Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Qual morta! Viva como um alho... Pois se o meu cavalo tremia que era um horror. Ah! Meus amigos, que berro! O cavalo empinou e eu senti as barbas do animal no meu rosto. Estou morto! — disse com os meus botões, mas sem perder a calma, soprei uma baforada de fumo, e foi a minha salvação! A onça começou a tossir e a espirrar dando-me tempo para arrancar dos coldres a garrucha e, sem precipitação, encostei-lhe o cano da arma à fronte e disparei. O animal rolou pesadamente na terra. Era um monstro! Aí têm vocês toda a minha aventura. A quem devo a vida?

— Ao charuto, sem dúvida.

— Ao charuto! E dizem que o fumo faz mal.

— E quando chegaste da Bocaina? — perguntou Ruy Vaz.

— Ontem à noite.

— E ainda haverá por lá alguma onça?

— Não, aquela era a última.

— Bem, então agora podes cuidar da casa.

— Sim, posso. Encarou o romancista e exclamou: Que diabo! Parece que vocês desconfiam de mim!

— Não, ninguém desconfia de ti, Crebillon. Mas deves compreender que é um suplício vivermos em uma casa como esta sem uma cadeira e com esse soleníssimo fogão apagado. Confiamos em ti, mas...

— Mas quê?

— Nada...

— Pois na próxima segunda-feira os senhores terão aqui os trastes. Eu só tenho uma palavra.

Era noite fechada. João de Deus já havia iluminado a casa quando os rapazes entraram e subiram ao pavimento superior para ver os preciosos móveis do presidente. Crebillon não parecia muito disposto a mostrar os seus haveres, tinha certo pudor querendo adiar para o dia seguinte a exposição, mas Ruy Vaz forçou a entrada e, no quarto, o romancista pasmou da sobriedade:

— É isto, Crebillon?

— Sim senhor, nada mais.

— Nem cama, ao menos?

— Nunca me deitei em camas. Nasci em rede e em rede hei de morrer.

A rede oscilava entre a porta e a janela. Havia uma pequena mesa de pinho envernizado, duas cadeiras, uma canastra e vários embrulhos que Crebillon começou a desfazer resmungando:

— Vocês têm a mania do fausto... pois, meus amigos, não há como a modéstia. O luxo excessivo entibia o caráter e amolece o físico. Lancem vocês um olhar ao passado e hão de ver que as nações começam a enfraquecer à medida que se vão tornando suntuosas: Babilônia caiu com o devasso Nabonahid. Sempre vivi assim detestando a pompa e sou um forte, sou um homem! Acho que o luxo deve ser comedido — uma boa sala de jantar, um salão deslumbrante, mas no quarto de dormir um duro grabato ou uma rede, nada mais. As camas enfraquecem e depravam. Aqui está a minha mobília: a rede, a mesa em que somo parcelas e escrevo à família, duas cadeiras, a minha espingarda inglesa, os couros das feras que tenho abatido, um gogó de macaco...

— Gogó de macaco! Para que diabo queres gogó de macaco?

— Para a minha asma. Quando me vem o acesso bebo um d'água pelo gogó e fico logo curado.

— E aquele couro que ali está, perto da mesa; é de alguma fera?

— É de cutia. Uma cutia levada dos diabos, que matei no Desengano. Persegui-a durante todo um dia a cavalo, com vinte e quatro cães e só ao cair da noite consegui matá-la à beira de um açude.

E, à medida que ia desfazendo embrulhos e pacotes, complicadamente enleados, contava a história de cada um dos objetos que expunha à admiração do grupo. Eram peles curtidas, presas de onças, colmilhos de caititus, bicos de tucanos, cascos de tartarugas, garras de rapaces, caveiras de monos e uma vértebra de baleia que era o seu banco predileto; várias facas e um ferro de lança enferrujado e roído. Quando tomou entre os dedos essa antigalha épica, disse com solenidade:

— Isto que vocês vêem foi achado no campus ubi Troya fuit! É o espículo de uma sarissa grega, talvez da que foi de Agamenão ou de outro qualquer dos chefes que sitiaram e arrasaram a cidade de Príamo. Um inglês ofereceu-me quatro mil libras por este ferro e teria elevado a oferta a dez mil, se eu não lhe houvesse dito que não me desfazia deste objeto nem que ele me oferecesse a própria Inglaterra com todas as suas colônias.

Anselmo arregalou os olhos admirando a preciosíssima peça e quis vê-la de perto, tomou-a e só achou aspereza e ferrugem, mas recordando Homero, lembrouse de que aquele pedaço de ferro velho talvez houvesse pertencido ao filho de Peleu, talvez houvesse atravessado o corpo de Heitor e, enquanto Crebillon ia mostrando aos outros vários objetos curiosos, o autor de A Profecia, à luz do gás, revolvendo entre os dedos o ferro da lança, recapitulava a Ilíada, rapsódia a rapsódia, ouvindo não somente o armistrondo e o alarido como a voz dolorosa de Cassandra que profetizava e os gritos e o guaiar de Hécuba infeliz.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4142434445...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →