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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Ouçam vocês, e pasmem. Tenho um amigo na Bocaina, Simas Fontainha, um gigante, que negociou em negros e possui hoje uma fortuna que os herdeiros calculam em oitocentos contos, parte em dinheiro, parte em terras magníficas de lavoura e gado. Esse homem, que orça pelos sessenta anos, com todos os dentes e sem um fio de cabelo branco, é um dos mais intrépidos caçadores que tenho conhecido, e eu caço desde os quinze anos, tenho caçado em todas as florestas do Brasil, desde o Amazonas até o Prata, como no hino. Sempre que o Fontainha pretende fazer uma surtida, manda-me aviso, porque, diz ele, não há quem atire como eu. Atiro regularmente, isso atiro! — afirmou com orgulho, alisando a pêra, e, de olhos altos, vendo passar um morcego, fez um parêntesis. Num cavalo à rédea solta mato andorinhas no vôo, andorinhas ou morcegos, conforme a hora. Isso é nada para mim. Mas voltando ao caso. Justamente no dia em que aqui estive com vocês, chegando à casa, encontrei uma carta de Fontainha. Cá está ela! tirou do bolso profundo a carta atribuída ao Nemrod da Bocaina e pôs-se a fazer a leitura com um vozeirão trovejante:

"Crebillon. Anda por aqui uma onça terrível, que me tem levado a flor dos rebanhos: é um carneiro por noite, às vezes novilhos. Pus a minha gente em campo e já lhe descobriram o paradeiro. Vem dai, quanto antes, para ajudar-me a dar cabo da fera, senão fico sem uma vaca de leite. Não é pela vaca, mas pelo leite. Bem sabes que não posso dispensar o meu topázio pela manhã, mungido pelas minhas próprias mãos, no curral. Se a onça levasse as vacas e deixasse os uberes eu não iria incomodar-te pedindo o teu poderoso auxílio e a tua pontaria, mas vão-se também as tetas e eu não estou em idade de ser desmamado. Vem. Conto contigo."

Dobrando a carta, atafulhou com ela no bolso interior da calça e continuou: Devo grandes obséquios a Simas Fontainha. Tratava-se, não de um simples divertimento, mas da salvação da fortuna do meu amigo. Não hesitei. Fiz uma pequena bagagem, encerrei no estojo a minha espingarda inglesa e, às cinco da manhã, seguia eu para a estrada de ferro que me deixou na Cachoeira de onde, a cavalo, parti para as terras devastadas do meu amigo. Quando passei a porteira houve um grande clamor no terreiro da fazenda: "Está morta a cotó! Está morta a cotó!" E o numeroso bando dos caçadores veio ao meu encontro, saudando-me com delírio. Simas tinha lágrimas nos olhos e, quando me apertou nos braços, senti que tremia aquele homem extraordinário que, com um murro da mão canhota, aos vinte e cinco anos, derrubou dois touros.

— Dois! — exclamou Anselmo.

— Sim, dois: um, o que levou o murro, outro porque estava atrás do primeiro e foi por ele esbarrado tão violentamente que caiu como se o houvesse fulminado um raio. Não prometi grande coisa, mas disse: "Fontainha, meu amigo, a onça que peça a Deus que eu não lhe ponha os olhos em cima." Como é ela?

— É uma onça sem rabo.

— Sem rabo? Amanhã será mais do que isso — será uma onça sem cabeça. Corto-lhe a cabeça com uma bala!

— Com uma bala!?

— Com uma bala! Pois então? Achas impossível? — perguntou a Ruy Vaz. Pois, meu amigo, é só questão de pontaria. Eu, com uma boa espingarda, faço o que quero. Não digo que corte a cabeça, mas derrubo a onça e depois é só um talho de faca. Pensam vocês que é coisa do outro mundo cortar a cabeça a uma onça? É facílimo; questão de calma. Mas vamos ao caso. Fontainha, levando em conta a viagem fatigante que eu fizera, marcou a caçada para a noite seguinte, mas eu protestei logo, com energia:

"Não senhor, há de ser hoje mesmo, vamos ao antro!" O meu amigo quis ainda argumentar, mas eu fui inflexível: "Há de ser hoje mesmo." Meti-me num banho morno, devorei duas costeletas e, às onze horas, com o luar, partimos para a serra com vinte e tantos cães. Éramos dezoito ao todo, dezoito homens ferozes. Fomos seguindo os passos relentados do cavalo do guia, e, para a madrugada, chegando a uma estreita garganta, senti o meu cavalo estremecer e logo um dos cães partiu galgando umas rochas e desapareceu. Estávamos junto de uma grande árvore e olhávamos na direção que havia seguido o cão, quando o vimos reaparecer murcho, farejando os caminhos; os outros andavam longe. Vendo eu que ainda não havíamos encontrado a fera, acendi um charuto e dei o sinal de partida... Mas tu fumas quando caças, Crebillon?

— Eu fumo sempre. Já os nossos cavalos iam caminhando quando o cão investiu contra a grande árvore, ladrando, ganindo furiosamente, a arranhar o tronco como se quisesse subir por ele acima. "A bicha está ali!" — disse um dos homens e tornamos todos, pondo cerco à grande árvore. Levantando os olhos, e procurando ver por entre as folhas, descobri a fera entre os altos ramos. Os olhos luziam-lhe como duas brasas e o meu cavalo tremia que era uma vergonha. Ainda assim levei a arma à cara e pum! A onça veio abaixo...

— Morta?

(continua...)

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