Por Lima Barreto (1911)
Os contínuos e oficiais de gabinete passavam sem pousar o olhar sobre nenhum dos circunstantes; gordos e bem trajados senhores surgiam por debaixo dos reposteiros e atravessavam a sala sorridentes; as campainhas soavam constantemente. Mme. Forfaible ondulante, encerrada no seu vestido impecável, apareceu por entre um reposteiro e foi acompanhada até a porta de saída, por um secretário do ministro.
Bogoloff pode ouvir que ela dizia:
— Os paisanos são muito felizes; nós não temos disso... Meu marido...
E afastou-se não deixando que o russo pudesse ouvir o resto da frase. Bogoloff não estava mal vestido. Tinha adquirido uma sobrecasaca de sarja preta, um colete e calça da mesma fazenda, trazia a barba curta e usava chapéu de feltro. Não se separava do chapéu de chuva; e julgou sempre que esse objeto dá aos brasileiros um aspecto de respeito e ponderação. Começou a perceber que não seria tão cedo atendido e fez sua corte ao contínuo porteiro. Já desanimava, quando os seus olhos deram com Inácio Costa.
— Oh! Doutor! Que há?
— Precisava falar a S. Exa.
— Pois não... Entre! Estamos na democracia; os conselheiros já se foram. Estou no gabinete deste ontem.
O contínuo afastou-se; eles passaram e Bogoloff foi à presença de Xandu.
Sentava-se o ministro a uma mesa alta, ampla e torneada, inteiramente coberta de papéis, de livros. Nas suas costas, ainda um retrato de Floriano e, ao lado, a uma mesa menor, o secretário que conversava com um oficial do exército.
Acolheu-o Xandu com uma certa frieza, mas, desde que leu a carta, fez-se prazenteiro e amável:
— Oh, Doutor! Desculpe-me! Desculpe-me! Já me havia esquecido do senhor... Não sabe como ando atarefado. Hoje já assinei 1.557 decretos... Sobre tudo! Neste país está tudo por fazer! Tudo! Em dias, tenho feito mais que todos os governos deste país! Já assinei 2.725.852 decretos, 78.345 regulamentos, 1.725.384.671 avisos... Um trabalho insano! Fala inglês?
— Não, Excelência.
— Eu falo. Desde que o falei com desembaraço, as minhas faculdades mudaram. Penso em inglês, daí me veio uma salutar reação que me interessou todo inteiro. Gosto muito de inglês, com sotaque americano. Experimente... Nascimento! (gritou para o secretário) já temos aquele regulamento sobre a “postura” das galinhas?
Respondeu-lhe o secretário e voltou-se para o russo febril, nervoso:
— O que nos falta é o frio. Ah! A sua Rússia! Eu se quero ser sempre ativo, tomo todo o dia um banho de frio. Sabe como? Tenho em casa uma câmara frigorífica, 8 graus abaixo de zero, onde me meto todas as manhãs. Precisamos de atividade e só o frio nos pode dar. Penso em instalar grandes câmaras frigoríficas nas escolas, para dar atividade aos nossos rapazes. O frio é o elemento essencial às civilizações... Mas, emendou a alta autoridade, ainda não lhe falei sobre seus planos. Macieira fala-me aqui das suas idéias sobre a pecuária. Quais são?
— São simples. Por meio de uma alimentação adequada consigo porcos do tamanho de bois e bois do tamanho de elefantes.
— Como? Mas, como Doutor?!
— Os meus processos são baseados na bioquímica e já foram experimentados alhures. O grande químico e fisiologista inglês Wells escreveu algo a respeito. Não conhece?
— Não.
— H. G. Wells, uma grande sábio inglês de reputação universal, cujas obras estão revolucionando a ciência.
— Não tenho notícia... É uma falha... O senhor tem livros dele?
— Tenho.
— Há de mos emprestar. Mas... de forma que boi dos seus, é?
— São quatro, Excelência. Veja só Vossa Excelência que vantagem não
traz.
— Magnífico! É um portento o seu método de criar. E o tempo de crescimento, Doutor? — O comum.
— É uma maravilha. No mesmo tempo, com um mesmo animal, o senhor obtém efetivamente quatro?
— É verdade.
— Quatro! Estás ouvindo, Nascimento?
O secretário respondeu ao Ministro e continuou mergulhado no expediente. O oficial tinha partido. Um contínuo veio dizer-lhe qualquer coisa. O ministro mandou-o ao secretário.
— Doutor, o senhor é verdadeiramente mágico. Por que não me disse isto há mais tempo?
— Já lhe havia dito na casa do senador Neves Cogominho.
— Ah! É verdade!
— Não se cifram nisso, Excelência, as vantagens dos meus métodos.
— Ainda tem outros?
— Tenho, como não?
— Quais?
— Ainda consigo a completa extração dos ossos do meu gado.
— Completa?
— É um modo de dizer. Reduzo-os ao mínimo, quando chegar a época da matança, e os transformo em carne no animal vivo.
— Que gado lhe serve?
— Qualquer! Suíço, francês, inglês... Não faço questão; o essencial é haver boi.
— E os porcos?
— Também! Qualquer!
— Extraordinário! Estás ouvindo, Nascimento? — gritou para o secretário.
O acolhimento que dispensou aos seus projetos o excelentíssimo senhor ministro do Fomento Nacional, animou o russo a improvisar novos processos que levantassem a pecuária no Brasil. Xandu, com o cotovelo direito sobre a mesa e a mão respectiva na testa, considerava Bogoloff com espanto e enternecido agradecimento.
— Ah! Doutor! — disse ele. — O senhor vai dar uma glória imortal ao meu ministério.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.