegou-lhe à boca seca um copo d'água, que a pobrezinha sorveu com sofreguidão, aos grandes goles, arquejando. O homem da prédica, enquanto os crentes cercavam a pia, dirigiu-se a Dona Júlia. A velha, profundamente abalada por aquele espetáculo estranho, só deu pelo apóstolo da santa missão quando Felícia chamou-a:

— Minh'ama.

Voltou-se e, vendo o homem, muito trêfego, a agitar-se diante dela, com os olhinhos vivos e lampejantes cheios de malícia, sentiu um arrepio, mas passivamente, dominada, encolheu-se cruzando os braços.

— É a primeira vez que vem aqui, minha senhora?

— Sim senhor.

— É a senhora de quem eu falei a vosmecê: minh'ama — disse Felícia com um sorriso servil.

O homem acenou afirmativamente com a cabeça e, como a velha cabrocha se aproximasse, batendo com o cajado, chamou-a e, apresentando-a, disse:

— Olhe, minha senhora, esta criatura que aqui está demonstra, à evidência, a verdade da nossa crença. Eu sei que por aí assoalham que vivemos a explorar a ignorância dos ingênuos, entretanto, quando apresentamos provas, riem com ironia porque não podem refutar a verdade dos fatos. Aqui está uma. — Dirigindo-se, então, à cabrocha, perguntou: Para que é que você vem buscar esta água?

A interpelada, como se não quisesse confessar a sua crença em presença de uma estranha, respondeu secamente:

— Porque venho!

— E porque tem sentido melhoras, não?

— Apois... se eu não sentisse não vinha.

Mas a língua desatou-se-lhe, gárrula, e contou toda a história da sua moléstia: Três meses entrevada numa cama, gemendo, sem uma ora de alívio, até que uma conhecida lhe deu uma garrafa daquela água. Foi pronto beber que logo começou a melhorar, como por milagre. Ao cabo de quinze dias estava outra: andando, trabalhando. Mostrou a garrafa e, avaramente, guardou-a, de novo, debaixo do xale roto.

— Eu também não acreditava, minha dona, nem queria saber dessas coisas, mas vi! Não foi coisa contada, foi comigo. Estou assim. — Levantou a saia e mostrou o pé hediondamente deformado pela elefantíase, uma perna monstruosa, com a carne grossa, engelhada em dobras encoscoradas, coberta de cicatrizes.

Dona Júlia olhava, quando uma mocinha parou diante dela, com uma sacola, esmolando para os pobres. Felícia atirou umas moedas, por ela e pela ama e o homem chamou a crioula que ninava a filha enferma.

— Então: como vai ela?

— Parece que agora vai um pouquinho melhor, com a graça de Deus.

— É outro caso, — explicou o apóstolo. — Esta criança não dormia, com a coqueluche, estava inchada e, com cinco dias de tratamento... Cinco dias, não?

— Cinco, sim, senhor; uma colherinha d'água no café.

— Está melhorando. E dorme bem, não?

— Ainda tosse, mas não tanto como tossia.

— Vê? — Dona Júlia concordou. — E seu marido?

A cabrocha encolheu os ombros.

— Esse é que está no mesmo, coitado!

— Mas... — e coçando o queixo com frenesi: tem feito o que eu disse?

— Tenho sim, senhor.

— E donde vem essa água? perguntou Dona Júlia.

— Da caixa; é água da caixa, mas impregnada de fluidos superiores.

— E cura?

(continua...)

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